Os sons e imagens daquele domingo, dia 23 de agosto de 1987, ainda estão vivos na memória de Reinaldo Antônio Baldessin. Agora com sessenta e cinco anos ele já não tem mais o vigor físico e a potência que o caracterizavam na época em que vestia a camisa oito do Joinville, mesmo com o andar mais lento e alguns quilos a mais, que a idade traz para todo mundo. Aquela perna direita ainda ostenta o talento que marcou uma cidade.

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Se hoje os nomes compostos dominam o futebol, na época, a mística dizia que para um jogador dar certo ele tinha que ter algum apelido, por isso, desde cedo, ele era conhecido como Nardela.

Dono de sete títulos catarinenses — todos pelo JEC — o meio campista chegou em terras joinvilenses no ano de 1980 vindo do interior de São Paulo, o que era para ser uma passagem de uma temporada virou algo muito maior, a cidade de Joinville virou lar para ele e o clube a sua casa. Junto com tudo isso, vieram também os títulos.

— Eu não diria imbatível.. mas era um time que tinha uma supremacia naquela época pela qualidade dos seus jogadores, por todo investimento que o time fazia. Eram jogadores de time grande — relembra Nardela.

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No entanto, a temporada de 86 reservava um fim diferente, após ser campeão oito vezes consecutivas — feito nunca repetido no Campeonato Catarinense — o Tricolor viu um dos grandes rivais da época, o Criciúma, levantar o caneco.

Pôster do título catarinense de 1987
Elenco do JEC que colecionou títulos nos anos 1980

Retomando a hegemonia Tricolor

Na equipe que ainda contava com nomes como Paulo Egídio e Dorival Jr — ele mesmo, campeão da Libertadores como técnico pelo Flamengo — o ano de 87 surgia como o ano da redenção, uma oportunidade para retomar as conquistas e a hegemonia construída. As palavras do camisa oito resumem o sentimento na época:

— Houve aquela perda né… A gente estava muito acostumado a ganhar. Nós não sabíamos mais conviver com derrotas, então se tornou uma questão de honra para nós. Vamos ter que recuperar isso. Vamos recuperar de novo. E fomos atrás.

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Mas o caminho era longo, se hoje o Catarinense é jogado em turno único e depois mata-mata, indo no máximo até meados de abril, naquela época era bem diferente. O Estadual chegava a ter três turnos, hexagonal final e ia pelo menos até agosto.

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Em 1987, o campeonato teve dois turnos e dez clubes na disputa, inclusive com a presença de equipes que nem existem mais, como o Paysandu, que está licenciado do futebol profissional, e Ferroviário, que se tornou o Tubarão Futebol Clube.

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Caminho até a final

O Catarinense de 87 começou em fevereiro, o primeiro turno, a taça Aderbal Ramos da Silva, teve o Criciúma como campeão — batendo o JEC na final — já no segundo semestre, na taça Kurt Meynert, novamente o Coelho chega à final, dessa vez bate a Chapecoense e é campeão. Final do campeonato entre os dois campeões de turno, certo? Errado.

O campeonato ainda previa uma fase final, que era nada menos que um quadrangular, quem fizesse mais pontos sagrava-se campeão — agora sim. Nele, além do Joinville, também estavam Criciúma, Chapecoense e Avaí.

Antes de chegar aquela tarde do dia 23 de agosto, o Tricolor somou oito pontos (lembrando que a vitória, na época, dava dois pontos e não os três de agora), e tinha como adversário direto o Criciúma, com seis. Quis o destino que as duas equipes se enfrentassem na última rodada. A vantagem era do JEC, mas o Tigre jogava em casa e precisava ganhar de dois gols de diferença para garantir o bicampeonato. Mas não seria daquela vez.

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A lesão que quase mudou a história

O bater de asas de uma borboleta no Hemisfério Norte pode causar um tufão no Hemisfério Sul. Essa é a teoria do caos, também chamada de efeito borboleta. No futebol ele é encontrado na frase “E se?”. E se Ghiggia não tivesse feito o dois a um no Maracanaço? E se Oliver Kahn tivesse encaixado a bola de Rivaldo? E se Zico não tivesse errado o pênalti contra a França em 86? São muitas as conquistas — e derrotas traumáticas — que são definidas em segundos. E foi isso que aconteceu no Heriberto Hülse.

— Eu tive uma contusão na cabeça em um choque e saí do jogo, mas retornei graças a uma bandagem feita com a faixa que a gente enfaixava o pé, porque na época não tinha a famosa touquinha que hoje tem. Enfaixou minha cabeça lá. Ficou horrível, ficou feio pra dedéu.

Nardela jogou com a cabeça enfaixada
Nardela jogou com a cabeça enfaixada

A lesão não ia impedir a consagração de Nardela, dentro de campo uma atuação irretocável: participando do primeiro gol de Geraldo Pereira antes do choque e, depois que o curativo caiu, fazendo o segundo, após uma jogada inesquecível, que ainda está fresca na cabeça dele.

Não tinha tempo para mais nada, no momento em que José Roberto Wright – arbitro célebre e comentarista – pediu a bola, mas ainda faltava algo para a consagração completa: o reconhecimento do país. O gol foi escolhido como o “gol do Fantástico” que premiava o gol mais bonito do fim de semana.

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A festa foi completa. “Um dia maravilhoso aquele em 87”. Relembra Nardela, sobre o dia em que fez um dos 130 gols pelo JEC, vice-artilheiro da história do clube.

Hoje ainda morando na cidade que ele escolheu como lar, Nardela é diretor de futebol do JEC e trabalha na tentativa de reconstruir o passado glorioso da equipe, mas sempre olhando para o futuro.

— É algo que eu já tinha feito lá em 2001 a 2008, quando tivemos a felicidade de revelar alguns jogadores, como o Ramíres.

Atuando junto ao departamento de futebol ou prospectando garotos, Nardela é a história viva do Joinville Esporte Clube, elo entre passado e futuro de um clube que tenta se reerguer.

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— Esse sentimento de resgate do clube, de recuperação do nosso JEC que todo mundo gosta na cidade. Então é isso que eu tenho em mente aqui. Quero contribuir, dar uma contribuição. Espero que em breve o Joinville se recupere e volte a ser forte em nível estadual e nacional.

“Nasceu campeão” é o que diz o hino do JEC, mas voltar a ser campeão é o lema atual, quem sabe o próximo Nardela não está agora fardado de vermelho, preto e branco?

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