Há objetos que envelhecem. Outros atravessam gerações carregando histórias. Em uma estante cuidadosamente protegida na casa de Mario Dalla Vecchia, em Ponte Serrada, no Oeste catarinense, repousa um pedaço da história do futebol brasileiro.
Continua depois da publicidade
Aos 69 anos, ele guarda com orgulho um álbum da Copa do Mundo de 1970 completado ainda na adolescência, quando estudava em um seminário no município de Ibicaré. O item, preservado há 56 anos, voltou aos holofotes recentemente depois que um vídeo mostrando suas páginas foi publicado nas redes sociais e alcançou centenas de milhares de visualizações.
O sucesso inesperado transformou uma recordação pessoal em um fenômeno de nostalgia para apaixonados por futebol de diferentes gerações.
— Eu jamais imaginei uma repercussão dessas. Meu neto pediu para ver o álbum, comecei a folhear e contar algumas histórias. Meu filho estava filmando e eu achei que era só para guardar de lembrança. Quando vi, o vídeo estava na internet e hoje tem mais de 460 mil visualizações — conta.
Copa de 1970 foi ouvida pelo rádio
Quando a Copa do Mundo começou, em 1970, a realidade era muito diferente da atual. Não existiam celulares, internet ou redes sociais. Até mesmo a televisão era um privilégio raro em muitas cidades do interior. Mario lembra que acompanhou praticamente toda a campanha brasileira pelo rádio.
Continua depois da publicidade
Na época, ele era um dos 53 seminaristas que estudavam em Ibicaré. Apenas quatro ou cinco colegas possuíam aparelhos de rádio.
— A gente se reunia em grupos para escutar os jogos. Era a forma que tínhamos de acompanhar a seleção. Não tinha televisão no seminário e nem na cidade. Tudo era pelo rádio — recorda.
Entre as partidas daquele Mundial, uma permanece viva na memória:
— O jogo que mais me marcou foi Brasil e Inglaterra. Foi uma partida muito difícil. Quando saiu o gol do Jairzinho e o Brasil venceu por 1 a 0, aquilo ficou gravado para sempre.
Jairzinho, aliás, terminou a competição como um dos grandes nomes da seleção, marcando gols em todas as partidas do torneio.
Continua depois da publicidade
A final vista em uma única televisão
Se acompanhar os jogos já era difícil, assistir a uma partida pela televisão era ainda mais raro. Mas a decisão entre Brasil e Itália reservou uma experiência inesquecível para o então adolescente.
O diretor do seminário, padre José Maria, autorizou os estudantes a se deslocarem até a comunidade de Gramados Leite, no interior de Ibicaré, onde havia o único televisor da região que transmitia o sinal.
A caminhada foi de cerca de quatro ou cinco quilômetros. No salão do clube da comunidade, uma televisão preto e branco instalada sobre um palco reuniu moradores e seminaristas.
— Era uma televisão grande, de madeira. A imagem chovia bastante, mas dava para assistir. Eu vi aquela final ali. Brasil 4, Itália 1. Parece que foi ontem. Tenho tudo muito vivo na memória.
Continua depois da publicidade
Naquele dia, o Brasil conquistava o tricampeonato mundial com uma das seleções mais reverenciadas da história do futebol.
A escalação permanece decorada por Mario até hoje:
— Félix, Brito, Piazza, Carlos Alberto, Everaldo, Clodoaldo, Gérson, Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivellino. Aquela seleção era fantástica.
Um álbum construído com sacrifício
Enquanto hoje colecionadores contam com aplicativos de troca, grupos em redes sociais e milhares de pontos de venda, completar um álbum em 1970 exigia paciência e criatividade. O dinheiro era escasso e comprar figurinhas nem sempre era possível.
— Eu dependia muito das figurinhas repetidas dos colegas do seminário. Alguns doavam. Outras eu conseguia comprar quando sobrava algum dinheiro. Levei cerca de três meses para completar o álbum.
Continua depois da publicidade
Uma característica torna a peça ainda mais curiosa. Diferentemente das edições atuais, o álbum foi produzido após a Copa do Mundo e traz registrados os resultados das fases decisivas do torneio.
— Ele já vinha com os resultados dos jogos das fases finais. Era diferente dos álbuns de hoje.
Quando finalmente conseguiu completar a coleção, Mario tomou uma decisão que manteria por toda a vida: preservar aquele objeto como uma relíquia.
O álbum que nem os filhos podiam manusear
Ao longo das décadas, o álbum acompanhou mudanças tecnológicas, novas Copas do Mundo e gerações da família. Mas uma regra nunca mudou. Ninguém podia mexer nele sem supervisão.
— Eu mostrava para os meus filhos, mas não deixava brincar. Depois guardava novamente. Sempre ficou em um lugar protegido.
Continua depois da publicidade
O cuidado atravessou os anos. O álbum passou por exposições culturais, gincanas e eventos escolares, mas sempre sob vigilância do proprietário.
— Quando levava para alguma exposição, ficava sempre por perto. É uma peça que tem muito valor sentimental para mim.
Hoje, apesar de já ter recebido propostas e comentários sobre uma possível venda, Mario garante que não pretende se desfazer da coleção.
— Já falaram em comprar, mas não tenho interesse. Quero deixar para os meus netos. Depois eles decidem o que fazer.
Continua depois da publicidade

O corintiano que nasceu por causa de Rivellino
O álbum não guarda apenas memórias da seleção brasileira. Ele também ajuda a explicar uma paixão que acompanha Mario há mais de meio século. Antes da Copa de 1970, ele ainda não havia definido para qual clube torceria.
Mas a combinação entre a admiração por Roberto Rivellino e a influência de um colega de seminário mudou tudo.
— Eu estava dividido entre Grêmio e Palmeiras. Mas tinha um colega muito corintiano e o Rivellino fez uma Copa extraordinária. Foi por causa dele e da seleção que virei corintiano. E continuo sendo até hoje.
A admiração pelo camisa 11 permanece intacta. Para Mario, Rivellino era um dos símbolos daquela equipe que encantou o mundo.
Continua depois da publicidade
Uma relíquia que conecta gerações
Mais do que um álbum de figurinhas, o objeto se transformou em uma ponte entre diferentes épocas. Nas redes sociais, jovens descobriram personagens históricos da seleção de 1970. Pessoas que viveram aquele período voltaram a recordar onde estavam durante o tricampeonato mundial.
Uma das mensagens que mais emocionou Mario veio de uma familiar de um dos jogadores.
— Uma neta do Brito comentou dizendo que o avô dela jogou naquela seleção. Fiquei muito orgulhoso.
Agora, o colecionador pretende continuar compartilhando a história. Nesta semana, ele levará o álbum para um evento realizado em Ponte Serrada, onde haverá troca de figurinhas entre crianças e colecionadores. O combinado, porém, continua o mesmo de sempre.
— Podem olhar, podem admirar, mas com muito cuidado. Não pode tocar.
Ao abrir as páginas amareladas pelo tempo, Mario não vê apenas figurinhas. Vê o adolescente que escutava jogos pelo rádio em um seminário do interior, a caminhada para assistir à final em uma televisão preto e branco e a emoção de testemunhar uma das maiores seleções da história.
— Quando pego o álbum hoje, penso: como consegui completar isso naquela época? Era tudo tão difícil. Mas valeu a pena. É uma recordação que vou guardar para sempre – conclui.
Continua depois da publicidade






