A história do futebol é repleta de craques que alcançaram o topo do mundo, mas poucos carregam uma mística tão avassaladora quanto a de Jair Ventura Filho. Para o planeta, ele se tornou eternamente Jairzinho, o Furacão.
Continua depois da publicidade
Nascido no Rio de Janeiro em 25 de dezembro de 1944 e moldado nos campos de General Severiano, o menino que recebeu a missão quase impossível de substituir Mané Garrincha não apenas aceitou o desafio, mas redesenhou o significado de domínio físico e técnico no esporte.
Sua consagração definitiva veio na mítica Copa do Mundo de 1970, no México, onde ele assinou uma das maiores obras-primas do futebol mundial: marcou gols em todas as partidas do torneio.
Da base do Botafogo à herança de Mané Garrincha
O destino de Jairzinho começou a ser traçado na equipe juvenil do Botafogo, que nos anos 1960 funcionava como uma verdadeira constelação do futebol brasileiro. Dono de uma explosão muscular impressionante e passadas longas, ele pulou etapas e estreou no time profissional com apenas 15 anos, jogando ao lado de lendas como Nilton Santos, Quarentinha e Amarildo.
O grande ponto de virada na sua afirmação aconteceu quando assumiu a ponta-direita de Garrincha, que já enfrentava o declínio físico por conta dos problemas nos joelhos.
Continua depois da publicidade
Jairzinho não se intimidou com a sombra do maior driblador de todos os tempos. Se Mané era a poesia do drible estático e imprevisível, o jovem substituto era a tradução da verticalidade: velocidade pura, força para atropelar marcadores e um chute devastador.
Em pouco tempo, ele liderou o Glorioso em conquistas marcantes, como os Campeonatos Cariocas de 1967 e 1968 e a Taça Brasil de 1968, carimbando seu passaporte para se tornar peça central da Seleção Brasileira.
O ápice em 1970: A tempestade perfeita no México
A Seleção Brasileira chegou ao México sob intensa desconfiança e pressão política. A demissão do técnico João Saldanha e a chegada de Zagallo às vésperas do Mundial mexeram com a estrutura do time. A titularidade de Jairzinho, inclusive, balançou, mas uma lesão do companheiro Rogério garantiu o camisa 7 na equipe principal. O resto é história.
Em um ataque lendário composto inteiramente por “camisas 10” de seus clubes, Jairzinho foi o elemento de força e verticalidade de que o esquema precisava.
Continua depois da publicidade
A campanha jogo a jogo do Furacão:
- Brasil 4 x 1 Tchecoslováquia: Logo na estreia, marcou dois gols, mostrando que o México seria o seu palco;
- Brasil 1 x 0 Inglaterra: No jogo mais tenso da primeira fase, contra os então campeões mundiais, Jairzinho recebeu um passe açucarado de Pelé após a mítica defesa de Gordon Banks e fuzilou as redes inglesas;
- Brasil 3 x 2 Romênia: Garantiu mais um gol, consolidando a liderança invicta do Brasil no grupo;
- Brasil 4 x 2 Peru: Nas quartas de final, em um duelo aberto contra o time comandado pelo mestre Didi, ele marcou o terceiro gol brasileiro;
- Brasil 3 x 1 Uruguai: Na semifinal, contra o maior fantasma do futebol nacional desde 1950, Jairzinho protagonizou um lance cinematográfico. Em um contra-ataque fulminante de 11 segundos, ele correu 73 metros para receber o passe de Tostão, superar a marcação e virar o jogo contra Mazurkiewicz.
A consagração na grande final
Em 21 de junho de 1970, o Estádio Azteca testemunhou o ápice do futebol arte. Na finalíssima contra a Itália, quando o jogo estava empatado, Jairzinho aproveitou uma assistência de cabeça de Pelé para empurrar a bola para as redes.
A histórica goleada por 4 a 1 foi selada com o famoso gol de Carlos Alberto Torres — jogada que também teve a participação direta e o passe de Jairzinho para Pelé antes da assistência final.
Jairzinho encerrou o torneio com 7 gols em 6 jogos, levando a Chuteira de Prata e igualando o recorde do francês Just Fontaine de balançar as redes em todas as partidas de uma mesma edição da Copa do Mundo.
Continua depois da publicidade
O pós-Copa e um legado que descobriu o “Fenômeno”
Após tocar o céu no México, o Furacão retornou ao Botafogo como herói nacional, acumulando um histórico impressionante de 413 jogos e 186 gols pelo clube. Em 1974, disputou sua terceira Copa do Mundo na Alemanha, consolidando-se como o terceiro maior artilheiro do Brasil na história dos Mundiais, com 9 gols no total, empatado com Vavá.
Sua carreira ainda ganhou o mundo: defendeu o Olympique de Marseille, na França, e, ao retornar ao Brasil, liderou o Cruzeiro na conquista da Copa Libertadores de 1976. Antes de pendurar as chuteiras em seu amado Botafogo em 1981, ele ainda espalhou seu futebol pela Venezuela, pela Bolívia e pelo futebol amazonense.
Fora das quatro linhas, a contribuição de Jairzinho ao futebol ganhou contornos de divindade. Trabalhando em projetos sociais e como treinador nas categorias de base do Rio de Janeiro, ele identificou um brilho especial em um garoto magricela no São Cristóvão.
Jairzinho lapidou e apresentou ao mundo o jovem Ronaldo em 1993. Anos mais tarde, o jogador se tornaria o “Fenômeno” de Cruzeiro, Barcelona, Real Madrid, PSV, Inter de Milão, Milan e Corinthians, além da Seleção, pela qual ganhou duas Copas do Mundo, em 1994 e 2002.
Continua depois da publicidade
