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    Gravidez na adolescência

    Uma em cada três gestantes em Taió, no Alto Vale do Itajaí, tem menos de 18 anos

    Situação preocupa o município, já que recomendação da Organização Mundial da Saúde é de uma adolescente em cada cinco grávidas

    09/04/2016 - 04h02 - Atualizada em: 09/04/2016 - 06h43

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    Por Redação NSC
    Com apenas 15 anos, jovem de Taió irá largar os estudos para ser mãe
    Com apenas 15 anos, jovem de Taió irá largar os estudos para ser mãe
    (Foto: )

    O coração que pulsa no peito de Priscila* mantém vivo um segundo coração que também bate dentro dela. Moradora de Taió, no Alto Vale do Itajaí, ela espera o nascimento do primeiro filho para o próximo mês. As roupinhas do menino que está por vir já estão dobradas na cômoda que fica no quarto da gestante em uma casa modesta que ela divide com o restante da família. A descrição poderia ser cotidiana, não fosse um detalhe: Priscila tem apenas 15 anos.

    Aos oito meses de gravidez, a menina é uma das 27 adolescentes que em breve darão à luz na cidade. Das 109 mulheres que esperam bebês hoje em Taió, 24,7% têm de 10 a 19 anos - faixa etária que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), corresponde ao período da adolescência. A mais nova do grupo tem 13. Pelos dados da OMS, cerca de 16 milhões de jovens viram mães todos os anos no mundo principalmente nos países em desenvolvimento. Uma em cada cinco grávidas tem menos de 18 anos. Em Taió a proporção é maior: passa para uma em cada três. Mapeados entre janeiro e março deste ano, os casos têm alertado o poder público e as unidades de saúde do município, que tentam reduzir o índice - em especial entre as jovens com menos de 14 anos, idade em que o Código Penal considera o ato sexual como estupro de vulnerável. De acordo com Leandro Garcia Machado, promotor de Justiça do Ministério Público, o problema deverá ser trabalhado por meio de dois eixos.

    - Primeiro vamos dar o tratamento adequado para as meninas menores de 14 anos, já que é uma questão criminal e os próprios pais podem ser indiciados por omissão. Já para as adolescentes com mais de 14 anos daremos a devida orientação, tanto nas escolas quanto nas empresas onde as famílias trabalham. Essa orientação vai desde o uso dos contraceptivos até palestras que debatam a gravidez na adolescência - explica.

    A reportagem do Santa esteve em Taió na quinta-feira para conversar com fontes oficiais e tentar contato com meninas que enfrentam a gravidez precoce. Muitas não quiseram se expor e disseram ter vergonha da condição. Priscila, no entanto, não se importou em falar. De fato, a garota franzina de longos cabelos parece não entender direito o que acontece com o próprio corpo. Com um sorriso cheio de esperança, repetiu mais de uma vez o quanto sonha em ser modelo. Se o sonho vai ser possível depois de ter um filho? Não sabe. Por ora, a ideia é concluir o oitavo ano da escola.

    - Vou parar quando o neném nascer. Se eu pudesse voltar, teria engravidado mais tarde. Tem tanta coisa ainda pra fazer, né? - diz ela.

    *O verdadeiro nome da jovem foi mantido em sigilo para preservar a sua identidade, em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

    Perfil das gestantes é diversificado

    No entendimento do Ministério Público, a prevenção deve ser tratada de forma lúdica. Peças teatrais, rodas de conversa, palestras e grupos de jovens são os meios previstos para garantir o cumprimento da ação. Há ainda a possibilidade de uma parceria com a Apae do município, que faria espetáculos voltados ao tema gravidez na adolescência, e a criação de um grupo de gestantes no segundo semestre do ano. Um dos grandes impasses, porém, ainda é a falta de comunicação com os pais das meninas.

    - Algumas têm tanto medo que escondem a gravidez dos pais o quanto podem. E tem o outro lado, da mãe da menina que esconde das pessoas porque não quer que a filha se exponha. Tira da escola, do convívio social. Muitas saem da escola após a gestação e não voltam mais - comenta Sirlene Duemes, diretora de Programas Sociais de Taió.

    No total são seis unidades de saúde pública espalhadas pelo município, todas com pelo menos um caso de gravidez precoce. Na maioria dos locais, as enfermeiras destacam que não há um padrão entre as jovens grávidas. Apesar de serem todas adolescentes, há meninas que moram no campo e na cidade; solteiras, casadas e em relacionamentos estáveis; e que engravidam pelos mais variados motivos. Algumas, com menos de 20 anos, já estão no segundo filho.

    - Tem aquela que engravida e fica feliz porque "segurou o namorado", aquela que engravida porque não usou camisinha, porque toma a pílula de forma errada. E, claro, a gente imagina que haja casos de abuso sexual que são omitidos ou desconsiderados. A questão é que adolescência não é hora de engravidar, é nisso que a gente precisa focar - reforça a enfermeira Danielle Aline Herbst.

    Nas próximas semanas a Secretaria de Saúde vai contabilizar os dados e criar um relatório para detalhar os casos na cidade.

    Pré-natal tardio e DSTs preocupam agentes de saúde

    A vergonha da gravidez precoce e o medo dos pais são alguns dos principais motivos que levam as adolescentes a não procurar ajuda no início da gestação. É o que vem acontecendo em Taió, segundo a Secretaria de Saúde. Sirlene Duemes, diretora de Programas Sociais, conta que muitas meninas iniciam o tratamento pré-natal tardiamente, por volta da 21ª semana. O ideal, diz ela, é iniciar as consultas assim que a gravidez for confirmada.

    - Já é uma situação de risco porque a menina não tem o corpo formado, então não tem condições ideais para gerar um bebê. Sem o acompanhamento adequado, essa criança pode nascer com problemas de deficiência ou anomalias. Por isso disponibilizamos um obstetra para tratar destes casos - adverte a profissional.

    Um segundo alerta que soou na cidade foi o crescimento do número de diagnósticos de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs). De acordo com a enfermeira Danielle Aline Herbst, o problema é generalizado e afeta todas as faixas etárias da população de Taió.

    - Lembrando que todos os postos de saúde da cidade distribuem gratuitamente a camisinha, e o exame também pode ser feito conosco - acrescenta.

    Casos repetidos por falta de informação

    O caso de Priscila é apenas um em meio a muitos que têm em comum a falta de informação. Há quem argumente que com a internet e as redes sociais o acesso é mais fácil, mas na região onde mora a menina, por exemplo, não há sinal disponível. A televisão de casa só transmite canais abertos. Na escola, ela conta que só ouviu falar sobre sexo em uma ou duas aulas, e que ainda assim o conteúdo foi repassado de forma superficial, sem muitos detalhes a respeito de métodos contraceptivos e doenças sexualmente transmissíveis. A jovem comenta que em casa o assunto nunca foi abordado de forma séria e preventiva. O pouco que a garota sabe sobre os desdobramentos de uma relação sexual veio de conversas pouco instrutivas com amigos.

    - Se essa menina tivesse creche disponível e condição de trabalhar e dar suporte para essa criança, tudo bem. Mas isso não existe. E tem também a desestabilização emocional e o julgamento da sociedade. Algumas ficam sem o apoio do parceiro e passam por uma condição séria de baixa autoestima - aponta a psicóloga Catarina Gewher.

    Diálogo em casa estimula o sexo seguro, diz psicóloga

    Outro ponto que merece atenção é o impacto social e psicológico nas adolescentes que engravidam. Quando descobriu a gravidez, Priscila decidiu não abrir o jogo com a mãe. Primeiro contou para a irmã e depois tentou ao máximo esconder a barriga dos demais parentes e colegas da escola - segundo ela, por medo de ser discriminada. A jovem conta que o ex-namorado, pai da criança, cortou contato quando soube. Por isso é preciso também orientar os meninos.

    - A atividade sexual vai acontecer de qualquer jeito, então o ideal é que a família tenha diálogo para que seja de forma segura. Quando a mãe e o pai conversam e orientam, o filho vai ter uma atitude mais cuidadosa com o próprio corpo. Já a escola pode atuar intelectualmente nesse aspecto, trabalhar com o adolescente de forma mais científica, principalmente com os meninos. A cultura machista colabora para que a gravidez seja responsabilidade só da mulher, mas é preciso lembrar que eles são a contraparte disso. Eles não engravidam, mas têm que ser orientados também - afirma Catarina.

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