“São heróis modernos, lutando contra o vírus e as carências de uma sociedade desigual”, diz Verissimo sobre profissionais da saúde

Aos 83 anos, escritor Luis Fernando Verissimo enaltece o trabalho dos profissionais da saúde e destaca o papel da literatura e do jornalismo em meio à pandemia que assola o mundo

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(Foto: Eduardo Anizelli, Folhapress)

Era uma sexta-feira ensolarada, perto das 12h, sol a pino e o calor se fazendo presente quando peguei o celular. Na sacada do apartamento, onde soprava uma brisa que refrescava o ambiente, liguei para o número com o DDD 51. Alguns toques depois, do outro lado da linha ouvi, em alto e bom tom: “Alô!”. A voz era de uma senhora supersimpática e atenciosa. Lúcia é o nome dela. E há mais de cinco décadas ela compartilha a vida ao lado de um dos maiores nomes da cultura no Brasil: Luis Fernando Verissimo.

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Apresentei-me e disse que gostaria de conversar com Verissimo, para fazer a entrevista a seguir. Bastou eu terminar a frase com um “é possível?”, para ouvir uma recomendação:

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– Olha, sou casada há 56 anos com ele, e acho que você não vai conseguir tirar muita coisa dele por telefone, não. Recomendo você enviar as perguntas por e-mail. Vai ser melhor.

E assim o fiz. Entre os demais afazeres da jornada de trabalho naquele dia, formulei as perguntas e enviei para o endereço que me foi passado. Dois dias depois, as respostas estavam na caixa de entrada do meu e-mail. Escrevo esse preâmbulo para exemplificar o jeito reservado de um dos maiores escritores, humoristas, cartunistas, roteiristas, autores de teatro e romancistas do país.

Em meio à pandemia do coronavírus, o gaúcho de 83 anos tem seguido as orientações das autoridades e respeitado a quarentena. Diz que sente falta dos amigos, dos restaurantes e cinemas que gosta de frequentar. E resume o momento em uma palavra:

– Paciência.

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Prepara-se para o lançamento de um novo livro de crônicas no mês que vem. Isso se a editora não mudar os planos. Questionado sobre os aprendizados da quarentena, é ácido:

– Aprender, mesmo, nada. Estamos sendo obedientes, esperando que os homens saibam o que estão fazendo e que tudo dê certo. A questão é se alguém sabe o que está fazendo.

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Lamenta a postura do presidente da República e chama os profissionais da saúde de heróis modernos. Perguntado sobre o papel da literatura neste momento, aproveita para refletir sobre o jornalismo:

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– O papel da literatura é o de sempre, o de exercitar a inteligência, e o do jornalismo é de tentar dar um sentido ao que, como agora, parece não ter nenhum.

Futebol, música, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Rubem Fonseca e o futuro pós-pandemia também estão na pauta. Confira na entrevista a seguir:

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Como o senhor tem passado a quarentena? Do que sente mais saudade de fazer?

Quem está sofrendo com a quarentena mais do que a Lucia e eu é nosso filho Pedro, que tinha uma vida social mais intensa do que a nossa. Mas, claro, também sentimos falta dos amigos, e dos restaurantes e cinemas que gostávamos de frequentar. Paciência.

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Vem novidade por aí, por conta da pandemia? Algum novo livro ou outro trabalho?

Um livro de crônicas estava para ser lançado agora em maio. Não sei se a editora vai manter o mesmo plano, ou esperar que a situação melhore. As crônicas do livro são todas pré-pandêmicas.

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O que o senhor mais aprendeu com o isolamento social?

Aprender, mesmo, nada. Como estamos seguindo a orientação de nos isolarmos para enfrentar o coronavírus, estamos sendo obedientes, esperando que os homens saibam o que estão fazendo e que tudo dê certo. A questão é se alguém sabe o que está fazendo.

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Qual é o papel do humor e da literatura em um momento tão duro como este que estamos vivendo?

Pois é, é duro fazer humor com centenas de pessoas morrendo à sua volta todos os dias. O papel da literatura é o de sempre, o de exercitar a inteligência, e o do jornalismo é de tentar dar um sentido ao que, como agora, parece não ter nenhum.

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Como vê o papel do presidente da República nesta crise da saúde pública?

Lamentável.

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Na última semana, o Brasil se despediu de dois grandes nomes reconhecidos na literatura nacional: Luiz Alfredo Garcia-Roza e Rubem Fonseca. O que o senhor pode falar de cada um deles?

O Rubem e o Roza faziam o mesmo tipo de literatura, de gênero, o policial nos dois casos, mas com outras pretensões e o mesmo valor literário. Acho que o Rubem era melhor escritor, mas o tempo e a posteridade talvez favoreçam o Roza.

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No combate à pandemia da Covid-19, diariamente vemos crescer o número de médicos, enfermeiros e profissionais da área da saúde acabam sendo infectados. Qual recado o senhor mandaria para esses profissionais?

São heróis modernos, lutando ao mesmo tempo contra o vírus mortal e as carências de uma sociedade desigual e despreparada, igualmente assassina.

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O senhor adora futebol. Tem assistido aos jogos antigos da Seleção Brasileira reprisados na TV? Se sim, o que sente ao assisti-los?

Apesar da saudade, não tenho visto as repetições dos jogos históricos, que acabam sendo exercícios de nostalgia melancólica, que só aumentam as tristezas do momento.

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O senhor também é um músico de reconhecida qualidade. Tem aproveitado o isolamento social para tocar ou até mesmo compor?

O “reconhecida qualidade” é gentileza sua. Nunca cheguei a dominar o saxofone, que agora está aposentado, junto com outros sonhos vãos e ilusões perdidas.

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Em um exercício de imaginação, como será viajar depois da Covid-19?

Não posso me imaginar entrando em um avião para uma viagem de muitas horas, como fazia antes. Talvez a quarentena esteja sendo uma espécie de treinamento para viver nesse futuro com horizontes mais modestos, e de viagens só até a esquina.

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O senhor acha que a humanidade vai melhorar depois disso tudo?

Acho que estamos vivendo uma espécie de purgação, que marcará algumas gerações. Se seremos purgados para o bem ou para o mal, não sei.