Era novembro de 2019 e Santa Catarina comemorava bons resultados na economia. O Estado tinha a menor taxa de desemprego e ampliava vagas graças à economia diversificada. Enquanto isso, pacientes com pneumonia eram internados no hospital de Wuhan, na China, o nosso principal parceiro comercial. Eram os primeiros casos de uma pandemia que paralisaria o mundo.
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Neste domingo, dia 17, faz 60 dias que o governador Carlos Moisés (PSL) decretou situação de emergência em Santa Catarina, impondo uma série de medidas restritivas para conter a propagação do vírus que matou cerca de 280 mil pessoas no mundo, 12 mil brasileiros e 73 catarinenses até a noite da última quarta-feira, dia 13. As medidas incluíram isolamento social, proibição da circulação do transporte coletivo urbano municipal, intermunicipal e interestadual de passageiros, eventos e reuniões, indústria operando com capacidade mínima, fechamento de shoppings centers, restaurantes, comércio em geral.
Aos poucos houve flexibilização e abertura de alguns setores, conforme a atividade. Outros permanecem em estudo, como o retorno às aulas e o transporte de passageiros. Achar um equilíbrio entre a necessidade de preservar a vida dos catarinenses e garantir-lhes subsistência tem se revelado uma equação difícil.
A retomada precisa iniciar já Mario Cezar de Aguiar, o presidente da Federação das Indústrias de SC (Fiesc)
Eleito com apoio das entidades empresariais catarinenses e pela então sigla do partido de Jair Bolsonaro, o governador Carlos Moisés da Silva (PSL) se viu sob forte pressão das mesmas para aplicar o relaxamento das medidas de restrição impostas. Aguiar diz que inicialmente a entidade apoiou o governador na adoção de medidas. Mas que depois alinhou-se mais com o decreto do presidente da República, o qual estipulava que o nível da atividade deveria estar ligado à essencialidade.
No primeiro momento, explica Aguiar, havia muitas dúvidas a respeito do coronavírus e a preservação da vida era necessária. Mas em nova avaliação a Fiesc entendeu que a economia também deveria ser priorizada. Para que o retorno parcial ocorresse, o governo estadual publicou nova portaria, prevendo que o nível de atividade nas indústrias fosse de até 50%, excetuando-se as essenciais: alimentos, remédio ou materiais de limpeza, por exemplo.
– O governo do Estado demorou um pouquinho na flexibilização – avalia Aguiar.

Pesquisa de entidades aponta o impacto da pandemia na economia
Durante a última semana, Fiesc, Sebrae-SC e Fecomércio-SC divulgaram pesquisa sobre o impacto da pandemia na economia catarinense. A suspensão temporária do contrato de trabalho foi adotada por 24,7% das empresas, e a redução proporcional da jornada de trabalho e salários por 22% das empresas catarinenses. De acordo com a pesquisa, o número de demissões no Estado saltou de 406,1 mil, na medição feita entre os dias 13 e 14 de abril, para 530,2 mil em um levantamento realizado entre 2 e 6 de maio.
– O impacto na economia foi muito mais forte do que se esperava – avalia Aguiar.
Os dados mostram que 408 mil catarinenses estão em regime de suspensão do contrato de trabalho e 462 mil tiveram a jornada e salário reduzidos. Apesar do cenário, Aguiar se mostra esperançoso devido às características do setor. Enumera fatores como uma indústria diversificada, comércio internacional forte (estado é o segundo do país em movimentação de cargas em contêineres), atividade turística com atrativos variáveis no litoral e serra. Acredita que o setor turístico possa ser incrementado à medida que muitos brasileiros irão dar preferência ao turismo interno.
Para o presidente da Fecomércio-SC, Bruno Breithaupt, os impactos da crise desencadeada pela pandemia nos setores de comércio, serviços e turismo são incalculáveis. Não apenas do ponto de vista econômico, mas também social. Os dados de março e abril mostram que as consequências no mercado de trabalho e na operação das empresas são duras e devem demorar a serem revertidas, diz.
O setor de serviços teve queda de 73,6% no volume de vendas. Cerca de 20% das empresas estão fechadas e 1,2% não devem reabrir as portas. Isso não significa apenas queda no faturamento, mas menos emprego e renda. No comércio, 92% dos estabelecimentos estão mantendo algum nível de atividade, mas ainda assim teve queda significativa de 65,2% nas vendas. De acordo com o dirigente, desde o início da pandemia a entidade atua junto ao governo para a retomada segura das atividades, além de contribuir com ações, via Sesc e Senac.
Para Breithaupt, os empresários precisarão compreender as alterações no comportamento do consumo, se adaptar à nova realidade e se reinventar.

"O distanciamento do consumidor levará a um trabalho para reconquistá-lo", diz dirigente da FCDL
Passados 60 dias do decreto que levou ao distanciamento social, a Federação Catarinense de Diretores Lojistas (FCDL) é uma das entidades mais críticos à medida. Para João Carlos Dela Roca, assessor institucional da entidade, as consequências foram mais negativas do que positivas.
– O distanciamento do consumidor levará a um árduo trabalho para reconquistá-lo. Do ponto positivo, apenas e tão somente o tempo para refletir sobre o negócio – diz Dela Roca.
Conforme diretor, o impacto foi enorme para o comércio e mais de 500 mil catarinenses perderam os empregos. Além disso, muitos empresários tentam sem sucesso acesso ao crédito bancário, seja pela burocracia ou por falta de garantias:
– Muitas medidas anunciadas não chegaram de fato às mãos de quem precisa. As vendas também derreteram. Algumas empresas apontaram perda da ordem de bilhões. Somando, foi um total de perdas na ordem de R$ 19 bilhões – comenta.
Mesmo antes da pandemia o comércio on-linde apresentava crescimento médio de 25% ao ano. Mas ainda está longe do ideal: o volume de negócios do físico ainda é mais de 10 vezes maior. Para Dela Roca, o mercado digital está longe de ser uma ameaça ao modelo tradicional:
– As lojas físicas não deixarão de existir, mas terão de se reinventar. O e-commerce não ameaça o modelo tradicional, ao contrário, serve de exemplo de eficiência – diz.

“A saída desta crise depende dos trabalhadores”, diz presidente da CUT-SC
Para Anna Julia Rodrigues, presidenta da Central Única dos trabalhadores em Santa Catarina (CUT-SC), o governador Carlos Moisés (PSL) tomou medidas acertadas, quando mesmo antes da maioria dos estados decretou restrições de circulação, interrupção das aulas, do transporte coletivo e fechamento temporário dos serviços não essenciais. Mas em seguida decepcionou ao ceder a pressões dos empresários e na mesma política do presidente Jair Bolsonaro liberar a volta das atividades não essenciais.
Com isso, observa líder sindical, foi na contramão das orientações das autoridades médicas. A CUT-SC avalia que o governo colocou o lucro acima da vida dos trabalhadores catarinenses, deixando-os expostos ao vírus. Depois do relaxamento do isolamento social, considera Ana Júlia, houve uma explosão do número de casos em muitos municípios e Santa Catarina foi transformada em manchete internacional por aglomerações em shoppings.
– A saída desta crise depende dos trabalhadores. Não adianta retomar as atividades econômicas se os catarinenses estiverem sem renda, doentes ou na pior hipótese, mortos, para injetar dinheiro na economia interna – diz a presidente da CUT-SC.
A Central e entidades filiadas estão atuando na defesa dos direitos dos trabalhadores, com ações no Ministério do Trabalho e em tentativas de acordos coletivos com as empresas que sejam menos prejudiciais aos trabalhadores. Também foram deflagradas ações de fiscalização e estão sendo feitas denúncias sobre a falta de equipamentos de segurança.

Para o governo, saúde e economia foram priorizadas
O governo do Estado avalia que agiu corretamente ao publicar o decreto de 17 de março com medidas restritivas para conter o avanço da pandemia. Na época, lembra em nota a Secretaria Executiva de Comunicação (Secom), o Estado registrava 220 casos suspeitos e sete casos confirmados de Covid-19, com o primeiro registro de transmissão comunitária. Três dias após as primeiras medidas de isolamento, o governo apresentou um plano de enfrentamento, que levou em conta a economia, com uma série de ações para empresas, trabalhadores do campo e famílias de baixa renda.
Sobre a flexibilização das medidas, o governo diz que isso ocorreu aos poucos e com análises criteriosas do Centro de Operações de Emergência em Saúde (COES), com o objetivo de encontrar o equilíbrio entre saúde e economia. Considera que está ouvindo as entidades. Desde o início da pandemia, destaca a Secom, foi criado o núcleo econômico, formado por governo, entidades empresariais, federações, MP, MPF, MPT, além de representantes da Assembleia Legislativa e da federação dos municípios, com o objetivo de discutir as medidas adotadas.
A respeito de cuidados com a Saúde, o governo destaca que o Estado foi o primeiro a adotar medidas de distanciamento social e, ao longo da pandemia, ampliou a testagem para a doença. Isso, aliado ao respeito da população, reflete em diversos dados, como o fato de ser a unidade da federação com a menor taxa de letalidade pela Covid-19 entre os estados do Sul e Sudeste. A nota cita que foram criou 396 novos leitos de UTI para atender os pacientes com Covid-19. Até o dia 14, a taxa de ocupação dos leitos de UTI da rede pública em SC era de 19%.


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