Os R$ 11,2 milhões bloqueados na última semana pela investigação que apura a compra de 200 respiradores pelo governo de Santa Catarina foram assegurados da conta bancária da Oltramed, uma empresa de produtos hospitalares de Joinville, no Norte do Estado.
Segundo a investigação do Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC), o valor foi pago pela Veigamed, do Rio de Janeiro, contratada pelo governo para vender os respiradores ao Estado, em uma negociação de compra de 100 mil testes rápidos para covid-19 junto à Oltramed.
As notas fiscais dessa compra da Veigamed chamaram a atenção da Procuradoria-Geral do Estado, que alertou a força-tarefa responsável pela investigação da compra dos respiradores. A negociação ocorreu após a Veigamed receber os R$ 33 milhões adiantados do governo do Estado pelos respiradores, que ainda não chegaram ao Estado.
O representante da Oltramed, Gustavo Bissacotti Steglich, foi então convidado a prestar depoimento como testemunha e explicou que de fato vendeu os kits para a Veigamed e que recebeu o pagamento à vista. Segundo a investigação, foram seis depósitos feitos pela Veigamed entre os dias 8 e 29 de abril, totalizando os R$ 11,2 milhões da negociação.
Ao ser informado que o dinheiro repassado pela Veigamed teria relação com a compra dos respiradores investigada pela força-tarefa, o empresário da Oltramed cancelou o contrato com a Veigamed e depositou em juízo os valores recebidos da empresa Veigamed.
No último sábado, após o cumprimento de 35 mandados de busca e apreensão sobre a compra dos respiradores, o delegado-geral da Polícia Civil de SC, Paulo Koerich, informou que R$ 11 milhões haviam sido bloqueados de uma conta bancária, mas não detalhou com quem estavam os recursos porque o processo ainda estava em sigilo.
O bloqueio de recursos foi adotado para tentar garantir o ressarcimento de valores aos cofres do Estado caso a investigação confirme as irregularidades no processo de compra. Além da suspensão dos R$ 11,2 milhões, foram apreendidos cerca de R$ 300 mil em um endereço de buscas no Rio de Janeiro.
Empresa conseguiu evitar entrega de kits à Veigamed
O empresário da Oltramed também conseguiu avisar o motorista do caminhão, que estava a caminho do Rio de Janeiro para entregar os kits comprados pela Veigamed, e orientou-o a levar os materiais de volta para o estoque da Oltramed.
A empresa de Joinville já havia tido a mesma quantidade de kits contra a covid-19 apreendidas pela Comarca de Gaspar, em 19 de abril, em uma investigação ainda não concluída sobre suposta comercialização irregular de material médico hospitalar.
A investigação não detalhou qual o intuito da Veigamed ao adquirir essa grande quantidade de testes contra a covid-19. No entanto, o diretor da Oltramed informou que a compra dos kits foi feita por Davi Perini, com um telefone do Rio de Janeiro.
Segundo a investigação, trata-se de Davi Perini Vermelho, presidente da Câmara de Vereadores de São João do Meriti (RJ), cidade carioca com a qual a Veigamed possui contratos firmados. O vereador foi uma das oito pessoas que tiveram pedido de prisão temporário feito pelo MP-SC, mas negados pela Justiça.
Contrapontos
– A empresa Oltramed, de Joinville, informou que não tem nenhuma relação com a compra de respiradores e que cancelou o contrato com a Veigamed assim que soube que a empresa estava sendo investigada. A empresa ainda afirma que a negociação ocorreu antes de a compra dos respiradores pelo Estado ser questionada e que nenhum kit foi entregue à Veigamed . Por fim, a Oltramed apontou que a apreensão dos testes em Gaspar não tem a ver com a Veigamed e que está colaborando com a Justiça.
– A empresa Veigamed emitiu nota informando que os advogados ainda estão analisando o processo e que está colaborando com a Justiça, mas não deu detalhes sobre a compra dos kits feita com a empresa Oltramed.
– A reportagem não conseguiu contato com a defesa do vereador de São João do Meriti (RJ), Davi Perini Vermelho.
