Na Itália, a volta ao trabalho depende dos anticorpos certos

A Itália foi o primeiro país europeu a anunciar uma quarentena em nível nacional, que começou em nove de março

Compartilhe:

(Foto: Alessandro Grassani / The New York Times)

*Por Jason Horowitz

Continua após a publicidade

Roma – Aumenta na Itália a sensação de que o pior já passou. As semanas de quarentena a que se submeteu o país, que viu um dos surtos mais mortais do coronavírus, podem estar começando a dar bons resultados: as autoridades anunciaram, no início de abril, que o número de novas infecções havia se estabilizado.

Esse raio de esperança fez o debate se concentrar no desafio complicado de quando e como se reabrir sem gerar outra onda cataclísmica de contágio. Para isso, as autoridades de saúde e alguns políticos estão se concentrando em uma ideia antes relegada ao âmbito dos romances distópicos e dos filmes de ficção científica.

Continua após a publicidade

Ter os anticorpos corretos ao vírus no sangue – ou seja, um indicador de potencial de imunidade – pode em breve determinar quem vai voltar ao trabalho e quem vai continuar em casa, quem permanece em quarentena e quem está livre.

Sob vários aspectos, essa discussão está à frente da ciência. De fato, os pesquisadores, apesar de esperançosos, não têm certeza se os anticorpos indicam imunidade – o que não impediu os políticos de se agarrarem à ideia, principalmente pela forte pressão a que estão submetidos para abrirem a economia e assim evitarem uma depressão econômica generalizada.

O presidente conservador da região do Veneto, no nordeste do país, propôs uma "licença" especial para aqueles que tiverem anticorpos que mostrem que tiveram o Covid-19 e se curaram. O ex-primeiro-ministro, Matteo Renzi, que é liberal, já sugeriu um "Passe Covid" para os não infectados. O premiê atual, Giuseppe Conte, disse que, embora a quarentena continue vigente, o governo já começou a trabalhar com os cientistas para determinar como liberar as pessoas recuperadas para o trabalho.

Remetendo a "Admirável Mundo Novo", a argumentação de retomada da rotina chegou com tudo – e, da mesma forma que o número esmagador de mortes, será abordada por países como a Espanha, o Reino Unido e os EUA, onde o contágio ainda é ascendente.

Continua após a publicidade

A Itália foi o primeiro país europeu a anunciar uma quarentena em nível nacional, que começou em nove de março – e, quando a proporção de novas infecções começou a desacelerar, tanto as autoridades como os profissionais da saúde começaram a falar com um otimismo contido.

"Estamos começando a ver a luz no fim do túnel. O número de chamadas diminuiu", diz Fabio Arrighini, supervisor de um serviço de ambulâncias em Brescia, na Lombardia, que tem uma das taxas mais altas de mortalidade do país.

Continua após a publicidade

Mas o debate sobre a mão de obra com base nos anticorpos colocou a Itália novamente na vanguarda infeliz das democracias ocidentais que combatem o vírus com escolhas éticas desconfortáveis e resultado inevitável. Tais questões já foram, aliás, levantadas pelas decisões terríveis tomadas pelos médicos de tratar os mais jovens, que têm mais chance de vida, antes de tratar os idosos e doentes.

Entretanto, mais cedo ou mais tarde praticamente todos os governos terão de atingir um equilíbrio entre a garantia da segurança pública e a "volta ao funcionamento" de seus países. E também podem se ver tendo de pesar o que é melhor para a sociedade em contraponto aos direitos individuais, usando o critério biológico de formas que certamente seriam rejeitadas não fosse pela emergência atual.

Continua após a publicidade

"Dá a impressão de dividir a humanidade em dois, os fortes e os fracos; mas, na verdade, o caso é esse mesmo", comenta Michela Marzano, professora de Filosofia Moral da Universidade Descartes de Paris.

Ela alega que, do ponto de vista ético, a questão do uso de anticorpos como base para a movimentação livre reconcilia uma visão utilitarista do que é melhor para a sociedade com o respeito pela humanidade individual, protegendo "os mais frágeis, e não os marginalizando". "Não é discriminação, é proteção."

Continua após a publicidade

Cientistas na Itália, bem como seus colegas na Alemanha, nos EUA, na China e em outras paragens, já estudam a possibilidade de os anticorpos serem uma fonte em potencial de proteção ou imunidade ao vírus.

A Itália, devido à sua exposição inicial e abrangente, tem a oportunidade de entender como o vírus age e as propriedades biológicas que protegem contra ele.

Continua após a publicidade

Veneto pretende dar início à coleta de cem mil amostras de sangue de pessoas da área – começando por milhares de profissionais da saúde e funcionários públicos – para estudar em laboratórios os anticorpos das pessoas que têm o vírus e as que se curaram dele.

Em nenhum outro lugar do país a busca por uma estratégia de anticorpos é mais intensa que na região. Com sua abundância de recursos, consultores de renome e presença da biotecnologia, ela pode estar em uma posição única para influenciar o diálogo mundial e oferecer um conhecimento específico ao resto do mundo.

Continua após a publicidade

Vizinha à Lombardia, que também foi gravemente atingida pela pandemia, foi em uma de suas cidadezinhas, Vo', que ocorreu a primeira morte na Itália devido ao vírus, que também foi uma das primeiras a se submeter à quarentena.

Vo' tem um fundo genético relativamente homogêneo, o que pode facilitar a pesquisa, e foi submetida a testes extensivos. Depois do surto, as autoridades locais tomaram uma medida extraordinária: submeter a população de três mil habitantes inteira ao exame, incluindo os assintomáticos.

Continua após a publicidade

Isso ajudou a eliminar a possibilidade de um surto, e agora os governantes já planejam realizar um teste de anticorpos e sequenciamento de genoma na população inteira para detectar padrões de suscetibilidade ao vírus.

Os resultados devem sair daqui a três ou quatro meses, e talvez ajudem a esclarecer por que algumas pessoas continuaram assintomáticas enquanto outras ficaram doentes, se as que não foram infectadas já tinham anticorpos e se as crianças têm algo que as ajudou a evitar a doença.

Continua após a publicidade

"No momento, a Itália tem, obviamente, um dos maiores números de pessoas infectadas que se recuperaram da infecção, e isso representa um conjunto único e valioso de informações e dados", afirma Andrea Crisanti, principal cientista consultor do vírus no Veneto e professor de Microbiologia da Universidade de Pádua.

Ele enfatiza a necessidade de uma estratégia cuidadosamente estabelecida para "destravar" a Itália que use o rastreamento de contato, equipamentos de proteção e uma campanha agressiva de testes de anticorpos pós-vírus.

Continua após a publicidade

"O planejamento futuro é um dos detalhes mais importantes. Dar início à quarentena é fácil; só que, sem uma estratégia adequada e cuidadosa, são grandes as chances de a epidemia retornar", conclui.

The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.