O caminho para a incivilidade

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(Foto: David McNew / AFP)

Sempre gostei de dirigir. Tenso no trabalho, denso nas relações pessoais, o carro se transformava num oásis. Ar-condicionado ligado, música rolando, nada me tirava do sério. Os bandalheiros, os apressadinhos, os barbeiros, os nervosinhos de plantão, nada me roubava a paz. Fui morar fora, andava de metrô o tempo todo e nunca mais segurei um volante. Lá se vão quase 20 anos. Devo confessar: nesses tempos de animosidade e ódio, não sinto saudade alguma.

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A impaciência vem se transformando em algo chocante. Uma pequena fila no caixa do supermercado, por exemplo, torna-se motivo para maldizer e execrar a existência humana no planeta terra. O trânsito engarrafado, então, parece despertar nos homens os mais primitivos instintos. Buzinaço, ofensas, xingamentos, pancadaria, tiros, mortes. Tem sido assim no Brasil inteiro. Santa Catarina não é exceção nesse macabro roteiro.

Dizem que é reflexo da falta da educação dos brasileiros. Dizem que é retrato de um país dividido, polarizado, rachado. Dizem que ninguém respeita as leis feitas para disciplinar o trânsito. Tudo muito simplista, tudo muito verdadeiro. A pressa, a imprudência, a ansiedade, a irritação, o estresse e o instinto violento de alguns não asseguram consentimento para se passar por cima das normas de uma sociedade minimamente organizada.

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Corria um domingo tranquilo na vizinha Porto Alegre. Até que ocorreu um leve acidente na Zona Sul da capital gaúcha. Os pequenos danos na caminhonete levaram o motorista a sacar uma arma e matar pai, mãe e filho que estavam no outro carro. Com tiros na cabeça. Como explicar um triplo assassinato por motivo tão fútil? O que justifica tanta estupidez? O delegado que cuida do casso afirmou: “Não eram danos relevantes que causassem qualquer prejuízo patrimonial maior que R$ 500, R$ 600, R$ 700. Um martelinho de ouro resolvia. E aí, tivemos três integrantes da mesma família mortos numa discussão de trânsito”. O horror, o horror.

Talvez estejamos em um caminho sem volta para a ignorância. Talvez estejamos vivendo à beira da barbárie. Mas ainda há esperança e gente de bem por aí.

Um dos maiores atletas da história do esporte mundial, Kobe Bryant um dia disse: “Seja sempre a melhor versão do que você é”. Isso exige civilidade, respeito, cidadania, amor ao próximo, aceitação, resiliência, tolerância, gentileza, educação – valores que não se compram na padaria ou na oficina mais próxima de nossas casas.

Seja sempre a melhor versão do que você é Kobe Bryant, astro do basquete que morreu na semana passada

 O novo populismo

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Leitura importante para os tempos modernos: “Os engenheiros do caos – como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições”. O enorme subtítulo do autor Giuliano da Empoli resume o livro, em que ele analisa o que aconteceu recentemente nos Estados Unidos, Itália, Hungria e também no Brasil.

– Por trás das aparências extremadas do carnaval populista, esconde-se o trabalho feroz de dezenas de spin doctors, ideólogos e, cada vez mais, cientistas especializados em big data, sem os quais os líderes do novo populismo jamais teriam chegado ao poder – escreve Giuliano.

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A ameaça americana

Outro bom livro que ajuda a entender tempos em que se atira no mensageiro e se ignora a mensagem: “Um gênio muito estável – a ameaça de Donald Trump à democracia”, dos repórteres do Washington Post Philip Rucker e Carol Leonnig.

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Tempos de cólera

No mundo da música pop tudo é muito velho e repetitivo. Cria-se pouco, copia-se muito. Raridade encontrar algo inovador como “There is no year”, disco da Algiers, banda de Atlanta (EUA). Pesado, crítico, eletrizante e imprevisível, também ajuda a entender os tempos de cólera em que vivemos.

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O tom da prosa

Do compositor e cantor Criolo, em entrevista à rede britânica BBC: “Existe um processo de desvalorização da escola pública e desvalorização de cada componente que trabalha com educação, arte e cultura, que começa por diminuição de salário, ridicularização de posição social, porque é assim que se conversa aqui”.

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Preço da omissão

De Petra Costa, diretora de “Democracia em vertigem”, que disputará o Oscar de Documentário:

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“A história do nazismo mostra que as elites que se calaram diante do avanço do autoritarismo acabaram sendo engolidas por ele. A extinção é o preço da omissão”.