O perigo das acusações sussurradas

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(Foto: Universal Pictures / Divulgação)

“O caso Richard Jewell”, o novo filme de Clint Eastwood, mostra como uma investigação desastrada e um grosseiro erro da imprensa podem destruir uma vida honesta. A história é bem conhecida. Aconteciam as Olimpíadas de 1996, em Atlanta. Uma bomba explode, duas pessoas morrem, cem ficam feridas. Poderia ter sido pior se não fosse a percepção do segurança particular Richard Jewell, que viu uma mochila abandonada e alertou os policiais.

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Sujeito esquisitão, introvertido, ainda morando com a mãe, Jewell vira herói nacional. Três dias depois da explosão, o “Atlanta Journal” sai com a manchete: “FBI suspeita que o guarda ‘herói’ possa ter plantado a bomba”. A partir dali tudo muda para Jewell – mesmo muito tempo depois de ele ter sido inocentado. A vida nunca mais foi a mesma. Para onde ia recebia pedidos de autógrafos de crianças e olhares desconfiados de adultos. Foi assim até o fim dos dias.

De alguma forma o filme de Eastwood faz lembrar a espetaculosa e nebulosa Operação Ouvidos Moucos, da Polícia Federal aqui em Santa Catarina. Até hoje não se entende o motivo de tanta truculência e tanta falta de informação. A imprensa se precipitou e não fez o necessário mergulho investigativo no caso. O trágico resultado nem é bom lembrar.

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O caso de Richard Jewell refresca a memória, também, para a triste história da Escola Base, em São Paulo. Em 1984, quatro pessoas foram acusadas de fazer orgia com crianças. A imprensa confiou, não apurou com precisão e publicou notícias absurdamente falsas. Os  quatro acusados foram declarados inocentes. Mas a vida deles já estava destruída para sempre.

Voltemos a Atlanta, 1996. Na época, o The New York Times fez uma cobertura jornalística mais contida, mais focada no frenesi local do que no suspeito produzido pelo FBI e comprado por grande parte da imprensa. O jornal americano aprendeu com erros do passado e hoje segue um simples e poderoso preceito: “Não se deve confiar em acusações sussurradas”. Este preceito deve servir para todas as relações de nosso cotidiano.

Richard Jewell morreu em 2007, aos 44 anos, devido a sérios problemas causados pela diabetes e carregando as severas injustiças com as quais foi obrigado a conviver. Na manchete do obituário dele, o NYT fez justiça a Jewell: “Herói do ataque de Atlanta”.

A força do cinema

“1917” é um espetacular épico da Primeira Guerra Mundial que simula um plano-sequência de duas horas. Semana passada ganhou dois Globos de Ouro (melhor filme de drama e melhor direção para Sam Mendes). Vi na manhã de Natal em Nova York. Estreia aqui dia 23 de janeiro. Imperdível.

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Apesar de impecáveis séries como “Olhos que condenam”, “Inacreditável”, “Chernobyl”, “Fleabag” e “Succession”,  filmes como “1917”, “Parasita” e “Era uma vez em… Hollywood” são provas da poderosa criatividade que ainda nos faz sair de casa para ir aos cinemas. Graças ao bom deus.

Pequenas tiradas

1) Do cronista e escritor Luis Fernando Veríssimo: “O mundo não é mau, é só muito mal frequentado.”

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2) Do gênio renascentista Leonardo da Vinci: “A simplicidade é o último grau de sofisticação.”

3) Do cineasta Martin Scorsese: “O tempo é limitado e a energia é muito limitada – e a mente também, é claro. Por sorte, a curiosidade não acaba.”

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4) Frase estampada na livraria Bertrand, em Lisboa: “Ler prejudica gravemente a ignorância.”

5) Trecho do samba-enredo de uma escola do Rio: “Brasil, compartilhou, viralizou, nem viu! E o país inteiro assim sambou. Caiu na fake news.”