Uma proposta que altera o modelo de ocupação de uma das áreas mais tradicionais do Litoral catarinense é motivo de polêmica em Penha. A prefeitura marcou para esta segunda-feira uma conferência em que, entre outras questões, será debatida a verticalização da Armação do Itapocoroy nos arredores da secular Igreja de São João Batista, área de interesse histórico em Santa Catarina.
A igreja é tombada como patrimônio histórico do Estado há 20 anos. Foi uma das primeiras construídas no Estado, com início da obra em 1759. Itapocoroy, na época, era um importante porto para o vaivém de mercadorias no Litoral junto com São Francisco do Sul, Desterro (Florianópolis), Porto Belo e Laguna.
A partir de 1777, uma das armações de caça às baleias em Desterro teve autorização para estender sua área de capturas e escolheu a região de Penha — que ganhou, então, o título de Armação.
A beleza do local, com a bucólica igrejinha, já chamava atenção. Foi imortalizada em tela pelas mãos do pintor francês Jean Baptiste-Debret, que fez parte da Missão Artística Francesa ao Brasil, organizada a mando de Dom João VI no século 19. A Armação do Itapocoroy também aparece nos registros de 1820 do botânico August de Saint`Hilaire, que viajou o país relatando a flora local.
Duzentos anos depois, uma parte da Armação já aceita edifícios de até seis andares — mas longe da praia. A proposta a ser discutida na segunda-feira, que foi apresentada por pelo menos dois empreendedores diferentes, interessados em investir no local, inclui o aumento para até 20 andares nas construções na Praia do Trapiche e na região do Cascalho e da Praia Grande, além da permissão para instalação de um resort de luxo no local onde, hoje, funciona um camping.
— É um pedido para mudar o parâmetro construtivo. Se houver interesse da comunidade, será feito estudo para criação de uma zona liberada para construções de exploração turística. Hoje 90% das pousadas e hotéis estão ali, é área muito mais turística do que tradicional — diz o secretário de Planejamento e presidente do Conselho da Cidade (Concidade), Diego Mattielo.
Segundo ele, a audiência servirá para ouvir a comunidade e o que os moradores da região pensam sobre o assunto. O secretário diz que as áreas que estão em discussão ficam em um raio de cerca de um quilômetro da Igreja de São João Batista, e não vão interferir no patrimônio.
— A maior atividade econômica da cidade é o turismo, deveríamos pensar com carinho. A verticalização como Balneário Camboriú e Itapema não é caminho. Mas manter como está limita o potencial da cidade em atrair turistas — afirma.
O maior chamariz turístico de Penha, hoje, é o Beto Carrero World. Só no ano passado o parque recebeu mais de 2 milhões de visitantes.
Proteção para as armações
A Fundação Catarinense Cultura (FCC), órgão responsáveis pelos bens históricos tombados pelo Governo do Estado, não foi informada pela prefeitura de Penha sobre a possibilidade de mudança no modelo construtivo da área histórica da Armação do Itapocoroy. Vanessa Pereira, diretora de Patrimônio Cultural da Fundação, diz que embora a definição legal de preservação de entorno seja vaga, a questão a ser considerada é o impacto de paisagem. Ainda que a verticalização não esteja nos arredores da igreja, será necessário levar em conta de que forma novas construções vão dialogar com o bem histórico.
As armações, locais onde havia captura de baleias, são consideradas áreas importantes para contar a história de Santa Catarina. Mas ainda não há uma legislação estadual que proteja esses espaços. Recentemente a prefeitura de Florianópolis começou a discutir a possibilidade de preservação de áreas de paisagem cultural — o que poderia ser estendido para outras cidades catarinenses no futuro.
Patrimônio como diferencial
Moradores e veranistas antigos da região da Armação são contrários à verticalização na área de interesse histórico. O professor e pesquisador Gilberto Manzoni, que integra o Concidade, afirma que houve resistência do secretário de Planejamento em apresentar abertamente as propostas que serão discutidas na audiência.
— O grande produto de venda que temos para o turismo é a questão histórica e paisagística — diz Manzoni.
O posicionamento dele é partilhado pelo historiador Claudio Bersi de Souza, autor de obras que contam a história da Penha. “Não se trata de ser contra o progresso”, diz, mas de manter vivo o cenário que encantou os visitantes dois séculos atrás.
Vanessa Pereira, da FCC, concorda:
— O que torna um município diferente do outro é a história e a cultura. Não dá para todos serem iguais a Balneário Camboriú — afirma.
Preservação ambiental
Além da importância histórica para Santa Catarina, a região entre as praias do Trapiche, Cascalho e Praia Grande é reconhecida pelo meio ambiente preservado. Não por acaso, pesquisadores do Projeto Tamar e da Univali começaram no ano passado a fazer um censo populacional das tartarugas-verdes na Praia do Cascalho — o primeiro levantamento desse tipo no Estado.
A escolha do Cascalho levou em conta a grande quantidade de avistamentos de tartarugas no local e também de encalhes de animais — um dos maiores índices do Estado. A ideia é que as informações coletadas sirvam como base científica para a criação de um parque municipal na região, para garantir que o espaço seja devidamente preservado.