Por que, mesmo com a menor inflação em 19 anos, há a percepção de que tudo está mais caro?

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Não houve inflação menor no Brasil nos últimos 19 anos do que em 2017. Divulgado nesta quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou variação de apenas 2,95% entre janeiro e dezembro. É o menor indicador desde o 1,65% de 1998, ainda no rastro dos efeitos do Plano Real. E uma evolução e tanto nas comparações com 2016 (+6,29%) e principalmente 2015 (+10,67).

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O resultado do ano que passou, de maneira inédita, ficou abaixo até mesmo do piso da meta estabelecida pelo Banco Central, de 3% – o centro é de 4,5%, com margem de um ponto percentual e meio para mais ou para menos. Se o dragão da inflação que outrora tanto aterrorizou o consumidor parece estar adormecido, por que a impressão que fica para muita gente é de que tudo ficou tão mais caro?

Para entender as razões, é preciso primeiro saber que o IPCA, o indicador oficial da inflação, é verificado em regiões metropolitanas de 10 capitais de Estados (Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Vitória e Porto Alegre) e Brasília, mais as cidades de Goiânia (GO) e Campo Grande (MS), que ajudam a dar uma base geral. Mas em municípios fora desse raio os preços podem apresentar oscilações.

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O índice é composto por diversos produtos e serviços, com pesos distintos que pressionam para cima ou para baixo o cálculo. Há vários subitens que englobam essa equação. Dentre os mais relevantes, com impacto direto no dia a dia do consumidor, apenas a alimentação em domicílio, sustentada em grande parte pela safra agrícola recorde em 2017, deu uma trégua. Nesta categoria houve deflação no ano passado: -4,85%. Vários alimentos ficaram mais baratos. Só o preço médio do feijão preto, por exemplo, despencou 36%.

Por outro lado, contas mais frequentes do orçamento familiar sofreram reajuste bem maior do que a inflação, o que ajuda a alimentar a percepção de alta desenfreada dos preços. São exemplos o botijão de gás (+16%), combustíveis domésticos (+15,59%), plano de saúde (+13,53%), creche (+13,23%) taxa de água e esgoto (+10,52%), gasolina (10,32%) e energia elétrica (+10,35%). A título de comparação: vários tipos de eletrodomésticos que ajudam a formar a categoria de eletrônicos e eletrodomésticos do IPCA apresentaram deflação ao longo de 2017, mas basta lembrar que o consumo de luz é diário, enquanto não é todo dia que se compra um fogão (-5,39%) ou uma televisão (-6,5%).

Num país em que o poder de consumo da população costuma ditar os rumos da economia e da política, a inflação mais baixa em quase 20 anos será usada pelo governo como um trunfo de estabilidade e recuperação pós-crise. De fato, há de se comemorar o controle geral dos preços. Por outro lado, a aceleração para uma retomada sustentável passa por equilíbrio nos gastos públicos e geração de emprego. Embora a abertura de vagas venha crescendo, o ritmo é lento e 13 milhões de brasileiros seguem na rua da amargura, cenário que levará mais tempo para ser mudado.

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