A força do transporte frente a equívocos do país

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Há pouco mais de uma década, duas categorias tinham força para parar o Brasil: os bancários e os caminhoneiros. Com os bancos digitais e o avanço do just in time _ entrega na hora certa, com estoque mínimo — esse poder, ainda maior, ficou apenas com o setor de transporte. São vários os equívocos cometidos pelo país que resultaram nesta greve impactante. Quase todos eles de decisões políticas. 

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Um dos problemas foi a não aprovação da reforma da Previdência, o que postergou investimentos e está alongando a crise. Por isso os caminhoneiros não estão conseguindo repassar a alta do combustível ao preço do frete. E a reforma não saiu porque o presidente Michel Temer foi denunciado por corrupção em maio do ano passado pelo empresário Joesley Batista. Os parlamentares também não quiseram votar essa reforma temendo perder votos em outubro próximo. Outro problema político foi incentivo que distorceu o mercado. Há excesso de caminhões porque o governo de Dilma Rousseff, especialmente em 2012, impulsionou a venda destes veículos com juros de 2,5% ao ano e prazo de 10 anos para pagar.  

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Há equívocos também no petróleo, é claro. Trata-se de uma commodity cotada em dólar e o Brasil, com uma empresa monopolista como a Petrobras, não tem concorrência para amenizar impactos externos. O produto está mais caro no mundo pela redução da oferta de países produtores e fim do ciclo barato do gás de xisto nos EUA. Essa é uma conta que pode subir ainda mais e terá que ser paga pelo país de uma forma ou de outra. A concorrência faz falta, mas pesaram mais para a greve os reajustes quase diários da Petrobras que atraiam reclamações constantes de quase todos os brasileiros. Foi um equívoco político ignorar isso, não voltando para reajustes mais graduais com mecanismo para evitar perdas. 

Outro equívoco político de décadas é o fato de o Brasil ser um país continental sem ferrovias. É um investimento caro, mas que precisa ser feito e há grupos internacionais dispostos a isso. 
O que falta é governo com visão de futuro para fazer o que é preciso pensando no bem de todos e não na próxima eleição. A expectativa é de que a greve se encerre logo e que os reabastecimentos sejam rápidos, apesar dos prejuízos bilionários. O que se espera, também, é que o país não tenha que enfrentar uma greve dessa dimensão de novo. 

Agroindústrias seguem paradas 
Como a greve continuou ontem em SC, as agroindústrias do Estado não poderão retomar atividades nesta segunda-feira. Assim, cresce o risco de morte de aves e de perdas irrecuperáveis na produção, tanto na avicultura, quanto na suinocultura, informa uma fonte do setor. As empresas têm centenas de caminhões retidos em diversos pontos de interdição no Estado. Muitos estão com insumos para ração, por isso a importância do desbloqueio geral das estradas. A escolta específica não resolve o problema. 

Perdas e riscos 
O Estado tem 118 milhões de aves e 5,5 milhões de suínos em campo. A morte destes plantéis significa um risco sanitário e carnes mais caras para os consumidores nos próximos meses. E mesmo que esses animais não morram, não poderão ser usados para comercialização normal porque ficarão fora do padrão de tamanho e peso. A carne terá que ser usada para produtos industrializados ou descartada. 

Ilha da fantasia
Os estragos da greve chegaram a tanto porque o governo federal vive em Brasília como se fosse numa ilha da fantasia. Foi o governador de SC, Eduardo Moreira, que alertou o ministro Eliseu Padilha, em audiência quarta-feira passada ao meio-dia, que o país estava parando. Quando descobriu que o governo federal ainda não tinha feito nada, Moreira disse ao ministro:
— Está louco. Em Santa Catarina o Estado está parando _ contou o governador.   

Ações da indústria
Santa Catarina é um dos Estados mais sensíveis à greve de transportes porque a produção de aves e suínos integra a principal cadeia produtiva local. O presidente da Fiesc, Glauco José Côrte, disse que não dá para recorrer à Justiça logo no início de uma paralisação de transporte para liberar cargas porque primeiro é preciso provar que há perdas. Em Caçador, município altamente exportador, um dos temores para as próximas semanas é a falta de vagas em navios para incluir as cargas não embarcadas, diz o vice-presidente da Fiesc, Gilberto Seleme.

Conselhos do pai
Em recente conversa sobre a doença do seu pai, Laércio Lauro Silva, o ministro do Turismo, Vinicius Lummertz Silva, disse que foi ele quem o aconselhou a estudar no exterior, trabalhar em vários países, conhecer economias e culturas diferentes. Isso ajuda muito nas atividades que realiza hoje. O empresário Laércio Silva faleceu sábado, vítima de câncer, em Florianópolis. O filho ministro, que estava numa missão à China, retorna para o sepultamento amanhã. Preocupado com a greve no Brasil, Lummertz diz que a política de preços da Petrobras só seria aplicável se tivesse concorrência.

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