Instituição pioneira no microcrédito produtivo em Santa Catarina, o Banco da Família, de Lages, completa 20 anos de atividades dia 25 deste mês com uma trajetória inovadora e referência no setor. Até agora, emprestou R$ 720 milhões e investe para oferecer operações digitais, informa a fundadora e presidente da instituição, a empresária Isabel Baggio. Com 150 colaboradores e atuação em 80 cidades da Região Sul, o banco, que é uma Organização da Sociedade Civil e Interesse Público (Oscip) faz sucesso pela qualidade da gestão e sensibilidade. Ao identificar demandas dos seus clientes, ampliou os financiamentos também para imóveis de madeira e sistemas de saneamento.
Como nasceu o Banco da Família?
Isabel Baggio: O Banco da Família nasceu de uma ação da Câmara da Mulher Empresária dentro da Associação Empresarial de Lages (Acil) no final dos anos 90, quando eu presidia a associação. Lages passava por uma depressão econômica bastante significativa e nós, empresários, decidimos tomar uma providência no sentido de fomentar pequenos negócios. Paralelo a isso, tivemos uma pesquisa liderada pelo Sebrae/SC quando detectamos que 98% das empresas do município eram micro e pequenas e a maioria delas informais. Aí identificamos o que essas pessoas faziam e quais eram as maiores dificuldades. Uma delas era a falta de crédito. Fomos ver o que a Europa estava fazendo nessa área, especialmente na Itália e Alemanha, e trouxemos de lá esse projeto ancorado na ideia do microcrédito, que estava crescendo no mundo a partir do Grameen Bank. O próximo passo foi buscar apoio da sociedade. Fomos ao BNDES e ele nos informou que de cada R$ 1 real que nós captássemos para o novo banco ele entraria com R$ 2. Também fomos de porta em porta porque tínhamos plano de negócio e a ousadia de fazer algo estruturado para as empresas. Aí conseguimos R$ 120 mil da iniciativa privada e R$ 80 mil da prefeitura de Lages.
O que ajudou na expansão e por que a mudança de nome?
Isabel: Num belo dia da Festa do Pinhão, em 1998, recebemos R$ 1 milhão em empréstimos. Metade disso era do BNDES e a outra metade do Badesc. Foi aí que nasceu o programa estruturado de microfinanças de Santa Catarina. Então, de R$ 200 mil, contraímos uma dívida de R$ 1 milhão. Foi uma ousadia contrair uma responsabilidade tão grandiosa como essa, de emprestar esse dinheiro. Fomos realizando as operações e crescendo anualmente. Os empréstimos eram feitos pelas mulheres, mas percebemos que os negócios eram desenvolvidos no âmbito da família. Então, em 2003, decidimos mudar o nome para Banco da Família. O nome era um obstáculo. Inicialmente escolhemos o nome Banco da Mulher porque ele integrava uma instituição internacional chamada Woman World Bank (WWB), que ainda existe e nós queríamos ter uma referência internacional, junto a uma instituição do Banco Mundial. Precisávamos disso para saber operar com crédito, ter uma referência porque o crédito tem suas especificidades. Ele exige um relacionamento muito próximo do banco com o empreendedor. Os agentes de crédito avaliam todo o contexto do tomador de recursos para aprovar o crédito. Isso trouxemos do exterior.
Como começou a expansão e quantas agências a instituição tem hoje?
Isabel: Iniciamos atividades numa sala na Associação Empresarial, depois fomos para um ambiente maior e hoje estamos em 21 espaços, atendendo 80 municípios nos três Estados da Região Sul. Começamos a expansão na Serra catarinense, depois fomos para o Rio Grande do Sul, em Vacaria, Caxias do Sul e arredores, em seguida fomos para o Meio-Oeste de SC e este ano, abrimos operação no Paraná, na cidade de União da Vitória. Nossa meta é atender amplamente os três Estados do Sul e depois ir avante.
Qual é o valor médio solicitado nos empréstimos?
Isabel: Hoje, nossa média de valor emprestado é R$ 3,7 mil. Já financiamos um total de R$ 720 milhões em 271 mil operações de crédito.
Quais são os empréstimos que vocês oferecem?
Isabel: Nós começamos com o microcrédito orientado para investimentos, para negócios. Mais tarde vimos que nossos clientes também precisavam melhorar a casa. Os negócios deles eram em casa e precisavam melhorar os ambientes. Daí fomos para o financiamento de habitação de madeira. A nossa região serrana é eminentemente produtora de madeira. Entendemos que poderíamos ser um agente de fomento desse setor, claro, dentro das necessidades do mercado. Hoje, temos mais de 30 fornecedores de casas de madeira onde atuamos. Até hoje já financiamos mil casas, com prazo de 48 meses para pagar (quatro anos).
E como entraram no saneamento?
Isabel: Depois de oferecer recursos para casas, percebemos a necessidade que os nossos clientes tinham de saneamento, isto é, banheiros, conexões com a rede pública, caixa d’água e tudo o que envolve saneamento. Sem água encanada e esgoto as famílias têm problemas de saúde. Então, estamos num projeto bastante forte. Temos uma parceria internacional com uma organização americana, a www.water.org (fundada pelo ator Mat Damon e o engenheiro Garry White) que nos dá assistência técnica e sensibiliza os clientes, nós entramos com os recursos e temos uma parceria com a Tigre, na qual ela faz um preço diferenciado de produtos para pessoas de baixa renda. É uma ação tripartite. Nós entramos com o crédito, a ONG com a sensibilização e preparo e a Tigre, com a oferta de produtos com preços mais adequados para pessoas de baixa renda. A Tigre desenvolveu um kit de saneamento para esses projetos.
Quais são os planos futuros do Banco da Família?
Isabel: No ano que vem, planejamos começar a trabalhar com moedas digitais. É um projeto que está sendo muito bem estudado porque não queremos perder a identidade, que é a proximidade com o nosso cliente, mas queremos facilitar a vida deles. Essa facilidade vem por meio de aparelhos móveis. Então, estamos estudando, mas o nosso caminho é esse. Onde há necessidade de microfinanças nós queremos atender fisicamente ou digitalmente.
Então a expansão além das fronteiras da Região Sul será por meios virtuais?
Isabel: Sim. Estamos ajustando nosso sistema tecnológico. Quando estiver adaptado, até março, pretendemos acoplar nesse novo sistema esse produto digital. Por enquanto, não vamos operar com criptomoeda. O que a gente precisa é que o nosso cliente tenha facilidade. Se precisar de um empréstimo, entre no sistema virtualmente e a gente pode liberar o recurso. Só que a gente não quer despersonalizar o atendimento que nós temos.
Como uma cidade pode solicitar operação do Banco da Família?
Isabel: A gente já mapeou diversas cidades. Em Santa Catarina temos outras instituições que também atuam com microcrédito. Mas isso não significa que não podemos entrar em cidades onde essas instituições atuam. Há cidades até com três instituições. Podemos crescer em SC, mas temos um mercado todo fisicamente aberto no Sul porque tanto o Rio Grande do Sul quanto o Paraná estão desassistidos de organizações como essa. Eles têm muito menos do que nós. Se você considerar microfinanças, microcrédito, mais moradia e saneamento, não há oferta.
Qual é a inadimplência da instituição?
Isabel: Varia entre 2,5% e 3%. É bastante baixa. O relacionamento personalizado que temos com o cliente faz com que ele assuma o compromisso e cumpra. Essa relação também é de gratidão porque quem vai financiar uma casa para alguém que mora embaixo de uma lona? Nós já fizemos isso para um catador de lixo. Ele tem uma renda da atividade dele e, por isso, tem condições de pagar as prestações. As pessoas se sentem grata pela oportunidade que têm e cumprem seus compromissos com o banco. Não precisa ter isso como clientelismo. Não é caridade, é responsabilidade, é cidadania. Isso é uma ação que vem desde sempre. Nunca foi dado dinheiro de graça e nós colocamos R$ 720 milhões na rua. Isso é a soma do capital emprestado mais o pagamento das prestações de quem toma o crédito.
Quando vocês vão chegar a R$ 1 bilhão emprestado?
Isabel: Está perto, mas não vai ser no ano que vem. Nós temos crescido cerca de 30% ao ano (em percentual de carteira). A cada dois anos nós fazemos rating. Conseguimos o primeiro lugar no Brasil tanto em rating financeiro quanto em rating social. Isso nos ajuda a acessar dinheiro para crédito. Não temos mais falta de crédito.
Quem fornece capital para as operações de vocês?
Isabel: Temos recursos do BNDES, do Badesc e parcerias com bancos comerciais que usam a nossa estrutura para cumprir o percentual que eles precisam aplicar em microfinanças, 2% dos depósitos à vista conforme exige o Banco Central. Há instituições que não operam, que são de atacado. Entre essas instituições que são parcerias nossas estão os bancos BNP e Daycoval. Podemos ter mais parcerias com bancos.
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