Em 2016, Santa Catarina e a Turíngia, estado situado no coração da Alemanha, firmaram um acordo de irmanamento. O ministro da Economia, Ciência e Sociedade Digital da Turíngia, Wolfgang Tiefensee, liderou comitiva de empresários e líderes de instituições de ensino e tecnologia em missão oficial a SC domingo e segunda. O objetivo é reiterar esse acordo e executar projetos encaminhados e abrir novas oportunidades. Na agenda, incluiu o governo, universidades e empresários. A seguir, os principais trechos da entrevista de Tiefensee à coluna.
A exemplo de Santa Catarina no Brasil, a Turíngia é o Estado que apresenta os melhores indicadores econômicos da Alemanha é líder em Startups. O senhor pode contar um pouco essa trajetória de sucesso?
Wolfgang Tiefensee: A Turíngia integrava a Alemanha Oriental e, com a unificação, nos últimos 28 anos conseguimos um desenvolvimento notável. A Turíngia sempre foi um polo industrial forte. Quando estava na República Democrática Alemã exportava para a antiga União Soviética. Só que essas relações acabaram de um dia para o outro entre 1991 e 1992. A indústria sofreu muito. O emprego no setor, de 100%, caiu para 10%. Temos uma indústria diversificada, integrada por micro, pequenas e médias empresas. Outra característica é contamos com trabalhadores altamente qualificados, com formação técnica e superior. Temos 10 excelentes universidades e por estarmos situados no coração da Alemanha, a logística é privilegiada. Não vou omitir. Houve transferências de recursos da Alemanha Ocidental para ajudar os Estados que passaram a integrar o país e também tivemos ajuda da União Europeia (UE). A ajuda não significou só recursos, mas acesso a mercados da UE. Com salários menores e custos também, a Turíngia recuperou logo sua indústria e se tornou muito competitiva. Uma grande empresa do Estado, a Carl Zeiss, vendeu uma parte da sua fábrica para instalar outras empresas. Outro aspecto importante é que podíamos oferecer terrenos em conta. Esse foi um dos motivos pelos quais a Rolls-Royce transferiu parte da manutenção de motores de aeronaves para a cidade de Erfurt em 2005. Somos fortes na engenharia mecânica, metalúrgica, no setor automotivo, alimentos e óptica. A turíngia tem também 10 universidades famosas, de alto nível e cerca de 20 centros acadêmicos que são instituições de pesquisa e inovação, que trabalham em estreita cooperação com as universidades, a indústria e a economia. Trabalham numa estrutura de rede integrada e esse é um dos segredos de sucesso da Turíngia. Também temos um ecossistema de startups bem interessante.
Como é o sistema de startups?
Wolfgang: O Instituto Alemão de Economia publica anualmente o rankning das cidades alemãs com mais startups ou startups mais promissoras. Em 2017 a Turíngia ficou em primeiro lugar. Nós, como Estado, damos suporte e promovemos startups. Uma ajuda é com recursos de capital de risco. Por exemplo, a Turíngia, por meio do seu banco, apoiou uma nova empresa, a Inflarx. Ano passado ela passou a ser listada na bolsa Nasdaq, ganhou muito dinheiro e o Estado também ganhou. A Jenacell ganhou o prêmio internacional de melhor startup.
Qual é o objetivo da visita da comitiva a Santa Catarina?
Wolfgang: O principal objetivo é que queremos renovar e reiterar a parceria que firmamos em 2016 (de irmanamento Turíngia e SC) e consolidá-la. Identificamos 23 projetos. Parte desses projetos envolvem inúmeras cooperações entre universidades. Só para citar exemplos, dois são de cooperação universitária. Um entre a universidade de Schmalkalde e a Univille e outro entre a Universidade de Jena e a Univille. Há também projetos nas áreas de energia renovável, agricultura, administração, Justiça, esporte e cultura.
Universidades da Turíngia oferecem apoio para estudantes que fazem intercâmbio?
Wolfgang: Temos programas na Alemanha e na Turíngia que ajudam com recursos financeiros, tanto para estudantes, quanto para professores. As universidades são públicas, não há pagamento de mensalidades.
Quais setores empresariais da Alemanha buscam parcerias no Estado?
Wolfgang: Já temos cooperação com a Fundação Certi e a LG (agência de promoção da Turíngia). Estamos conversando com a Investe SC para identificar oportunidades de negócios entre empresas. Além disso, temos o projeto Bauhaus 2019, que visa levar a Bauhaus para o mundo digital. No setor de alimentos, temos na comitiva uma empresa que produz salsichas e vai fazer contato para fornecer à Oktoberfest. A festa do ano que vem poderá ter esses produtos.
E no setor de tecnologia?
Wolfgang: Temos interesses em parcerias com empresas nas áreas de TI, microeletrônica e sensores. Sediamos o polo industrial de sensores mais avançado da Alemanha. Queremos estabelecer uma ponte entre a Acate e os institutos de pesquisas da área tecnológica da Turíngia. O presidente da associação desses clusters faz parte da comitiva e fará contato. Temos muita competência em indústria 4.0.
A economia brasileira ainda enfrenta dificuldades pós-recessão. Agora o país tem eleição e os candidatos que lideram as pesquisas não têm propostas econômicas claras. As empresas alemãs seguirão investindo no país e em SC mesmo assim?
Wolfgang: Não sou ministro federal, mas posso me pronunciar como ministro da Turíngia. Na segunda-feira falei com o governador em exercício Rodrigo Collaço sobre essa questão. Ele confirmou que SC está numa posição bem sólida e que, independentemente do resultado das eleições, o Estado não deverá ser impactado. Acho que isso também podemos dizer para a Alemanha que a gente, independentemente de governo a gente vai continuar cooperando e compartilhando os mercados porque o Brasil é gigante. É claro que ficamos mais tranquilos quando a política econômica é clara. Isso ajuda a estabilizar as relações bilaterais. Para nós, estar aqui nesta fase é importante porque queremos estar do lado do Brasil, mesmo nas fases difíceis. Nossa cooperação é com Santa Catarina e estamos aqui. Só que essa parceria não é de mão única. Empresários alemães vem para cá e o mesmo vale para empresários catarinenses e brasileiros. Temos muitas coisas interessantes na nossa economia e, pela Turíngia, é possível ter acesso a toda a União Europeia.
Com a Argentina
Wolfgang: Diante da relevância da Argentina em negócios para o Estado, foi assinado ontem o acordo de cooperação para a criação da Câmara de Comércio Argentina-SC. A nova instituição é integrada pela Fecomércio, Fiesc, Facisc e o Consulado Argentino em SC.
Quanto deve crescer o PIB alemão este ano e quais são os impactos da guerra comercial EUA-China na economia alemã?
Wolfgang: As projeções são de que ficará em pouco mais de 2%. Os cinco estados que integram o grupo dos que estavam na Alemanha Oriental vão crescer por volta de 1,6% este ano. Sobre a guerra comercial EUA e China e saída do Reino Unido da União Europeia tudo isso são nuvens bem sombrias que precisam ser enfrentadas. Com grande preocupação vemos uma tendência na busca do nacionalismo, protecionismo, resolução de questões comerciais com aumento de tarifas alfandegárias, que é o protecionismo. Isso prejudica o comércio global, mas também prejudica o da Alemanha. A gente tem que enfrenta essa situação. Tanto o Trump quanto o Putin tentam separar, disseminar a discórdia. Sugerem colocar um clube contra o outro. Não vão conseguir. A responsabilidade dessas discórdias é dos populistas. Até agora a EU tem conseguido negociar. Isso mostra que a União Europeia só é forte quando vem em bloco, tem uma voz. Quando tivermos dificuldades, a responsabilidade será de um populista. Sobre o Brexit – saída do Reino Unido da União Europeia – ela vai ocorrer porque a Europa não s vendeu bem para a população do Reino Unido. Devia ter informado todos. Agora não adianta vir com emoções fortes.
O senhor acredita que sairá o acordo Mercosul e União Europeia. Será bom para a Alemanha?
Wolfgang: A Alemanha tem interesse que esse acordo seja aprovado. Será bom para a economia.
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