“A digitalização vai aproximar o médico do paciente”, diz presidente da Unimed Grande Florianópolis

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Cardiologista Théo Fernando Bub, presidente da Unimed Grande Florianópolis (Foto: Diorgenes Pandini / NSC Total)

Uma das maiores cooperativas médicas do Brasil, responsável pelo atendimento de mais de 200 mil vidas, a Unimed Grande Florianópolis avança rápido no uso de tecnologias digitais, tanto para melhorar os serviços, quanto para reduzir custos. Afinal, ela ainda se recupera de grave crise financeira enfrentada por volta de 2015 devido a problemas de gestão de diretoria anterior e em função da recessão enfrentada pelo país.

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À frente da cooperativa médica desde 2016, agora no segundo mandato, o cardiologista Théo Fernando Bub, natural de Laguna e graduado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), lidera uma administração moderna, com governança, que conta com o trabalho técnico desenvolvido pelo CEO Richard Oliveira.

Entre as mudanças digitais, está a adoção do robô Laura para prevenir sepse (infecção generalizada) no Hospital Unimed, soluções de startups do linkleb de São José e a implantação do sistema de gestão MV ano que vem, que vai remunerar médicos com base em resultados.

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Na entrevista a seguir, Théo Bub fala de gestão, digitalização e também dá conselhos de prevenção à saúde.

O senhor assumiu a Unimed em 2016 numa situação difícil financeiramente e recuperou de uma forma que surpreendeu o mercado. Como foi essa virada?

A recuperação foi possível porque o grupo de cooperados que se formou naquela época entre 2014 a 2016 é muito bom, de cooperados que assumiram a tarefa de mudar a Unimed. Primeiro, mudar a conduta de quem estava aqui porque nenhum de nós tinha a intenção de assumir a presidência. Porém, a situação evoluiu de forma mais agressiva, no final de 2015 e início de 2016, houve uma pressão muito grande e a antiga diretoria pediu demissão coletiva. Houve uma assembleia geral extraordinária que colocou uma administração provisória por 30 dias até que se convocava uma nova eleição. O nosso grupo foi eleito. Eu como presidente e, na época, tínhamos uma diretoria no modelo do estatuto antigo.

Em 2016, quando assumimos, fizemos uma reforma estatutária para corrigir uma série de coisas ultrapassadas e uma delas foi a opção por uma gestão menor, de três anos ao invés de quatro. Foi muito trabalho desde o início. Assumimos a empresa – para mim, uma cooperativa é uma empresa -, que além da dívida muito grande tinha um problema de governança. Então implantamos um sistema de governança graças ao nosso CEO, Richard Oliveira. Acho que somos a única Unimed com um CEO contratado. Não fomos nós que selecionamos, foi a Federação das Unimeds de SC que selecionou o executivo. Ele entrou praticamente como um interventor, colocado pela federação. Quando assumimos, convidamos ele para continuar conosco.

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A estrutura atual foi formada graças a experiência do Richard. Nós, médicos, não éramos gestores, administradores. Eu tinha tido alguma experiência na gestão pública, na Associação Catarinense de Medicina, mas uma estrutura como essa, com faturamento de R$ 1 bilhão por ano, eu nunca tinha assumido. Então, seguimos os princípios fundamentais da governança. Todas as decisões passam por um comitê técnico e são colegiadas. Temos sistema de gestão rígido, cada coisa tem seu processo e isso está sendo seguido. Coroamos essa mudança na governança com a implantação da política de compliance, que está sendo finalizada.

Como é essa política de compliance?

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É específica para a Unimed, mas baseada nas orientações de compliance que existem no mercado. Hoje não se entende uma governança bem sucedida sem uma política de compliance bem sucedida.

Mesmo sendo uma cooperativa?

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Principalmente na cooperativa. O conflito de interesse aqui é muito grande porque o dono é o cooperado e a mão de obra principal é desse dono. É ele que trabalha lá na clínica dele e cobra da cooperativa. Então você imagina o tamanho do conflito de interesse que é preciso administrar. É necessária uma política de compliance muito consistente para poder regrar as vontades do dono, que é sócio cooperado. Isso é muito sério e a gente tem conseguido levar essa política com sucesso.

Sobre os resultados gerais de todas essas mudanças, o que o senhor destaca?

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Adotamos três pilares na nossa gestão: a governança, a transformação digital e o novo jeito de cuidar, que é um jeito mais humano na tratativa médico-paciente. Nessa governança, a transformação digital é pilar muito importante. A gente tem colocado essa cooperativa no século XXI. A nossa administração tem a diretoria geral, o conselho, e a diretoria executiva que vem logo abaixo e temos também o comitê técnico de performance. O comitê técnico é integrado pelo CEO, gerentes e dois médicos, mas as decisões focam equidade e transparência. O que acontecem nas Unimeds de um modo geral são decisões tomadas pela diretoria executiva, que é formada por médicos. O médico é um amador em administração. Então a gente precisa de um time técnico. O que a nossa gestão vai deixar para a Unimed é a governança e um comitê que toma decisões técnicas. Somos flexíveis até tomar a decisão. Depois de tomada, não muda mais, ela é executada.

Quais são os principais números alcançados na sua gestão?

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No nosso primeiro mandato de três anos, de 2016 a 2018, tivemos uma evolução expressiva, números icônicos. Em 2015 a Unimed fechou com prejuízo, em 2016 e em 2017 ficamos com resultados próximos de zero, em 2018 o resultado de janeiro a agosto foi positivo em R$ 10 milhões e nesse mesmo período, em 2019, foi positivo em R$ 35 milhões. No acumulado deste ano, se a gente considerar setembro também, o resultado sobe para R$ 39 milhões. Também reduzimos muito a dívida. Em 2015 era de R$ 160 milhões, em R$ 2017 caiu para R$ 116,90 milhões, em 2018 recuou para R$ 94,67 milhões e 2019 estamos com R$ 38 milhões de endividamento.

Um dos aspectos dessa gestão austera, um motivo de orgulho, é a despesa administrativa em 7,5%. Nós estamos entre as três melhores Unimeds de grande porte do país em performance de despesas administrativas. Saímos de 11% e chegamos a 7,5%. Em 2015, tínhamos 1.700 funcionários. Hoje, estamos com 1.138 funcionários, temos um faturamento melhor, entrega melhor de resultado, remuneração melhor e um atendimento mais justo e humanizado aos nossos clientes.

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Vocês aumentaram o número de médicos cooperados?

Naquele período de crise de 2015 muita gente abandonou a cooperativa. Agora, já ultrapassamos o número total de médicos que tínhamos. De 1.500 passamos para mais de 1.800.

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O hospital da Unimed ainda está à venda?

Ainda está. Estamos em negociação. Talvez façamos uma parceria. Seria melhor manter essa porta para atendimento do nosso usuário porque é o único hospital geral privado do Continente, tirando a maternidade e o Hospital Psiquiátrico. Ele passou por um período muito ruim, mas está se recuperando. Sob o ponto de vista operacional, já é autossuficiente, ele se paga. Só não paga a conta financeira ainda, o valor do empréstimo que foi feito para a construção.

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Como está o avanço da digitalização na Unimed?

Nós estamos avançando e, em 2020, estaremos ainda mais digitais. Isso implica na melhora da remuneração para o médico. Hoje, o valor da consulta é R$ 72, o mais baixo entre as Unimeds do Estado. Vamos chegar em mais de R$ 80. O resto da remuneração aos associados será por mérito: qualidade, economia e efetividade no atendimento. Isso a gente está montando uma plataforma junto com uma empresa de produtos digitais que vai nos dar o perfil da cooperativa, da especialidade, da clínica e do médico. Aí vai ter diferença.

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O médico associado vai receber o mesmo pela consulta com uma gratificação por performance. Quanto melhor a performance do médico, melhor será a remuneração. Daqui para frente, o profissional vai ter que caprichar muito no atendimento e isso tem uma repercussão no atendimento ao usuário porque o retorno que o usuário vai nos dar vai valer dinheiro para os médicos. Existem várias maneiras de medir isso. Quantas primeiras consultas o médio atendeu num mês, dessas, quantos retornaram e se não retornaram é porque o atendimento não foi bom e o paciente vai procurar outro.

Isso a estatística vai nos dar. Quantos exames ele pediu num período? Se está dentro da média. Há parâmetros internacionais por patologia. Se ele pediu demais, não está sendo efetivo. Não queremos exames de menos para os pacientes, queremos exames eficazes. Isso vai exigir mais responsabilidade do profissional.

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Os exames serão compartilhados?

Os exames dos clientes serão compartilhados. Se a pessoa vai num médico dermatologista e 15 dias depois vai num urologista. Se ela já fez hemograma solicitado pelo primeiro médico, o segundo deve solicitar somente outros exames que necessita, não repetir o que recém foi feito. A digitalização, ao contrário do que a maioria pensa, vai aproximar o médico do paciente. A gente vai deixar de perder tempo com outras coisas e vai ter mais tempo para orientar o paciente sobre qualidade de vida. Isso leva tempo na consulta, mas tem que ser feito. Orientar sobre exercício, dieta, stress, período de descanso…

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O Hospital Unimed passou a usar o robô Laura. Como funciona essa inteligência artificial?

Um motivo de orgulho para nós é o uso pioneiro, no Estado, do robô Laura, que faz rastreamento e indentifica a sepse (infecção generalizada) antecipadamente. Os exames são monitorados. A Laura cruza todas as informações do paciente, sinais vitais, exames de laboratório e parâmetros hemodinâmicos como frequência cardíaca, pressão arterial e circulação periférica. Para todos os pacientes críticos internados em UTI ou mesmo numa unidade não UTI, mas que estejam monitorados, o robô dá um alarme precoce.

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Isso é muito importante porque o tratamento antecipado e correto é fundamental no bom resultado ou mau resultado. Se a gente entra precocemente, é melhor. Esse sistema foi desenvolvido por um técnico de informática que ficou acompanhando a filha na UTI, vendo os parâmetros visíveis, só que as medidas eram tomadas tardiamente (o robô foi desenvolvido por Jacson Fressatto, de Curitiba, após a filha Laura, de 28 dias, falecer em 2010 devido a uma sepse). Nós somos o primeiro hospital Unimed do Brasil e o primeiro hospital de Santa Catarina a usar esse robô. Implantamos dia 17 de outubro.

O que mais vocês estão fazendo rumo à transformação digital?

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Nossa transformação digital e inovação são dinâmicas. Hoje estamos com uma grande mudança no software de gestão, que entrará em vigor em 2020. Vamos adotar o sistema da MV, de Recife. É a maior empresa de sistemas de saúde do Brasil e uma das maiores das Américas. No ano passado, ela ficou em terceiro lugar nos EUA. Além disso, fizemos uma cápsula de inovação no Linklab de São José que está nos ajudando muito. Através dela, estamos contando com serviços de nove startups. Temos, por exemplo, venda online para pessoas físicas e jurídica feitas por um robô. A pessoa ou empresa pode pagar com cartão de crédito ou débito em conta. Essa mudança de software para o MV será um grande hub de compartilhamento para nossos usuários.

Como está o atendimento na emergência do Hospital Unimed?

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A nossa emergência no Continente não era no hospital. Chegava um paciente que precisava de tomografia e a gente tinha que deslocar até o hospital para fazer. Isso gerava filas. Mudamos o PA para o térreo do hospital, o que melhorou muito. Contamos, no mesmo local, com a estrutura do pronto atendimento, com o corpo clínico da emergência e também o do hospital. Um cobre o outro se precisa de atendimento mais rápido. Com isso melhoramos muito a fila do atendimento. Era muito pior.

Nos fins de semana tem muito ambulatório no hospital porque clínicas e consultórios médicos não atendem. As únicas que atendem são as UPAs, que são serviço público com excelente qualidade de atendimento. Para atender problemas menos graves, a Unimed vai implantar um serviço de atendimento por telefone. Não será consulta por telefone, mas orientação. Vamos começar esse serviço dia 18 de novembro. No caso de atendimento ambulatorial, já melhoramos muito.

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Em 2018, até agosto, fizemos 3.400 atendimentos ambulatoriais e, no mesmo período, em 2019, chegamos a 4000. Muito disso é de atendimento que fazemos dentro de empresas. Softplan, Dígitro, Intelbras e Portobello têm consultório da Unimed internamente. É por isso que conseguimos manter o mesmo nível de atendimento com 40 mil vidas a mais na carteira.

Que programas de prevenção à saúde a Unimed oferece aos seus clientes?

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Temos um programa para gestantes que é muito bom. Temos também um para idosos e doentes crônicos, com visita domiciliar. Isso evita uma série de complicações e descompensações. Qualquer gripe ou resfriado podem levar pacientes ao hospital. Uma avaliação precoce mantém o paciente em casa, com saúde. Contamos ainda com um programa de orientação para diabéticos. Orientamos sobre alimentação e atividade física. A Unimed também tem um programa nacional que é: Mude um habito. Se é fumante, que pare de fumar. Se é sedentário, comece a fazer exercícios. Esses programas de prevenção são amplos e a ideia é difundir ainda mais.

Como cardiologista, quais são as orientações que o senhor costuma dar aos seus pacientes para terem mais qualidade de vida?

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Recomendo dormir bem, pelo menos sete horas por noite e que não precise de ajuda para dormir. Para isso, é preciso desligar os aparelhos eletrônicos pelo menos uma hora antes. O convívio familiar é fundamental. É importante ter uma relação familiar saudável porque não existe condição boa de vida se há conflito em casa. Atividade física: não é preciso malhar na academia, nem correr na Beira-mar Norte. Eu caminho, não uso carro no Centro da cidade, subo escadas, desço escadas. Eu tentei praticar esporte e não deu certo. Jogo bem Xadrez, mas o jogador fica parado (risos). Então eu caminho. Gosto de caminhar. Você quer exercício melhor? Se gosta de dançar, vai dançar. A atividade física não pode ser impositiva. Tem que fazer o que gosta. Agora, fazer uma atividade física que não gosta é tão ruim quanto não fazer.

O que o senhor recomenda para perder peso?

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O problema de ganho de peso é uma pandemia mundial. Não é só no Brasil. Nos países europeus, há 20 anos a gente não encontrava obesos. Hoje, a gente encontra. Houve uma invasão de fast food na Europa, o que já existia nos Estados Unidos. Eu acredito que a maior epidemia de obesidade no mundo é nos Estados Unidos, a duração do automóvel, o excesso de alimentação, orientação alimentar errônea com uso abusivo dos carboidratos. Quando se fez, na década de 50, a demonização das gorduras saturadas, como causadoras do colesterol, a fonte de alimento fácil encontrada foi o carboidrato. Por isso a população americana ficou obesa. Hoje, os conceitos de alimentação estão mudando, as gorduras não são tão ruins assim. Os problemas da glicose acima do normal e diabetes são outras epidemias resultantes de hábitos alimentares ruins.

O que é uma alimentação balanceada, na sua avaliação?

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É uma porção de proteína por dia. Não precisa ser vegano. Pode comer carne de ave, bovina, peixe, porco. Mas faça balanceado. É importante um prato colorido, verde, alaranjado, com menos alimentos brancos que são carboidratos. E pode ser uma proteína. A quantidade é importante. A base é o verde e a fruta. Duas a três poções de fruta por dia. Não pode ser demais porque fruta tem muito açúcar. Para o café da manhã, recomendo um carboidrato, uma proteína e uma fruta. No almoço, bastante verde, outros legumes coloridos e uma proteína. O trabalhador braçal precisa do carboidrato. O sedentário não precisa de carboidrato. No almoço, é salada é um pedaço de proteína e no jantar deve ser algo semelhante. E sempre, nas refeições, uma fruta. Não uma porção grande. Por exemplo, não pode ser uma melancia inteira, mas uma fatia apenas.

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