Mulheres de SC desafiam preconceitos ao assumir profissões tradicionalmente masculinas

Catarinenses buscam inspirar outras mulheres a desafiar normas sociais e mostrar que têm condições — e talento — para as mais diferentes funções

Compartilhe:
mecânica

Karine Martins, de 31 anos, trabalha em uma oficina mecânica e faz atendimento especializado para mulheres (Foto: Lucas Amorelli, DC)

Será que existem profissões de homens e outras profissões de mulheres? Por muitos anos, as normas sociais diziam que sim: que atividades que exigiam força eram masculinas e tarefas relacionadas ao cuidado eram femininas. Mas essa realidade vem mudando: cada vez mais, as mulheres estão desafiando esses preconceitos e conquistando seus espaços.

Continua após a publicidade

Clique aqui para receber as notícias do NSC Total pelo Canal do WhatsApp

Há dois anos, a catarinense Jessica Krieger, de 26 anos, trabalha como técnica de telecomunicações na Grande Florianópolis. No dia a dia, ela faz instalação e manutenção de internet, sobe em postes, mexe em fios e carrega escadas. Única entre os colegas de trabalho, ela chama a atenção por onde passa.

Continua após a publicidade

— Cotidianamente, eu escuto: “Legal, nunca vi uma mulher!”. Ou: “Nunca vi uma mulher subindo um poste”, “nunca vi uma mulher trabalhar com isso” e tal. Escuto pelo menos uma vez por dia — relata.

Quem é a agricultora de SC que criou rede de apoio psicológico após burnout

A rotina dinâmica da atividade foi o que chamou a atenção de Jéssica. Além das telecomunicações, ela trabalha também como eletricista e atendente em uma feira de orgânicos.

— Quero mostrar que a gente pode estar onde quisermos. Gosto quando as mulheres me veem passando, em cima do poste, e dizem: “Que massa!”. É esse brilho que eu gosto de ver nas pessoas. De tipo: “Uma mulher tá fazendo isso!”, sabe? E eu fico tipo: “Exatamente! Estou aqui e nós podemos” — complementa.

Continua após a publicidade

Assim como Jéssica, a engenheira mecânica Fernanda Royse é a única mulher no seu local de trabalho. Ela é professora do curso técnico de Manutenção Automotiva no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), em Florianópolis.

— Hoje, aqui no curso, a gente só tem duas alunas entre as 108 vagas que disponibilizamos. Temos poucas mulheres na área. Pouquíssimas. Acompanho algumas mulheres na internet que trabalham com mecânica, mas elas estão distantes e espalhadas — conta.

Continua após a publicidade

Para ela, a presença feminina faz falta no setor:

— Acho que as mulheres se encaixam muito bem. Existe muito espaço para nós, porque temos algumas habilidades que são muito requeridas no mundo automotivo, como por exemplo, o nosso detalhismo, o nosso foco.

Continua após a publicidade

As mulheres são apenas 22,7% do total de estudantes matriculados nas graduações de engenharia, segundo dados do Censo da Educação Superior de 2022, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na área de TI, são ainda menos: 15%. Entre os cursos de Matemática e Estatística, também são minoria, correspondendo a 38,5% do total de alunos.

Ainda assim, as mulheres acessam o curso superior mais do que os homens no Brasil. Elas correspondem a 60,3% do total de concluintes em cursos de graduação, chegando a representar 91% dos alunos da área de Bem-Estar, que inclui cursos como Serviço Social.

Continua após a publicidade

Fernanda vem tentando mudar essa realidade. Em 2019, criou o projeto Oficina de Mulheres, no IFSC, aberto à comunidade. As aulas ensinam manutenção básica de carros, como troca de pneus, de óleo e avaliação de motores.

— Elas chegam aqui na primeira aula muito tímidas. Na segunda, um pouquinho menos. E na última elas estão realmente transformando suas vidas. Algumas não necessariamente entram para o mercado automotivo, mas o curso na vida delas acaba sendo um elemento transformador. Já vimos mulheres que começaram a se posicionar de maneira diferente dentro de casa, percebendo que são responsáveis por suas próprias vidas — orgulha-se a professora.

Continua após a publicidade

A partir do curso, as mulheres se aproximam de uma área que, para muitas, ainda é hostil.

— Como se tem essa ideia de que mulher não entende de carro, você acaba sempre ficando para trás. Eu queria entender o básico — relata a aluna do curso, Samantha Lobo, de 22 anos.

Continua após a publicidade

Criando espaços

Uma das alunas da Oficina de Mulheres foi Karine Martins Vasconcelos Nunes, de 31 anos. Filha de mecânicos, ela decidiu fazer o curso após o marido abrir uma oficina no bairro Areias, em São José. Acabou gostando. Atualmente, atende mulheres na oficina do casal:

— Tive uma ideia: “Por que não fazer um atendimento especializado para mulheres?”. Comecei colocando acessórios e enfeites femininos para vender na loja na oficina. E, depois, eu fui colocando serviços. Conforme eu ia aprendendo, ia incrementando.

Continua após a publicidade

Karine também criou um perfil no Instagram, o Garagem da Suki. Por lá, ela explica manutenções básicas, dá conselhos a clientes e compartilha um pouco da rotina na oficina.

— Elas gostam, e eu acho que no lugar delas também gostaria. A gente se sente mais acolhida e segura. Sente mais confiança do que tá sendo passado para a gente, de que é um problema real do carro. Porque o mecânico ainda tem aquela fama de enganador, de que “não dá para confiar mecânico” — diz ela.

Continua após a publicidade

A técnica de telecomunicações Jéssica Krieger gosta de inspirar outras mulheres com o seu trabalho. Para ela, a ideia de que há profissões masculinas e femininas não passa de preconceito:

— Costumo dizer que a mulher só não domina o mundo porque ela não quer. Os homens têm mais estrutura, realmente, para fazer um trabalho mais pesado. Porém nada é impossível. Só basta a pessoa querer. Olha eu aqui, sou um exemplo: tô pegando uma escada que 90% dos homens pegam. Se dizem “ah, é pesado demais”, a gente junta duas, três mulheres, e fazemos o serviço.

Continua após a publicidade

Veja fotos do curso

Leia também

Conheça o projeto de mulheres que ajuda a recuperar a biodiversidade de SC