A 31ª edição da Sapecada da Canção Nativa encerrou na noite do último domingo (15), em Lages, com a consagração da música “Poncho Miliquero” como a grande vencedora. O festival, que integra a programação da 35ª Festa Nacional do Pinhão, marcou uma edição histórica ao reunir milhares de pessoas no novo palco da competição, o calçadão da Praça João Costa, no centro da cidade.
A obra campeã tem letra de Evair Suarez Gomez e melodia de Juliano Marciom Gomes Ávila, ambos naturais de Santana do Livramento (RS). A interpretação ficou a cargo do veterano Pirisca Grecco, que também levou o troféu de Melhor Intérprete da noite.
Comovente e sensível, a letra narra a história de um pai que troca seu poncho de estimação por material escolar para o filho, um gesto silencioso de amor e sacrifício que ressoou fortemente entre o público presente.
— Há 25 anos eu venho aqui. Eu sou das gerações mais antigas que participam da Sapecada. Foi uma Sapecada incrível, é o meu tricampeonato. O discurso convence, mas o exemplo, ele arrasta. Eu espero, do fundo do coração, ser referência para alguma criança que esteve na plateia — declarou Pirisca após receber a premiação.
A simbologia do “poncho miliquero”
A peça tradicional do fardamento de militares no pampa uruguaio e argentino foi ressignificada na canção como um símbolo de resistência familiar. A inspiração dos compositores veio do esforço cotidiano de tantos pais e mães brasileiros que abrem mão do que têm de mais precioso para garantir o futuro dos filhos.
As outras vencedoras da noite
O segundo lugar ficou com a composição “Coxilha Pobre”, de Luiz Pedro Zamban (letra) e Ricardo Oliveira (música), interpretada por artistas lageanos. A canção, que faz uma crítica à substituição dos campos naturais da Serra Catarinense, especialmente na Coxilha Rica, pela monocultura de pinus, também conquistou os prêmios de Melhor Tema sobre a Região Serrana, Melhor Conjunto Vocal e Música Mais Popular da edição.
— É uma letra que eu não gostaria de ter escrito, mas, infelizmente, a gente acaba tendo que escrever. Fico muito feliz pela visibilidade que isso tomou e como as pessoas estão reconhecendo isso como uma verdade. A composição se chama “Coxilha Pobre” e fala justamente disso, de estarmos perdendo os nossos campos. Essa mensagem precisa chegar até as pessoas, para que tenham poder e autonomia para mudar essa realidade — destacou Luiz Pedro Zamban.
O terceiro lugar foi para “Rabisco”, composta por José Maurício Rigon e interpretada por Joca Martins, que também assina a melodia e levou o prêmio de Melhor Melodia da Sapecada. Reconhecido como um dos grandes nomes da música, Joca destacou o aprendizado e o desafio de participar da competição.
— Cada edição é um aprendizado para a gente, especialmente pra mim, que já sou dos veteranos, e eu posso aprender com a gurizada. Estar no palco cantando uma música inédita é sempre um desafio. Saio daqui com um aprendizado e com um carinho maravilhoso desse público, que é incrível — afirmou o artista.
Outros destaques
Além das três primeiras colocadas, outras composições foram premiadas. “Rima Guaxa”, de Francisco de Assis Morador Brasil, interpretada por Gabriel Jardim, venceu como Melhor Tema Campeiro.
“Presilha de um Laço”, com letra de Marcelo Mendes, música de Odair Teixeira e interpretação de Juliana Spanevello, levou o prêmio de Melhor Arranjo. A premiação de Melhor Letra foi para “Sem Temer da Própria Sorte”, de Fábio Maciel, interpretada por André Teixeira e Roberto Borges. Já o prêmio de Melhor Instrumentista foi entregue a Rodrigo Maia, pelo desempenho no baixo em “O Bugio Ressuscitado”.
Vozes femininas encantam com “Mulheres”
Outro momento de grande destaque foi a apresentação da composição Mulheres, que emocionou o público. Escrita por Lucas Cassiano Soares de Oliveira e Wilson Gabriel Camargo, com melodia de Lucas Cassiano, a canção foi interpretada exclusivamente por vozes femininas: Zetti Gaudéria, Carol Scain, Cris Chardozino e Amanda Bianchini, atual rainha da 35ª Festa Nacional do Pinhão.
Com ritmo de chamamé, a composição enalteceu a força e a representatividade feminina na música nativista. A harmonia entre as intérpretes rendeu à canção o prêmio de Melhor Conjunto Vocal e o segundo lugar da fase regional, a Sapecada da Serra Catarinense.
A participação de Amanda, rainha da festa, trouxe ainda mais simbolismo à apresentação. Além de representar a beleza e a cultura lageana, ela subiu ao palco como artista, somando sua voz junto com as outras intérpretes em um momento raro e marcante no festival.
NSC Total levou a Sapecada ao público
O NSC Total transmitiu os três dias de competição. O conteúdo segue disponível no Youtube, permitindo que o público reveja momentos marcantes do festival, como a interpretação emocionante de “Poncho Miliquero” e a força vocal do grupo feminino na canção “Mulheres”.
Um novo capítulo para a Sapecada
Com o festival transferido para o centro de Lages e realizado durante o fim de semana, a Sapecada atingiu marcas expressivas. Foram mais de 700 composições inscritas, um recorde, e cerca de 25 mil pessoas circularam pela Praça João Costa ao longo do domingo, segundo estimativa da Polícia Militar.
O festival
Criado em 1993, o festival é mais que um palco de apresentações, ele é o reencontro anual com a essência sulista que resgata memórias da vida no campo e a bravura dos tropeiros. A Sapecada se divide em duas: da Canção Nativa e da Serra Catarinense (que é fase regional do festival, criada em 2000).
O termo ‘Sapecada’ remete a um costume tradicional da Serra de ‘sapecar’ o pinhão, em que é assada a semente diretamente nas brasas das grimpas de pinheiro.
