“Não está sozinho”: Especialista alerta para importância da escuta na autoagressão juvenil

Psicóloga reforça que não se deve minimizar o sofrimento de crianças e adolescentes, mas sim incentivar a busca de ajuda de profissionais de forma precoce

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Bullying, exclusão social, negligência e problemas familiares podem ser fatores que levam à autoagressão em crianças e adolescentes (Foto: Banco de Imagens)

O setembro amarelo, mês de conscientização sobre saúde mental, chega ao fim na próxima semana, mas os cuidados e a atenção aos sinais de autoagressão entre crianças e adolescentes devem permanecer, com escuta ativa, validação do sofrimento e busca por ajuda especializada dos pais e responsáveis, de acordo com a psicóloga especialista nesta faixa etária, Shirlene Gonçalves.

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A especialista afirma que é papel da escola e da família estar atento aos sinais e abrir espaço para conversa com a criança ou adolescente, evitando, sempre, minimizar o sofrimento do jovem. Um dos sinais mais comuns de que há algo de errado, e que precisa ser visto com mais atenção, é o isolamento social, com retraimento ou afastamentos de amigos ou família.

Shirlene aponta que é difícil distinguir aquele tipo de isolamento comum à faixa etária, principalmente na chamada adolescência média, que vai dos 12 aos 18 anos, daquele afastamento que pode revelar outros sinais posteriormente.

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— Muitos adolescentes acabam ficando horas no quarto jogando, fazendo outras coisas nas rede sociais, e acabam se isolando. Mas [esse tipo de isolamento preocupante] é um isolamento que é estranho, você percebe que está diferente, que não está o habitual que ele tinha antes — afirma.

Com o isolamento, vêm as alterações de humor intensas, com irritabilidade, impulsividade ou agressividade, dificuldade para lidar com frustração, baixa autoestima, com frases frequentes que se auto desvalorizam, por exemplo. Além disso, há também aquelas mudanças físicas, como alterações de sono e apetite.

Dados de um levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a partir do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), que reúne registros encaminhados pela rede de atenção à saúde e também por escolas e centros de assistência social, revelam que a cada 10 minutos, pelo menos um caso de autoagressão envolvendo adolescentes com idades de 10 a 19 anos é registrado no Brasil.

Em Santa Catarina, os números tanto de notificações de violência autoprovocada quanto por internações por lesões autoprovocadas diminuíram de 2023 (2.446) para 2024 (2.357). Ao todo, foram 4.803 notificações nos dois anos, enquanto foram registradas 231 internações.

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Os números, no entanto, podem ser ainda maiores, segundo a SBP. Isso porque há possibilidade de subnotificação por falhas no preenchimento ou na comunicação das ocorrências, inclusive nos atendimentos da rede privada e em ocorrências em ambiente escolar.

De acordo com a SBP, a autoagressão pode ser caracterizada como um distúrbio de comportamento que faz com que “o paciente agrida o próprio corpo ao sentir profunda tristeza, raiva, nervosismo ou viver um trauma”.

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— A adolescência é justamente o período de maior desenvolvimento emocional e de formação da identidade. Os jovens têm uma grande necessidade de aceitação social, o que os torna mais vulneráveis. Por ser um período crítico e muitos transtornos começarem antes dos 14 anos, pode ser que grande parte não seja identificada ou tratada — afirma a presidente do Departamento Científico de Prevenção e Enfrentamento das Causas Externas na Infância e Adolescência da SBP, Renata Waksman.

Perigo com as redes sociais e o papel da escola

A supervisão às redes sociais de crianças e adolescentes pelos responsáveis também é essencial, visto que pesquisas na internet feitas por esse público também podem trazer alertas, conforme explica a psicóloga.

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— O uso excessivo de internet à noite, a exposição a páginas que incentivam a autoagressão e a busca por validação em redes sociais são fatores de risco — diz Shirlene, que atua no enfrentamento
de dificuldades emocionais e comportamentais de crianças e adolescentes, além de orientar famílias a encontrarem estratégias práticas e respeitosas para lidar com os desafios da parentalidade.

A escola também tem um papel importante na observação do comportamento de crianças e adolescentes. A especialista afirma que, sempre que possível, deve-se registrar e comunicar à família do jovem sobre os sinais iniciais de que há algo de errado acontecendo, criando espaços de acolhimento e diálogo.

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Isso porque casos de bullying na escola, com exclusão social e conflitos escolares, são fatores que contribuem para que crianças e adolescentes recorram à autoagressão. Tudo isso se soma a outros fatores, como sobrecarga das famílias, a organização escolar voltada quase exclusivamente para o conteúdo, e a carência de acompanhamento médico contínuo, conforme explica Renata Waksman.

“Não é um comportamento para chamar a atenção”

A psicóloga Shirlene alerta que não se deve, em nenhuma hipótese, minimizar o sofrimento da criança ou adolescente, pois a autoagressão “não é um comportamento para chamar a atenção” das pessoas ao redor.

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— É uma demonstração de um sofrimento e uma inabilidade de regulação emocional e resolução de problemas clara que requer a nossa atenção, porque em algum momento isso pode evoluir para outra coisa. É ainda onde entra a nossa intervenção precoce — afirma.

Por isso, como forma de prevenção, a especialista afirma que há uma série de ações que podem ser feitas para fortalecer a saúde mental de crianças e adolescentes antes que chegue ao ponto da autoagressão. Dentre essas iniciativas, estão o estímulo aos vínculos positivos na família, escola e comunidade, a promoção de ambientes escolares inclusivos e menos competitivos, e a garantia de acesso precoce a suporte psicológico, especialmente em populações vulneráveis.

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Como falar sobre o tema?

Segundo Shirlene, a melhor maneira de falar sobre o tema de forma responsável, sem trazer mais estigmas, mas também sem esconder o problema, é usando linguagem clara, sem estereótipos.

Além disso, ela reforça que os pais e responsáveis também devem focar no sofrimento psíquico e não na autoagressão em si, mostrando que buscar ajuda é um sinal de força, além de mostrar que a criança ou adolescente “não está sozinha”.

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