Em viagem à Ásia e perto de reunião com Trump, Lula “sobe o tom” e propõe comércio sem dólar

Viagem do petista ao continente asiático tem como pano de fundo tarifaço de Trump e uma busca de parceiros comerciais alternativos; os dois líderes devem se encontrar na Malásia

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Presidente Lula está na Indonésia (Foto: Marcelo Camargo, Agência Brasil)

Lula critica dependência dos países uns nos outros (Foto: Marcelo Camargo, Agência Brasil)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subiu o tom e fez críticas ao protecionismo, a uma nova Guerra Fria e propôs comércio em moeda nacional com a Indonésia, uma alternativa ao dólar americano nesta quinta-feira (23). Isso às vésperas de uma reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que deve ocorrer na Malásia.

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Além das críticas, Lula afirmou que os países não podem ser “dependentes de ninguém”.

— Indonésia e Brasil não querem uma segunda Guerra Fria. Nós queremos comércio livre. E, mais ainda, tanto a Indonésia quanto o Brasil têm interesse em discutir a possibilidade de comercialização entre nós dois ser com as nossas moedas. Essa é uma coisa que nós precisamos mudar. O Século XXI exige que tenhamos a coragem que não tivemos no Século XX. Exige que a gente mude alguma forma de agirmos comercialmente para não ficarmos dependentes de ninguém — disse o petista.

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A fala é uma crítica direta às ações do presidente americano, que deflagrou uma guerra comercial e tarifária ao voltar ao poder neste ano. Em abril deste ano, Trump anunciou um tarifaço recíproco global, que atingiu com 10% as exportações brasileiras. Em julho, aplicou uma sobretaxa de 40%, alegando razões políticas e emergência nacional.

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Ainda, o presidente americano já reclamou publicamente de governos que pretendem avançar na pauta da “desdolarização”, como o uso de moedas nacionais ou até a criação de uma moeda alternativa para comércio exterior no Brics, grupo do qual Brasil e Indonésia fazem parte.

O líder americano até chegou a ameaçar impor uma taxa de 100% aos países do Brics caso os planos prosseguissem. A pauta segue o grupo, mas com menos ênfase nas reuniões de 2025, presididas pelo governo brasileiro. Integrantes do Palácio do Planalto informam que o assunto não foi debatido nas prévias da próxima reunião entre os presidentes.

No próximo domingo (26), Lula e Trump planejam se sentar para discutir pela primeira vez presencialmente a maior crise diplomática entre os países em dois séculos. O encontro deve acontecer em Kuala Lumpur, onde ambos participam como convidados da 47ª Cúpula de Líderes da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean). A reunião ainda não foi oficializada, mas vem sendo preparada pelas diplomacias dos dois países.

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— A decisão brasileira de reforçar nossa cooperação com a Indonésia e com o Sudeste Asiático não poderia ser mais acertada — afirmou o presidente Lula, que escreveu um artigo no jornal local The Jakarta Post, sobre a aproximação do Brasil com o bloco.

Dados do governo brasileiro indicam que a corrente de comércio com a Asean atingiu US$ 37 bilhões em 2024, pouco menos do que o Mercosul, mas com um superávit de US$ 15 bilhões.

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— O que está acontecendo nesse momento na política e na economia demonstra que, cada vez mais, nós precisamos discutir as similaridades que existem entre os nossos dois países para que a gente possa, cada vez mais, fazer crescer a nossa relação comercial, a nossa relação científica e tecnológica, a nossa relação cultural, a nossa relação política, para que, cada vez mais, a gente seja menos dependente — afirmou Lula em um pronunciamento público no Palácio Presidencial Merdeka, em Jacarta, ao lado do presidente Prabowo Subianto.

Na ocasião, o presidente citou a simbologia da Indonésia, que em 1955 abrigou a Conferência de Bandung, quando países asiáticos e africanos lançaram as bases de uma nova inserção internacional, baseada na autodeterminação e na não interferência externa, em um movimento pós-colonial.

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Esta é a terceira viagem do petista à Ásia, e tem como pano de fundo o tarifaço de Trump e uma busca de parceiros comerciais alternativos e de equilíbrio para evitar excesso de dependência comercial, seja dos EUA, seja da China.

— Nós queremos multilateralismo e não unilateralismo. Nós queremos democracia comercial e não protecionismo. No atual cenário de acirramento do protecionismo, nossos países têm plenas condições de mostrar ao mundo a capacidade de defender interesses econômicos com diálogo e respeito mútuo — afirmou o brasileiro.

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*Sob supervisão de Kássia Salles