O delegado Wanderlei Redondo, de 70 anos, dedicou mais de quatro décadas da vida à segurança pública catarinense e ajudou a solucionar mais de 60 mil desaparecimentos no Estado. A trajetória que começou em Lages, nos anos 1980, foi marcada por desafios, dedicação extrema, grandes emoções e casos que, como ele mesmo destaca, “dariam um livro”.
A carreira do delegado começou em São Paulo, onde nasceu em 14 de dezembro de 1954 e iniciou os estudos em Direito em 1971, com a intenção de prestar concurso para a segurança pública.
Aos 27 anos, a primeira oportunidade surgiu quando ele ingressou na Polícia Civil de Santa Catarina em fevereiro de 1982, em Lages, na Serra catarinense. Na cidade, encontrou uma dura uma realidade:
— Era muito homicídio. Chegamos a ter na época, até três homicídios em um final de semana, numa noite.
Na época, o trabalho também carecia de recursos.
— Não existia sair de colete. Ninguém falava em colete. Munição era muito difícil dispor para o policial. Mas era muito bom, gostei demais. Aí acabei me apaixonando mais pela profissão — conta.
O primeiro caso que o marcou ocorreu ali mesmo, no início da carreira.
— Nós tivemos um caso de uma moça que era deficiente, ela tinha problemas mentais e o pai abusava dela. Com uma assistente social conseguimos levantar que o pai abusava dela. E, quando ela não permitia isso, era agredida. As costas dela era praticamente em carne viva. Isso aí [me] impactou muito na época — relembra.
Dos presídios ao surgimento da carteira de identidade impressa
A carreira seguiu por diferentes regiões e forças de segurança do Estado. À época, cada cidade enfrentava as suas particularidades. Mesmo sem tecnologias avançadas e infraestrutura necessária, o trabalho era árduo e levado a sério, com extrema dedicação.
— Depois eu fui para São Francisco do Sul. Lá a dificuldade era muito grande. Quando assumi não tinha viatura policial. Eu atuei mais ou menos por uns 34 meses com meu veículo particular — conta.
Após o nascimento do primeiro filho, veio uma pausa e, em seguida, uma nova mudança. Desta vez, para Chapecó, em 1985. Ao longo dos anos, teve passagem na direção prisional do município, até que algum tempo depois, chegou em Florianópolis.
— Assumi o presídio de Joinville também. E depois, eu vim para Florianópolis, assumi a direção penal da Penitenciária de Florianópolis. Também outro desafio — acrescenta.
Ele recorda ainda mudanças importantes da qual teve participação:
— Trabalhei no instituto de identificação. Revolucionamos na época quando fizemos as primeiras carteiras de identidade já impressa, não era batida a máquina.
Chegada à Delegacia de Desaparecidos
O ponto decisivo da carreira viria anos depois, com a criação da Delegacia de Desaparecidos, inaugurada em 2013.
— Me deu a ideia de criar a Delegacia de Desaparecidos. Tive um apoio total do nosso ex-delegado geral, Aldo Pinheiro D’Ávila, e ele falou: corre atrás — diz.
E foi a partir desta ideia que o projeto saiu do papel. Na época, os números de desaparecidos no Estado assustavam: ao menos 19 mil pessoas estavam desaparecidas, segundo Redondo. Além disso, o trabalho revelava falhas no sistema e exigiu cruzamento de dados e apoio de outras instituições.
— Muitos daquele que estavam desaparecidos, constavam como desaparecidos, haviam feito a carteira de identidade posteriormente, se envolvido em acidente de trânsito, preso — conta.
O acompanhamento, aliado a tecnologias que avançaram ao longo dos anos, reduziu drasticamente o volume de casos.
— A parceria da Polícia Civil com todas as instituições públicas e privadas fez com que conseguíssemos baixar este número para cerca de 1,5 mil — destacou o delegado.
Ele conta, ainda, que o conhecimento acumulado e o trabalho desenvolvido no Estado se tornou referência nacional.
— Essa experiência nós levamos para Brasília. Eu, como autoridade central estadual de desaparecidos, pude levar essa expertise — comenta.
Os números alcançados resume a dimensão do impacto. Quando a delegacia foi criada, havia 18 mil registros de desaparecimentos. A limpeza dos dados derrubou esse total para 6 mil. O fluxo anual de desaparecimentos, segundo ele, chega de 3 a 4 mil por ano.
— Então, em 10 anos, chegamos a 60 mil casos resolvidos — revela.
Episódios que marcaram a carreira
Os casos marcantes se multiplicaram ao longo dos anos e renderiam, segundo ele, um livro. Ele recorda episódios surpreendentes, como o do homem que descobriu, ao buscar documentos após um furto, que não era filho dos pais registrados.
O delegado aposentado também relembra os reencontros improváveis, como uma mulher de 51 anos, sem certidão de nascimento, que buscava a própria origem e até situações em que as pistas levaram a outro estado.
Entre as histórias, Redondo cita o caso emblemático de um caminhoneiro dado como desaparecido por 35 anos.
— Teve um caminhoneiro aqui que desapareceu há mais ou menos 35 anos. E vinham informações para nós que essa pessoa estaria na Bahia, em Salvador. Eu até pedi para os policiais de lá tirarem uma foto, e mandarem para nós. Coletar impressão digital [do homem] para a gente saber [se era ele] — contou.
Segundo Redondo, a família também conseguiu contato com o homem apontado como o desaparecido. A partir disso, um dos filhos decidiu viajar até Salvador para conferir pessoalmente.
— Chegando lá, a família acreditou se tratar do homem desaparecido — acrescenta.
Ao chegar em Santa Catarina, o homem passou por identificação dactiloscópica. As digitais, entretanto, levantaram suspeitas, já que não batiam com o prontuário antigo.
— Para nós da delegacia a semelhança entre o desaparecido e o homem que estava em Salvador não era muito grande, mas ele sabia de muitos detalhes da pessoa que estava desaparecida, como sinais de nascença e histórias de tias — explicou.
Com a dúvida instalada, Redondo determinou o exame de DNA:
— Coletamos [o DNA] dessa pessoa que se dizia o desaparecido, do filho e da mãe. Não fechou. Trouxemos o outro filho, que era de Joinville, também para fazer o DNA, realmente não fechou.
Mesmo após o resultado negativo, a história tomou outro rumo. A família decidiu acolher o homem, que seguiu para Imbituba, onde faleceu um tempo depois. O desfecho, porém, deixou uma lacuna:
— No final da história, ninguém sabe quem é essa pessoa. Ele tinha, na verdade, muitas informações do nosso desaparecido, que eram muitos detalhes.
Quando questionado sobre como aquele homem poderia saber tanto sobre a vida do caminhoneiro desaparecido, o delegado relatou a explicação que ouviu.
— Ele falava que ficou 30 anos na cadeia. Mas era impossível. Talvez a família desconfiou, mas ficaram quietos — teoriza.
Paixão pela profissão
Após anos no cargo, o delegado diz que a ligação emocional com o trabalho é o que mais o marcou na Delegacia de Desaparecidos.
— A Delegacia de Desaparecidos realmente marca. É que mexe muito com as emoções das pessoas, com o carinho e com o amor — afirma Redondo.
Ele lembra que também atuava em operações de abordagem de pessoas em situação de rua e destaca a dificuldade de muitas famílias ao receber notícias difíceis.
— É duro para nós, mesmo com tanta experiência que a gente tinha, comunicar às vezes um familiar que aquele desaparecido já havia falecido — comenta. Ainda assim, afirma que os reencontros justificam o esforço.
A aposentadoria, anunciada em julho de 2025, marcou a finalização de um ciclo, mas não da pausa total dos trabalhos.
— Me sinto feliz com o que eu realizei pelo Estado de Santa Catarina, pelo povo catarinense. Fico muito grato por ter desenvolvido o meu trabalho, ajudado muita gente. Cumpri minha missão — garante.
O afastamento, porém, durou pouco:
— Aposentei, fiquei 20 dias e o secretário de Segurança Pública me chamou e estou voltando a trabalhar de novo — conta Redondo, que agora está atuando temporariamente na coordenação do Cadastro Estadual de Pessoas em Situação de Rua, no programa Muito Além das Ruas do Governo do Estado.
Ao ser questionado sobre que conselho deixaria aos futuros delegados, ele responde de forma direta:
— A pessoa vai ter que amar a profissão.





