Os orelhões que mudaram a comunicação em Joinville na década de 1970

Cidade do Norte catarinense ainda guarda vestígios de um ícone urbano da telefonia brasileira

Compartilhe:

Aparelhos entraram em desuso com o avanço da tecnologia (Foto: Joinville de Ontem, Reprodução)

Os orelhões, nome que os telefones de uso público (TUP) ficaram conhecidos, entraram em desuso com o avanço da tecnologia. Em todo o Brasil, ainda existem 38 mil aparelhos ativos (ou em manutenção), sendo 94 em Santa Catarina. Na maior cidade do Estado, os orelhões já foram extintos do dia a dia da população. No entanto, alguns exemplares seguem nas ruas e despertam a curiosidade e nostalgia da comunidade joinvilense.

Continua após a publicidade

Veja fotos

Quando os orelhões chegaram a Joinville

Lançados em 1972, com criação da arquiteta chinesa Chu Ming Silveira — radicada no Brasil —, os orelhões se tornaram um símbolo nacional. O design oval, pensado para melhorar a acústica e reduzir o ruído externo, fez com que o modelo brasileiro fosse replicado em outros países, como Peru, Angola, Moçambique e China.

O historiador e coordenador do Memória CVJ Patrik Roger Pinheiro conta que os primeiros aparelhos chegaram a Joinville entre 72 e 73. Foi nessa época, inclusive, que os grandes centros, como São Paulo, também receberam os primeiros orelhões.

Continua após a publicidade

— Naquele tempo ainda não havia a Telesc, e no ramo das telecomunicações, o estado era atendido por duas empresas, a Cotesc e a Satesc. Já em junho daquele ano, a Cotesc anunciou que brevemente instalaria telefones públicos em Joinville, Blumenau e Florianópolis — conta.

Pinheiro ainda relata que na cidade já havia cabines telefônicas que não eram no formato de concha, como os orelhões. Em maio de 1973, Joinville tinha dez cabines telefônicas e quatro orelhões: no Mercado Municipal e nos colégios Celso Ramos, Santos Anjos e Bom Jesus.

— Além de serem chamados de orelhões, os telefones públicos também receberam na época outro apelido: moedeiros. Era necessário obter fichas em forma de moeda para realizar as ligações. Como muitos lembram muito bem, depois vieram os cartões, colecionados por telecartofilistas — relembra o historiador.

Danos aos orelhões

Quando os orelhões chegaram a Joinville, no Norte catarinense, a Câmara de Vereadores vivia a 8ª legislatura no período pós Vargas. O historiador relata que a chegada da tecnologia chamou atenção dos parlamentares. Registros da época mostram que alguns vereadores fizeram pedidos formais à Satesc para a instalação de telefones públicos em diferentes bairros da cidade.

Continua após a publicidade

Ainda naquele mesmo ano, porém, a concessionária já enfrentava um problema recorrente: o vandalismo. A Satesc recorreu à imprensa para pedir apoio na conscientização da população, após sucessivos danos aos aparelhos instalados em pontos como a rua Princesa Isabel, no Centro da cidade.

Palitos de fósforo, pontas de cigarro e papéis dobrados eram inseridos nos locais destinados às fichas, comprometendo o funcionamento dos equipamentos.

Continua após a publicidade

Em 15 de julho de 1973, o jornal A Notícia publicou um informe legislativo que pediu para que os cidadãos cuidassem dos aparelhos e prezassem pela qualidade do serviço.

— Os custos de manutenção dos orelhões sempre foram aumentados pela depredação, tornando complicada sua permanência nos dias atuais, em que a telefonia fixa perdeu terreno para a móvel — conta Pinheiro.

Continua após a publicidade

Orelhões vão desaparecer em 2026

A retirada em massa dos orelhões ocorre após o encerramento das concessões das cinco empresas responsáveis pelos aparelhos (Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefônica), que deixaram de ter obrigação legal de manter telefones públicos nas ruas.

Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), não há norma que determine ou regulamente expressamente a retirada dos orelhões não obrigatórios, mas a agência avalia solicitar às prestadoras adaptadas a apresentação de um plano de retirada desses terminais.

Continua após a publicidade

Em Santa Catarina, há 94 orelhões, todos operados pela Oi, conforme dados da Anatel. Do total no Estado, 65 aparelhos seguem ativos, enquanto 29 constam como “em manutenção”.

A maioria está instalada em municípios de pequeno porte, geralmente com apenas um ou dois aparelhos por cidade. O município com maior número é Mafra, no Planalto Norte catarinense, onde ainda existem seis telefones públicos.

Continua após a publicidade

— Em janeiro de 2026, mudo e inoperante, permanece em frente ao legislativo municipal um dos últimos telefones públicos de Joinville. Um triste e adequado símbolo de uma era que se apaga — diz o historiador da Memória CVJ.

Veja as cidades do Norte de SC que ainda têm orelhões ativos

  • Bela Vista do Toldo (Colônia Ouro Verde): ativo;
  • Campo Alegre (Santana): ativo;
  • Canoinhas (Fartura de Baixo): ativo;
  • Canoinhas (Paciência dos Neves): ativo;
  • Canoinhas (Paula Pereira): ativo;
  • Canoinhas (Salseiro): em manutenção;
  • Irineópolis (Colônia Santo Antônio): ativo;
  • Itaiópolis (Rio da Estiva): ativo;
  • Itapoá (Saí Mirim): em manutenção;
  • Jaraguá do Sul (Alto Garibaldi): ativo;
  • Mafra (Augusta Vitória): ativo;
  • Mafra (Butiá dos Tabordas): ativo;
  • Mafra (Campo São Lourenço): ativo;
  • Mafra (General de Brito): em manutenção;
  • Mafra (Saltinho do Canivete): ativo;
  • Mafra (Vila Souza): em manutenção;
  • Monte Castelo (Residência Fuck): ativo;
  • Papanduva (Guarani): ativo;
  • Papanduva (Rodeiozinho): ativo;
  • Papanduva (São João do Mirador): ativo;
  • Rio Negrinho (Cerro Azul): ativo.