O fenômeno dos lagos no fundo do mar que não se misturam com o oceano

Conhecidas como piscinas de salmoura, essas formações subaquáticas possuem margens definidas e ondas próprias, mas escondem um ambiente letal onde a química da água desafia a vida marinha comum

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Registro de um lago subaquático no fundo do oceano: a densidade extrema da salmoura impede que ela se misture com a água ao redor, criando um cenário que parece de outro planeta. Foto: Wikimedia Commons

Registro de um lago subaquático no fundo do oceano: a densidade extrema da salmoura impede que ela se misture com a água ao redor, criando um cenário que parece de outro planeta. Foto: Wikimedia Commons

Há mais de mil metros de profundidade no oceano, encontra-se um lago com margens definidas, superfície visível e até ondas próprias.

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O cenário, que parece saído de um desenho animado, é um fenômeno geológico real conhecido como lagos subaquáticos ou piscinas de salmoura.

Essas formações desafiam a lógica comum: são porções de água dentro do próprio mar que não se misturam com o ambiente ao redor. O segredo por trás dessa separação invisível é a densidade.

Por que a água não se mistura?

A explicação científica é comparável ao experimento escolar de misturar água e óleo. A água desses lagos é extremamente salgada — muito mais concentrada do que a água marinha comum.

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Por ser muito mais densa e pesada, essa salmoura afunda e se acumula em depressões no solo oceânico, criando uma barreira física que impede a mistura com o resto do oceano.

A origem desse sal é pré-histórica. Há milhões de anos, grandes massas de água evaporaram, deixando depósitos gigantescos de sal no subsolo.

Com o tempo e a movimentação das placas tectônicas, esse sal foi dissolvido, criando bolsões de salmoura ultraconcentrada que migraram para as profundezas.

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Um ambiente letal, mas cheio de vida

Embora fascinantes, esses lagos são perigosos. Eles são frequentemente chamados de “mortais” porque a química da água é radicalmente diferente do entorno.

Peixes e outros animais marinhos que cruzam acidentalmente a fronteira invisível podem sofrer um choque fisiológico imediato devido à altíssima salinidade e à presença de substâncias como metano e sulfeto de hidrogênio.

Para um ser humano, o maior perigo seria a pressão extrema, que a mil metros de profundidade é 100 vezes maior do que na superfície. Sem equipamentos especializados, o corpo humano não suportaria o ambiente.

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Além disso, o contato direto com a salmoura poderia causar irritações severas na pele e mucosas. Apesar da toxicidade para a maioria das espécies, esses lagos não são desertos. Eles abrigam bactérias e microrganismos específicos que realizam a quimiossíntese.

Como a luz solar não chega a essas profundidades, esses seres sobrevivem transformando compostos químicos, como o metano, em energia.

Onde eles estão?

Cientistas já mapearam algumas dessas formações em locais específicos:

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  • Golfo do México: onde estão alguns dos exemplares mais estudados.
  • Mar Mediterrâneo: com registros próximos à Grécia.
  • Mar Vermelho: uma região naturalmente conhecida pela alta salinidade.

Mesmo com essas descobertas, o fundo do mar continua sendo um mistério. Estima-se que mais de 80% do solo oceânico ainda não foi explorado.

Curiosamente, hoje temos mapas mais detalhados da superfície da Lua do que das vastas planícies que compõem o fundo dos nossos próprios oceanos.

Os lagos subaquáticos são um lembrete de que a Terra ainda guarda segredos profundos, onde as leis da física e da geologia criam mundos alienígenas dentro do nosso próprio planeta.

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*Por Raphael Miras