Uma relação curiosa entre a neurociência e a psicologia explica como a necessidade física de ir ao banheiro quando se está com a bexiga cheia pode afetar a capacidade de uma pessoa de tomar decisões financeiras e resistir a impulsos.
A relação é a base de um conceito de autocontrole (ou força de vontade) e de como o cérebro gerencia impulsos através de um fenômeno chamado de transbordamento de inibição. Quem explica melhor isso é o Dr. David Lewis, neurocientista e psicológo britânico, autor dos livros Impulse e The Brain Sell, que falam sobre impulsividade.
Autocontrole como recurso limitado
Para Lewis, o autocontrole, ou seja, a capacidade humana de de segurar impulsos, focar a atenção e tomar decisões difíceis, funciona como uma bateria ou um recurso finito. Quem passa o dia inteiro resistindo a tentações, como manter uma dieta rigorosa, esgota a energia de autocontrole. À noite, com a energia esgotada, a pessoa fica mais propensa a fazer compras por impulso ou escolher algo calórico para comer. Decisões simples do dia a dia, como escolher qual caminho fazer na hora da volta para a casa, podem afetar essa capacidade também.

O efeito da bexiga cheia
Lewis explica melhor essa relação do autocontrole com decisões através de um experimento científico sobre o controle da bexiga. Nesse estudo, participantes foram divididos em grupos. Um grupo bebeu muita água, cerca de cinco copos, enquanto outro não bebeu quase nada.
Depois de 40 minutos, o tempo necessário para que as pessoas ficassem com a bexiga cheia e vontade de ir ao banheiro, os participantes foram colocados para tomar decisões financeiras. Eles tinham que escolher entre:
- Receber 16 dólares no dia seguinte (decisão com recompensa pequena e imediata)
- Receber 30 dólares em 35 dias (decisão com recompensa maior e de longo prazo)
O resultado do estudo mostrou que as pessoas que estavam com a bexiga cheia demonstraram mais autocontrole e escolheram esperar mais tempo para receberem uma quantia maior de dinheiro.

O motivo disso acontecer é explicado pelo transbordamento de inibição
O neurocientista explica que o cérebro humano não isola completamente o controle físico do controle mental. Quando se está com a bexiga cheia, o cérebro precisa enviar sinais biológicos e incoscientes muito fortes de inibição para os músculos da região, para conter a urina.
O comando neurológico de segurar e controlar acaba transbordando para outras áreas do cérebro responsáveis por funções executivas. O mecanismo que a pessoa usa para controlar o impulso físico de fazer xixi acaba ajudando a controlar o impulso psicológico de gastar dinheiro ou comer um doce.
Trata-se apenas de um experimento científico, mas capaz de demonstrar como não ter nenhuma pressão biológica para exercer autocontrole pode fazer com que a pessoa tenha menos travas neurológicas para segurar seus impulsos de consumo.
