“Quanto menos eu depender do governo, melhor”: o pensamento que tomou conta de 65% dos brasileiros 

Pesquisa do Datafolha traduz o desejo de trabalhadores e autônomos que cansaram de esperar pelo poder público para mudar de vida

Compartilhe:

Levantamento estatístico nacional aponta inclinação histórica do eleitorado em direção ao gerenciamento da própria renda e menor dependência de benefícios públicos (Foto: MMarcello Casal, JrAgência Brasil)

Uma parcela expressiva dos brasileiros defende que o melhor caminho para prosperar é não depender do Estado. É o que revela uma pesquisa do Datafolha divulgada na última sexta-feira (3), mostrando que 65% da população prefere a autonomia individual ao recebimento de auxílios públicos. O levantamento, que ouviu 2.004 eleitores em todo o país, registrou o maior desejo de distância do assistencialismo estatal de toda a série histórica, iniciada há mais de uma década.

Continua após a publicidade

FOTOS: A evolução do desejo por autonomia desde 2013

Em contrapartida, os que acreditam que a vida melhora à medida que recebem mais benefícios do governo somam 31%. Outros 4% não souberam responder à pergunta.

As entrevistas foram feitas presencialmente entre os dias 17 e 18 de junho de 2026, cobrindo 139 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais e o estudo foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Continua após a publicidade

Para chegar a esse resultado, os pesquisadores do Datafolha colocaram os entrevistados diante de duas visões opostas sobre o papel do Estado;

  • “Quanto menos eu depender do governo, melhor estará minha vida” (escolhida por 65%)
  • “Quanto mais benefícios do governo eu tiver, melhor estará minha vida” (escolhida por 31%)

O que mudou desde 2013

Essa pergunta faz parte de uma lista de indicadores econômicos que o Datafolha acompanha desde 2013 para entender o pensamento político do país. Na primeira medição o Brasil estava empatado, com exatamente 47% dos entrevistados em cada lado da disputa de opiniões.

De lá para cá, o desejo por autonomia individual ganhou impulso a cada nova rodada da pesquisa (com edições em 2014, 2017 e 2022). Analistas apontam que as crises econômicas sucessivas, as reformas trabalhista e previdenciária, e o avanço da cultura do empreendedorismo por necessidade ajudaram a moldar essa nova mentalidade coletiva.

Diferenças entre homens e mulheres

Os dados revelam que a percepção sobre o tamanho do Estado varia bastante dependendo do perfil de quem responde. O desejo de distância do governo é consideravelmente maior entre os homens, chegando a 71%.

Continua após a publicidade

Já entre as mulheres, o índice cai para 59%, um reflexo de que o público feminino costuma chefiar lares mais vulneráveis e depender mais diretamente de redes públicas de saúde, creches e auxílios. Por região, a visão de que menos governo é melhor ganha mais força na região Sudeste, onde o indicador bateu a marca dos 70%.

O impacto no bolso

Para o Datafolha, essa pergunta funciona como um termômetro que vai além do apreço por um governante específico. Ela mede o quanto o brasileiro confia nas instituições públicas a longo prazo.

Continua após a publicidade

A rejeição à dependência estatal caminha lado a lado com outro desejo que cresce nas pesquisas de opinião, a vontade de pagar menos impostos, mesmo que isso signifique serviços públicos mais enxutos. Essa resposta do eleitor sinaliza que as pessoas preferem gerenciar a própria renda a repassar valores maiores do salário para o caixa do governo.

Autonomia contra a necessidade

Apesar do forte indicativo ideológico em direção ao livre mercado e ao esforço próprio, especialistas fazem uma ressalva importante de leitura. Querer depender menos do governo funciona muito como um ideal de dignidade e estabilidade, a busca por um emprego fixo ou por um negócio próprio que dê segurança.

Continua após a publicidade

Na prática, porém, esse desejo convive com um Brasil onde milhões de famílias ainda precisam de programas de transferência de renda ou de aposentadorias para fechar as contas do mês. O dado reflete mais uma insatisfação com os serviços prestados do que uma recusa total à proteção social em momentos de crise.

*Com edição de Luiz Daudt Junior.