A complexidade emocional, moral e social que envolve a rotina daqueles que se dedicam a cuidar de pessoas vulneráveis estão presentes em O Cuidador: O valor de uma vida, romance ficcional do publicitário e jornalista Cacau Nazar. Publicada pela Editora Autografia, a obra propõe um olhar crítico sobre a profissão, abordando as fragilidades, o impacto psicológico e a urgência de maior qualificação técnica em um setor ainda em processo de profissionalização.
A obra acompanha Rubens Pereira da Silva, o Rubinho, que inicia sua jornada movido pelo amor genuíno ao cuidar de sua mãe, Dona Ema. A partir dessa experiência, o personagem passa a atuar profissionalmente atendendo a diferentes pacientes, como o Sr. Afrânio e Dona Laura, cada um apresentando um universo particular de demandas físicas, emocionais e financeiras.
Ao longo do livro, a transformação do protagonista acontece e ojovem inicialmente motivado pela sensibilidade e pelo afeto genuíno evolui para um profissional experiente, mas moralmente ambíguo. A convivência constante com a fragilidade humana e a iminência da morte, aliadas à necessidade de subsistência, colocam Rubinho diante de escolhas difíceis.
O impacto da quase morte e a “ficção menos nobre”
Segundo o autor, a estrutura do livro, construída em episódios fragmentados, é inspirada na própria volatilidade do cotidiano desses trabalhadores:
“Me inspirei na vida dos próprios cuidadores, que é quase sempre fragmentada. Hora cá hora lá. Uns pacientes se curam, outros morrem, ficam sem recursos financeiros e assim por diante”, explica Cacau Nazar, detalhando a perda da sensibilidade de seu personagem em nome da subsistência.
Em entrevista ao NSC Total, Cacau explica que a semente do livro foi plantada durante um período de extrema vulnerabilidade da sua vida. Após passar por um problema de saúde e permanecer internado por 22 dias, Nazar conviveu de perto com equipes de saúde em ambiente hospitalar. Ali, ele testemunhou o poder da técnica somada à vocação, capazes de criar laços profundos de amizade e confiança.
A percepção mudou ao observar o tratamento domiciliar (home care), onde a falta de padronização e treinamento técnico muitas vezes expõe tanto profissionais quanto famílias a situações de risco.
Os cuidadores que atendem a domicílio nem sempre recebem o mesmo treinamento observando um e outro, optei pela ficção menos nobre
Um espelho para o futuro de todos nós
Além de construir um suspense ético, O Cuidador faz um alerta social, com o autor defendendo que a contratação desses serviços exige critérios rigorosos, com a necessidade das famílias avaliarem quem colocam dentro de casa, assim como é preciso o profissional também analise a estrutura familiar que o acolherá.
“A intenção é que mais e mais cautelas sejam tomadas na contratação de um profissional. Ele precisa analisar família e paciente e o reverso também é necessário. As especializações já estão começando a surgir e precisam ser bem observadas, para que nenhuma das partes incorra em prejuízos morais e financeiros”, pontua Nazar, que já está em fase de pesquisas para um segundo volume de O Cuidador.
De acordo com Nazar, a obra o fez pensar “como uma profissão tão importante pode, ainda hoje ser tratada com tanto descaso”. “Me fez repensar também na minha velhice. Com que profissionais poderei contar, confiar e pagar”, finalizou o ator, que já conduz pesquisas para uma continuação da história.
