“A loja se adaptou à minha vida”: o recomeço da empresária que se recusou a se aposentar em SC

Empreendedora de Chapecó começou no comércio há mais de 30 anos e diz que hoje mede a riqueza pela qualidade de vida

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Aos 62 anos, Maria das Dores Borin, mantém ativo seu sonho de criança enquanto investe em mais qualidade de vida (Foto: Keli Magri, MB Comunicação)

Quando alguém perguntava à pequena Maria das Dores Borin o que ela queria ser quando crescesse, a resposta vinha sem hesitação. Ainda criança, em Nova Itaberaba, no Oeste de Santa Catarina, ela dizia que teria uma loja e seria rica.

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Mais de meio século depois, o sonho se concretizou, mas de uma forma diferente daquela imaginada na infância. Aos 62 anos, a empresária percebeu que a riqueza não estava apenas no patrimônio construído ao longo da vida, mas na possibilidade de escolher como viver.

— A loja eu tenho. A riqueza está na liberdade e na qualidade de vida — diz.

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Dona da Mary Ltda., tradicional loja de calçados e confecções no bairro Alvorada, em Chapecó, Maria dedicou mais de três décadas ao comércio. Foram anos de jornadas que frequentemente ultrapassavam dez horas por dia, acompanhando o crescimento do bairro, conhecendo gerações de clientes e fazendo da loja uma extensão da própria casa.

Hoje, a rotina é bem diferente. Ela continua trabalhando, mas no seu ritmo. Viaja para comprar mercadorias, atende clientes por encomenda, administra imóveis de aluguel e faz questão de reservar tempo para a família. A aposentadoria nunca entrou nos planos, mas o excesso de trabalho ficou para trás.

Sonho virou realidade

A história no empreendedorismo começou antes mesmo da abertura da loja. Maria nunca trabalhou com carteira assinada. Ainda jovem, ajudava a administrar um posto de combustíveis da família em Nova Itaberaba. Quando o negócio foi vendido, surgiu a oportunidade de mudar para Chapecó e investir no sonho que carregava desde menina.

Em 1993, abriu a Mary Ltda. O comércio cresceu rapidamente e se consolidou no bairro Alvorada. Durante 25 anos, a empresária praticamente viveu dentro da loja.

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Ela acompanhava todas as etapas do negócio, desde as compras até o atendimento aos clientes. Para manter o crescimento, buscou investimentos sempre que necessário.

Em 2004, contratou a primeira operação de microcrédito para construir a vitrine da loja. Nos anos seguintes, realizou novas operações para ampliar o espaço, instalar balcões, reforçar o estoque e modernizar a estrutura.

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Para Maria, o crédito nunca foi um recurso para apagar incêndios.

— Crédito só vale a pena quando é feito para investir e dentro de uma parcela que você consegue pagar. Quando o investimento é planejado, ele gera resultado e praticamente paga o próprio financiamento.

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A decisão mais difícil

Com o passar dos anos, o sucesso da loja também trouxe um preço. O trabalho ocupava quase todo o tempo da empresária e sobravam poucas horas para descansar ou aproveitar a família. Foi então que, em 2018, os filhos insistiram para que ela diminuísse o ritmo.

A proposta era ousada: vender parte da estrutura da loja, reduzir o espaço comercial e utilizar o restante do terreno para construir kitnets destinadas à locação. A nova fonte de renda permitiria mais tranquilidade financeira e menos dependência da rotina intensa do comércio.

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Aceitar a mudança, porém, não foi fácil.

— Chorei quando meus filhos venderam os móveis da minha loja. Parecia que uma parte da minha história estava acabando. Hoje vejo que eles estavam certos. Eu deveria ter feito isso antes.

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Mesmo com a transformação, Maria não conseguiu se afastar completamente do comércio. Em vez de fechar as portas, optou por reinventar o negócio.

Registrou a empresa como microempreendedora individual (MEI), manteve uma loja menor no mesmo terreno e passou a administrar também os imóveis construídos no local.

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Trabalhar menos, viver mais

O novo formato trouxe exatamente o que ela buscava: equilíbrio.

Agora, a empresária viaja a cada 15 dias para buscar mercadorias, vende roupas conforme as encomendas dos clientes e organiza os próprios horários. A renda dos aluguéis complementa a atividade comercial e garante mais segurança financeira.

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Foi dessa mudança que surgiu uma frase que resume a nova fase da vida.

— A loja se adaptou à minha vida, e não o contrário.

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Aos 62 anos, Maria diz que não pretende parar de trabalhar tão cedo. Com saúde, disposição e vontade de continuar empreendendo, ela acredita que encontrou a medida certa entre trabalho e qualidade de vida.

O sonho da menina que queria ser rica continua vivo, mas ganhou um novo significado.

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Hoje, ela entende que prosperar não é apenas aumentar o tamanho de uma empresa ou acumular patrimônio. É ter liberdade para fazer os próprios horários, aproveitar a família e continuar trabalhando por prazer.

— Hoje eu continuo fazendo o que amo, mas sem abrir mão da minha vida. Descobri que essa é a maior riqueza que alguém pode conquistar.