Uma área do fundo do mar da Antártida abriga cerca de 60 milhões de ninhos de peixes. A colônia ocupa pelo menos 240 km² no mar de Weddell, extensão maior à área territorial de cidades famosas, como Washington e Recife.
Considerado o maior criadouro contínuo de peixes já documentado, o local reúne animais adultos, bilhões de ovos e uma biomassa superior a 60 mil toneladas. Além dos peixes, também existem comunidades de predadores maiores, como focas, na região.
Espécies nativas da Antártida
Descobridores da cidade submergida
A colônia foi identificada durante uma expedição do navio alemão Polarstern. Os pesquisadores investigavam o fundo do sul do mar de Weddell, próximo à plataforma de gelo Filchner, quando encontraram uma sucessão aparentemente interminável de ninhos.
A equipe usou o Ocean Floor Observation and Bathymetry System, conhecido pela sigla OFOBS. Preso ao navio por um cabo, o equipamento percorreu o fundo do mar enquanto transmitia imagens em tempo real para os cientistas.

Os pesquisadores analisaram 45,6 mil m² em imagens e contaram 16.160 ninhos. Depois, combinaram esses registros com dados de sonar para calcular a extensão total da colônia.
O estudo publicado na revista Current Biology estimou uma densidade média de 0,26 ninho por m². Através do método estatístico de extrapolação, os cientistas chegaram ao número aproximado de 60 milhões de ninhos ativos.
Como funciona a “cidade” de peixes da Antártida
Os ninhos pertencem à espécie Neopagetopsis ionah, conhecida como peixe-gelo-de-Jonas. O animal faz parte de uma família de peixes antárticos que não possui hemoglobina, proteína responsável pela cor vermelha do sangue.

Cada ninho forma uma depressão circular com cerca de 75 cm de diâmetro e 15 cm de profundidade. Os peixes retiram a lama do centro, deixando pequenas pedras expostas para acomodar os ovos.
Grande parte dos ninhos observados continha entre 1.500 e 2.500 ovos. Na maioria dos casos, um peixe adulto permanecia sobre a estrutura, provavelmente para proteger a futura ninhada contra predadores.
Bolha térmica
Os ninhos não estavam distribuídos igualmente pelo fundo do mar. A colônia coincidia com a passagem de uma massa de água profunda relativamente mais quente pelo canal submarino conhecido como Filchner Trough.
As medições indicaram temperaturas até 2 °C superiores às águas próximas. Mesmo assim, o ambiente permanecia perto do ponto de congelamento, já que a água salgada congela em temperaturas inferiores a 0 °C.

Área de caça
A colônia também desempenha um papel importante na alimentação das focas-de-Weddell. Dados obtidos com transmissores mostraram que os animais mergulhavam com frequência sobre a área ocupada pelos ninhos.
Segundo o Instituto Alfred Wegener, aproximadamente 90% das atividades de mergulho analisadas ocorreram dentro da região de reprodução. Carcaças encontradas entre os ninhos reforçam a presença de predadores.









