Colônia submersa no fundo do mar da Antártida abriga mais de 60 milhões de ninhos de peixes é maior que cidades famosas

Maior área conhecida de reprodução de peixes ocupa 240 km² no mar de Weddell e reúne uma biomassa estimada em mais de 60 mil toneladas

Compartilhe:
Colônia formada por milhões de peixes-gelo mostra que mesmo em um dos ambientes mais frios do planeta podem existir comunidades gigantescas de seres vivos (Foto: Alfred-Wegener-Institut / PS124, equipe AWI OFOBS)

Colônia formada por milhões de peixes-gelo mostra que mesmo em um dos ambientes mais frios do planeta podem existir comunidades gigantescas de seres vivos (Foto: Alfred-Wegener-Institut / PS124, equipe AWI OFOBS)

Uma área do fundo do mar da Antártida abriga cerca de 60 milhões de ninhos de peixes. A colônia ocupa pelo menos 240 km² no mar de Weddell, extensão maior à área territorial de cidades famosas, como Washington e Recife.

Continua após a publicidade

Considerado o maior criadouro contínuo de peixes já documentado, o local reúne animais adultos, bilhões de ovos e uma biomassa superior a 60 mil toneladas. Além dos peixes, também existem comunidades de predadores maiores, como focas, na região.

Espécies nativas da Antártida

Descobridores da cidade submergida

A colônia foi identificada durante uma expedição do navio alemão Polarstern. Os pesquisadores investigavam o fundo do sul do mar de Weddell, próximo à plataforma de gelo Filchner, quando encontraram uma sucessão aparentemente interminável de ninhos.

A equipe usou o Ocean Floor Observation and Bathymetry System, conhecido pela sigla OFOBS. Preso ao navio por um cabo, o equipamento percorreu o fundo do mar enquanto transmitia imagens em tempo real para os cientistas.

Continua após a publicidade

Os pesquisadores analisaram 45,6 mil m² em imagens e contaram 16.160 ninhos. Depois, combinaram esses registros com dados de sonar para calcular a extensão total da colônia.

O estudo publicado na revista Current Biology estimou uma densidade média de 0,26 ninho por m². Através do método estatístico de extrapolação, os cientistas chegaram ao número aproximado de 60 milhões de ninhos ativos.

Como funciona a “cidade” de peixes da Antártida

Os ninhos pertencem à espécie Neopagetopsis ionah, conhecida como peixe-gelo-de-Jonas. O animal faz parte de uma família de peixes antárticos que não possui hemoglobina, proteína responsável pela cor vermelha do sangue.

Continua após a publicidade

Cada ninho forma uma depressão circular com cerca de 75 cm de diâmetro e 15 cm de profundidade. Os peixes retiram a lama do centro, deixando pequenas pedras expostas para acomodar os ovos.

Grande parte dos ninhos observados continha entre 1.500 e 2.500 ovos. Na maioria dos casos, um peixe adulto permanecia sobre a estrutura, provavelmente para proteger a futura ninhada contra predadores.

Bolha térmica

Os ninhos não estavam distribuídos igualmente pelo fundo do mar. A colônia coincidia com a passagem de uma massa de água profunda relativamente mais quente pelo canal submarino conhecido como Filchner Trough.

Continua após a publicidade

As medições indicaram temperaturas até 2 °C superiores às águas próximas. Mesmo assim, o ambiente permanecia perto do ponto de congelamento, já que a água salgada congela em temperaturas inferiores a 0 °C.

Área de caça

A colônia também desempenha um papel importante na alimentação das focas-de-Weddell. Dados obtidos com transmissores mostraram que os animais mergulhavam com frequência sobre a área ocupada pelos ninhos.

Segundo o Instituto Alfred Wegener, aproximadamente 90% das atividades de mergulho analisadas ocorreram dentro da região de reprodução. Carcaças encontradas entre os ninhos reforçam a presença de predadores.