Há 13 anos, o Morro do Cambirela, em Palhoça, amanhecia coberto de neve em uma das paisagens mais marcantes do inverno de Santa Catarina. Registrado em 23 de julho de 2013, o fenômeno fez o cartão-postal da Grande Florianópolis ganhar o apelido de “Alpes Catarinenses”.
A neve no Cambirela ocorreu durante um dos episódios de neve mais abrangentes já documentados no Estado. Segundo a Epagri/Ciram, entre os dias 22 e 23 de julho de 2013, mais de 100 municípios catarinenses registraram neve, o equivalente a cerca de um terço do Estado.
Além das áreas tradicionalmente mais frias, o fenômeno também foi observado em regiões de baixa altitude e próximas ao litoral, como o Vale do Itajaí e a Grande Florianópolis, onde esse tipo de ocorrência é raro. No Cambirela, havia pelo menos 30 anos não havia relatos de neve.
Veja imagens da neve em 2013
A foto que eternizou os “Alpes Catarinenses”
Um dos registros mais conhecidos daquele dia foi feito pelo fotógrafo Alvarélio Kurossu, então repórter fotográfico do Diário Catarinense. Ao chegar à redação na manhã de 23 de julho, ele ouviu de um colega que havia nevado no Cambirela e decidiu conferir a informação.
— Na época, a redação do jornal ficava na SC-401. Busquei a parte mais alta do prédio, que fica de frente para o Cambirela, e vi o topo todo branquinho. Foi incrível: fiz apenas quatro fotos, pois a NSC (ex-RBS) tinha uma agência e precisava soltar as imagens para a imprensa de todo o país — relembrou, em entrevista ao NSC Total em 2024.
As imagens foram distribuídas para veículos de imprensa de todo o país. Segundo Alvarélio, apesar da singularidade da foto, também houve polêmica. Algumas pessoas, inclusive do ramo da fotografia, não acreditaram que ele teria feito a imagem, mas uma montagem.
— Eu cheguei a gravar um vídeo explicando aos leitores como a lente 300 e o duplicador possibilitaram a imagem. Ainda assim, tem uma pessoa que todo o ano do aniversário da foto (23 de julho) me escreve falando se eu vou contar ou não sobre a montagem — brincou ele, atual dono do Tonho Boteco, bar e restaurante em Santo Antônio de Lisboa.

Por que a neve no Cambirela foi histórica
De acordo com o meteorologista Marcelo Martins, da Epagri/Ciram, a neve registrada no Cambirela foi um episódio “mais do que raro”. Embora exista a possibilidade de nevar novamente no morro por causa da altitude, ele destacou, em entrevista ao NSC Total em 2023, que o evento de 2013 foi excepcional.
— Isso acontece sempre, mas onde costuma nevar? Nas áreas mais altas do Estado, como o Planalto Sul, que tem altitude superior a 1.200 metros. O Cambirela vai até aproximadamente mil metros, além de estar no litoral. Então é muito mais difícil nevar ali — explicou.
Na ocasião, o fenômeno foi favorecido pela combinação de elevada umidade com temperaturas próximas de 0°C, sob influência de massas de ar de origem polar. Segundo a Epagri/Ciram, a neve também esteve associada à formação de um ciclone extratropical próximo à costa, a um sistema frontal e ao avanço de um anticiclone intenso. As mesmas condições provocaram chuva congelada em municípios como Rancho Queimado, Alfredo Wagner e Águas Mornas.

SC já teve outros episódios de neve
Santa Catarina é conhecida por registrar episódios de neve. O maior ocorreu em São Joaquim, no dia 20 de julho de 1957, quando 1,30 metros de neve chegou a se acumular em alguns pontos. O episódio é considerado o segundo maior do Brasil, atrás apenas de Vacaria, no Rio Grande do Sul, em 1979, quando a neve acumulou em mais de dois metros de altura.
A neve de 1957 durou cerca de sete horas e causou uma série de transtornos ao município, com a perda de criações, árvores com galhos quebrados e casas com telhados destruídos. Além disso, os acessos para a cidade ficaram bloqueados por alguns dias devido à neve.
Outro episódio de neve marcante ocorreu em 21 de agosto de 1965, em Chapecó. Essa nevasca, no entanto, não chegou a causar prejuízos à cidade. Segundo os moradores da época, as temperaturas sentidas naquele dia não eram tão intensas quanto as de uma geada forte.

Neve nos últimos anos
No ano passado, Santa Catarina registrou três episódios de neve. A primeira e mais intensa ocorreu no dia 29 de maio. Conforme a Defesa Civil, o fenômeno ocorreu em ao menos quatro municípios: Bom Jardim da Serra, São Joaquim, Urubici e Urupema.
Em São Joaquim, turistas celebraram a neve. No mirante da Serra do Rio do Rastro, foi possível até fazer um boneco de neve. A rodovia em Bom Jardim da Serra, incluisve, passou cerca de uma hora interditada devido ao acúmulo de gelo na pista.
Entre 30 de junho e 1º de julho, houve um segundo episódio de precipitação invernal. Em 9 de agosto, houve o terceiro e último registro, com temperaturas que chegaram a -2° C.
Veja imagens da neve em agosto de 2025
Por que neva tanto em SC?
Santa Catarina é o estado brasileiro com maior frequência de registros de neve, segundo a Epagri/Ciram. Isso ocorre porque as massas de ar polar que avançam do Sul do continente encontram, na Serra catarinense, a combinação de altitude elevada, umidade e temperaturas muito baixas, condições favoráveis à ocorrência do fenômeno.
Neve, chuva congelada ou chuva congelante? Saiba a diferença
Neve
A neve é o fenômeno mais esperado durante o inverno, especialmente em regiões como São Joaquim e Urupema. O fenômeno, porém, só ocorre quando a temperatura do ar está abaixo de 0°C e há umidade suficiente na atmosfera. Os cristais de gelo se aglomeram e caem na forma de flocos, criando a clássica paisagem branca.
Chuva congelada
Já a chuva congelada ocorre quando a neve que cai da nuvem, passa por uma camada de ar mais quente, com temperatura acima de 0°C, mas depois volta a encontrar uma camada de ar frio, e recongela antes de chegar ao chão, formando os pequenos aglomerados de gelo que caem no chão.
Chuva congelante
Já a chuva congelante acontece quando a precipitação cai em forma de gotas líquidas, mas, ao atingir superfícies muito frias, como estradas e calçadas, congela imediatamente, formando uma camada de gelo. Esse fenômeno é particularmente perigoso para o tráfego, pois pode causar acidentes devido à formação de gelo negro, quase invisível, nas vias.


























