As fortes chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul na última semana representam um dos primeiros sinais dos impactos do El Niño no Sul do Brasil e acendem um alerta para Santa Catarina nos próximos meses. Nesta sexta-feira (24), o estado vizinho seguia enfrentando os impactos das chuvas, com 207 municípios registrando danos como alagamentos, inundações e deslizamentos, e mais de 1 mil pessoas fora de casa.
Em Santa Catarina, as chuvas elevaram os níveis dos rios Uruguai e Chapecó, provocando alagamentos, interrupção de balsas, bloqueios em estradas e evacuações preventivas em municípios do Oeste e Extremo-Oeste de Santa Catarina. As ocorrências foram registradas em Itapiranga, Palmitos, Mondaí, São Carlos e Águas de Chapecó.
Segundo o meteorologista Caio Guerra, da Defesa Civil catarinense, embora o El Niño tenha se estabelecido no início de junho, este foi o primeiro episódio em que os efeitos ficaram evidentes.
— Foi um primeiro evento que a gente já percebeu as mudanças. E a gente sabe que, tendendo nos próximos meses, caminhando para o final do ano, essa situação pode, sim, ficar um pouco mais grave, porque os principais meses em que o El Niño influencia as chuvas aqui no Sul do Brasil se concentram na primavera. Outubro e novembro são meses de maior atenção — afirmou.
Chama a atenção, segundo o meteorologista, a antecipação dos efeitos do El Niño neste ano.
— Normalmente, a gente espera os impactos do El Niño ocorrendo ali no início da primavera. E era isso que indicava no início do ano. Em janeiro, fevereiro, a gente via um El Niño ganhando força na primavera. E conforme foi se aproximando, a gente viu que ele antecipou. E agora, já no inverno, a gente já está tendo impactos do fenômeno. Então, essa antecipação chama atenção. É uma questão que a gente está monitorando — disse.
Veja os efeitos da cheia do rio Uruguai no Oeste de SC
O que esperar para SC nos próximos meses
Para os próximos dias, a previsão indica uma trégua nas chuvas mais intensas. No entanto, os modelos meteorológicos já começam a apontar uma nova janela de instabilidade entre o fim de julho e o início de agosto.
— Tem sinais de vir outro episódio de chuva um pouco mais volumoso aqui para o Estado. (…) Principalmente ali a partir do dia 28, 29, até essa primeira semana de agosto, é uma janela em que os modelos estão começando a indicar mais chuva — explicou.
Já no horizonte climático, a maior preocupação permanece concentrada na primavera. De acordo com Guerra, setembro marca o retorno das tempestades típicas da estação, enquanto outubro e novembro aparecem como os meses mais críticos para acumulados elevados de chuva.
Quais regiões de SC são mais vulneráveis
As regiões de SC mais vulneráveis são o Vale do Itajaí e o Oeste. O primeiro sofre com o acúmulo de água na bacia hidrográfica e à consequente elevação do nível dos rios. Já no segundo, municípios cortados pelo Rio Uruguai também exigem atenção em eventos de chuva intensa.
— O Vale do Itajaí é muito suscetível a episódios de inundação, porque toda a chuva que acontece ali na bacia vai acumulando e traz uma elevação do nível dos rios. (…) Na região Oeste do Estado, a chuva trouxe uma cheia para o Rio Uruguai. Palmitos, Itapiranga e Águas de Chapecó tiveram alertas de inundação. Então, cada região tem sua especificidade. A gente precisa fazer essa avaliação considerando não só o volume de chuva previsto, mas também a vulnerabilidade de cada região — afirmou.

Como o El Niño afeta o tempo?
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o El Niño é o nome dado ao aumento na temperatura da superfície da água em um trecho do Oceano Pacífico perto do Peru, fazendo ela evaporar mais rápido. O ar quente sobe para a atmosfera, levando umidade e formando uma grande quantidade de nuvens carregadas.
Com isso, no meio do Pacífico chove mais, afetando a região Sul do Brasil, pois a circulação dos ventos em grande escala, causada pelo El Niño, também interfere em outro padrão de circulação de ventos na direção norte-sul e essa interferência age como uma barreira, impedindo que as frentes frias, que chegam pelo Hemisfério Sul, avancem pelo país. Logo, elas ficam concentradas por mais tempo na região Sul.
O contrário, o resfriamento dessas águas, é chamado de La Niña. Os efeitos do La Niña para Santa Catarina são o oposto do outro fenômeno, já que as chuvas caem em menor volume no Estado.




















