Quando Kiko Santos pousou de parapente no meio de uma corrida de trilha nos Alpes Suíços, em 1995, não imaginava que aquele momento mudaria a história das corridas em meio à natureza no Brasil. O encontro inesperado com o trail run despertou a ideia de trazer a modalidade ao país, um projeto que levaria alguns anos para sair do papel e dar origem ao Mountain Do, primeira corrida de trilha organizada no Brasil.
A prova nasceu oficialmente entre 2002 e 2003, com um percurso de 63 quilômetros ao redor da Lagoa da Conceição, em Florianópolis. Na época, praticamente não existiam eventos do gênero no país, o que fez do Mountain Do um projeto pioneiro em um mercado ainda inexistente.
— O primeiro contato que tive com o trail run foi na Suíça. Naquele momento coloquei na minha cabeça que iria trazer isso para o Brasil — relembra Kiko.
Durante anos, estudou o mercado e planejou como seria possível implantar a modalidade no país.
Não havia atletas, regulamentos, patrocinadores ou qualquer estrutura que permitisse organizar uma corrida em trilhas. Em vez de desistir, decidiu transformar a inspiração em um projeto de longo prazo.
Hoje, olhando para trás, Kiko admite:
— A maior motivação foi a paixão. Eu não fui movido pela razão naquele primeiro momento — destaca.
Três anos de prejuízo até o primeiro patrocínio

Apesar do entusiasmo, transformar a ideia em realidade exigiu persistência. Kiko conta que os três primeiros anos do Mountain Do deram prejuízo. Sem concorrentes e sem um mercado consolidado, ele precisou investir recursos próprios para manter o evento.
A situação só começou a mudar quando uma montadora de carros decidiu patrocinar a prova no terceiro ano, garantindo a continuidade do projeto.
— Eu paguei para trabalhar durante três anos. Pensei em desistir, mas o primeiro patrocínio apareceu justamente quando eu precisava decidir se seguiria em frente — afirma.
Nos primeiros anos, o público também era bastante diferente do atual. Segundo Kiko, o perfil dos participantes era formado principalmente por corredores que buscavam experiências exclusivas e diferenciadas. Mesmo com o crescimento da modalidade, ele acredita que o trail run continua atraindo um público mais seleto, principalmente pelo custo mais elevado de organização das provas em ambientes naturais.
Quando o Mountain Do virou referência

A consolidação veio alguns anos depois. Em 2008, a organização decidiu levar as provas para diferentes regiões do Brasil. Nascia ali o embrião do atual Circuito Raízes, que hoje permite aos corredores conhecer os sete biomas brasileiros por meio do esporte.
Dois anos depois começou a expansão internacional, iniciada pelo Deserto do Atacama, no Chile.
Foi nesse período que Kiko percebeu que o Mountain Do havia deixado de ser apenas uma experiência para se tornar uma marca consolidada.
— Somos corridas turístico-esportivas em lugares emblemáticos — resume.
Outro sinal veio de forma curiosa.
Durante a pandemia, quando a empresa ficou dois anos sem realizar eventos, algumas pessoas passaram a reclamar nas redes sociais que as trilhas de Florianópolis estavam sujas porque o Mountain Do não havia feito a limpeza.
A observação arrancou risadas da equipe.
— As pessoas começaram a achar que as trilhas eram do Mountain Do. Muitas nem sabiam o nome da trilha e diziam: ‘é aquela trilha onde passa o Mountain Do. A gente virou referência dentro do mundo das trilhas.
Greve dos caminhoneiros e pandemia quase encerraram o projeto
Ao longo dos 25 anos de história, dois episódios colocaram a sobrevivência da empresa em risco.
O primeiro aconteceu durante a greve dos caminhoneiros, quando uma etapa em Fernando de Noronha precisou devolver integralmente o valor das inscrições porque os atletas não conseguiram chegar à ilha devido à falta de combustível para os voos.
O segundo veio em março de 2020. Com toda a estrutura pronta para uma prova no Deserto do Atacama, no Chile, a organização recebeu ordem do Exército chileno para desmontar o evento em razão do início do lockdown provocado pela pandemia de Covid-19.
Além do prejuízo com a montagem e da devolução das inscrições de cerca de 800 atletas, veículos da empresa permaneceram retidos no Chile por mais de um ano.
— Ali eu quase quebrei a empresa — relembra Kiko.
Trail run vive novo momento

Depois de ajudar a introduzir o trail run no Brasil, Kiko acredita que a modalidade está prestes a viver sua maior fase de crescimento. Para ele, o boom registrado recentemente nas corridas de rua deve impulsionar a migração de atletas para as provas em meio à natureza nos próximos anos.
A expectativa é de que esse movimento seja intensificado entre 2027 e 2028, impulsionado também pela possibilidade de o trail run integrar o programa dos Jogos Olímpicos.
— O trail run vai crescer muito. Primeiro cresce a corrida de rua e depois esse público busca novos desafios na montanha — afirma.
Enquanto prepara a expansão internacional, o Mountain Do mantém o mesmo propósito que motivou seu fundador há três décadas: levar corredores a conhecer paisagens naturais por meio do esporte.
— Queremos oportunizar que as pessoas corram entre amigos, façam turismo esportivo e conheçam lugares únicos — diz Kiko.
*Sob supervisão de Nicoly Souza
