Laguna, terceiro município mais antigo de Santa Catarina e cidade-natal da heroína Anita Garibaldi, completa 350 anos nesta quarta-feira (29). São 350 anos — oficialmente — de história oficialmente, mas o território que hoje constitui a cidade é muito mais antigo.
A história do território começou há mais de seis mil anos, quando as primeiras comunidades pré-históricas moravam no local, os sambaquis. O povo que vivia ali era habilidoso na pesca e mergulhadores e águas profundas. Eles navegavam de canoa e chegavam a capturar golfinhos e arraias.
Séculos mais tarde, após a colonização, Laguna nasceu em uma disputa colonial. Foi no ano de 1676, em 29 de julho, que o bandeirante vicentista Domingos de Brito Peixoto chegou em Laguna. Por ser devoto ao Santo Antônio, o bandeirante batizou o lugar como Santo Antônio dos Anjos de Laguna.
A primeira providencia foi a construção de uma capelinha, construída de pau a pique, mesmo local da atual. Poucos moradores fixaram residências na localidade neste período.
Laguna foi colonizada em etapas: no século XVIII, a região costeira da Lagoa Santo Antônio dos Anjos foi desbravada pelos primeiros colonizadores, portugueses dos açores, que procuravam habitar o local em busca da pesca e do solo produtivo.
Já no século XIX, com o crescimento do porto, outras famílias portuguesas (desta vez, do continente) chegaram à cidade. Foi um período, segundo historiadores, de desenvolvimento econômico.
Oficialmente, Laguna foi reconhecida como uma freguesia, chamada de Santo Antônio dos Anjos da Laguna, em 1797. Em 1847 foi elevada à categoria de cidade, e ganhou o nome oficial de Laguna.
Fotos antigas ajudam a contar parte da história de Laguna
População negra ajudou a formar a cultura de Laguna
Além de portugueses, pessoas negras também tiveram parte fundamental na formação cultural e social de Laguna. Em trecho no site da prefeitura, historiadores afirmam que cerca de 60 pessoas escravizadas acompanhavam o bandeirante Domingos de Brito Peixoto por terra e mar.
Desde a fundação da colônia, homens e mulheres africanos e seus descendentes participaram da construção da cidade. Inicialmente, eles atuavam nos engenhos de farinha de mandioca, nas atividades portuárias, na navegação de cabotagem e em diversos serviços urbanos e rurais.
A população negra também construiu os próprios espaços de socialização e de religiosidade. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos foi responsável pela construção da Igreja do Rosário, no Morro do Rosário — importante território negro da cidade entre os séculos XVIII e início do XX. No início do século XX, no entanto, a construção foi demolida.
Após a abolição, foi criada a a Sociedade União Operária e o Clube Literário Cruz e Sousa, espaços de resistência e luta por cidadania. Júlia Chrispina do Nascimento, neta de pessoas escravizadas, filha de escravizada, nasceu no período da Lei do Ventre Livre, tornou-se a primeira professora negra da cidade e em 1903 fundou sua própria escola. O carnaval, pelas escolas de samba Brinca Quem Pode e Vila Isabel, consolidou-se como espaço de afirmação cultural e pertencimento comunitário.
O porto, a revolução e chegada de imigrantes
Em 1839, o porto de Laguna transformou a vila em um cenário revolucionária. A República Rio-Grandense, fundada pelos farroupilhas precisava chegar ao mar, mas os imperialistas controlavam os portos e rios do estado vizinho.
Com apoio do italiano Giuseppe Garibaldi, os republicanos montaram uma manobra para surpreender as forças imperialistas: entraram pela Lagoa Garopaba do Sul, pela barra do Camacho e seguiram pelo rio Tubarão.
Em 29 de julho de 1839, a Câmara de Vereadores de Laguna, presidida então por Vicente Francisco de Oliveira, proclamou a independência, o que deu origem à República Catarinense — também chamada República Juliana. Em 4 de novembro, uma batalha naval em Imbituba entre farroupilhas e imperialistas — Anita, já apaixonada por Giuseppe, participou da batalha.
Em 9 de novembro, pressionado por Canabarro, Garibaldi atacou a cidade vizinha de Imaruí, episódio conhecido como o Saque de Imaruí, no qual alimentos e objetos pessoais foram levados pelos soldados que passavam fome e frio. Em 15 de novembro, uma batalha naval na Barra de Laguna resultou na derrota dos republicanos, que deixaram a vila.
O porto de Laguna também foi porta de entrada para imigrantes europeus, especialmente italianos e alemães, que ficavam nos trapiches à beira da praia aguardando embarcações e depois seguiam para o interior pelo rio, e depois pela Estrada de Ferro Dona Teresa Cristina, aberta ao tráfego em 1884.
Com o desenvolvimento das colônias de Azambuja, Urussanga, Grão-Pará, Princesa Isabel e Braço do Norte, os produtos por elas produzidos eram trazidos ao litoral de trem e escoados pelo porto de Laguna.
Essa produção e a exploração de carvão fizeram com que, na segunda metade do século XIX, Laguna assumisse a 4ª posição em Santa Catarina referente à movimentação portuária. Foi a época de ouro de Laguna, quando o enriquecimento da população fez com que várias construções icônicas fossem erguidas.
Esses novos elementos marcaram a nova arquitetura e estão presentes até hoje no Centro Histórico.
A chegada do século XX trouxe também diversos avanços: a cidade cresceu, novos estabelecimentos chegaram, como o hotel, o hospital e o Mercado Público, e o município ganhou o primeiro jornal. Mas a transferência do porto para o bairro Mar Grosso fez com que o movimento na Rua da Praia (atual Gustavo Richard) diminuisse.
Com a organização do porto de Imbituba, Laguna perdeu competitividade. No final da década de 1950, Laguna entrou em declínio econômico, e na década de 1960, a construção civil praticamente paralisou.
Na época, ficaram na cidade a produção pesqueira, pequenas indústrias de confecções e o processamento de fécula de mandioca e arroz.
Na década de 1970, porém, a BR-101 (que na implantação mudou o tráfego e afetou a economia lagunense) trouxe uma nova possibilidade, de exploração turística no Balneário do Mar Grosso. O crescimento do número de turistas estimulou o desenvolvimento imobiliário — primeiro na praia, depois no Centro Histórico.
Parte do centro histórico foi tombada pelo Iphan em 1985.
As cidades mais antigas de SC
- São Francisco do Sul (Nossa Senhora da Graça do Rio São Francisco do Sul) – fundado em 12/03/1658
- Florianópolis (Nossa Senhora do Desterro) – fundado em 17/02/1673
- Laguna (Santo Antônio dos Anjos da Laguna) – fundado em 29/07/1676
- Lages (Nossa Senhora dos Prazeres dos Campos de Lajes) – fundado em 22/11/1766
- Porto Belo – fundado em 01/09/1825
- Biguaçu (São Miguel) – fundado em 01/03/1833
- São José – fundado em 01/03/1833
- Joinville (Colônia Dona Francisca) – fundado em 09/03/1851
- Tijucas (São Sebastião do Tijucas) – fundado em 04/10/1858
- Itajaí (Itajahy) – fundado em 15/06/1860












