O Guia Michelin, conhecido mundialmente há mais de 120 anos (iniciou em 1926) por influenciar os rumos da gastronomia, também entrou no páreo dos concursos mundiais de vinhos. Estreando oficialmente em 2026, o Guia Michelin Grape Selection avalia produtores e propriedades por meio de uma, duas ou três uvas, da mesma forma que utiliza as estrelas na área da gastronomia.
A premiação avalia a excelência do terroir, a consistência da marca e o talento humano na vitivinicultura, em uma primeira edição que premiou 95 vinícolas da Borgonha. Este lançamento só reforça a aproximação de dois universos que estão em crescente crescimento, gastronomia e enoturismo, que cada vez mais valorizam e compartilham a origem, a técnica e qualidade e experiência. Ao incluir as vinícolas, o Guia amplia sua influência sobre um setor de forte valorização internacional, com os consumidores cada vez mais interessados em saber quem está por trás das garrafas e seus rótulos.
Como funciona o Guia Michelin dos vinhos
- Três Uvas: Produtores de nível excepcional e de confiança total na marca, independente da safra.
- Duas uvas: Produtores excelentes com forte destaque regional e grande consistência.
- Uma uva: Produtores de destaque que criam vinhos cheios de caráter e estilo próprio.
- Selecionados: Produtores recomendados e acompanhados regularmente pelos inspetores. Os critérios utilizados para a avaliação são:
- Qualidade agronômica: Saúde e vitalidade dos solos e das vinhas.
- Domínio Técnico: Precisão e rigor no processo de vinificação.
- Identidade: Expressão autêntica do terroir e da personalidade do produtor.
- Equilíbrio: Harmonia entre acidez, taninos, álcool e estrutura do vinho.
- Consistência: Manutenção da qualidade ao longo de várias safras.
A estreia oficial do guia que aconteceu no histórico Palácio dos Duques da Borgonha — atualmente sede da Prefeitura de Dijon, cuja região francesa é referência para apreciadores de vinhos do mundo todo e onde nasceu o conceito moderno de terroir, que foi sendo refinado ao longo dos séculos.
Como tudo que mexe com o mercado milionário dos vinhos, o Guia já iniciou sua trajetória sendo alvo de críticas, e gerando resistência por parte de alguns produtores franceses, pois alegam que focou em uma região famosa e central no mundo dos vinhos, Borgonha na França, abrangendo especificamente três importantes sub-regiões locais: Côtes de Nuits, Côte de Beaune en Côte Chalonnaise.
Produtores e especialistas alegam que, o fato da seleção inicial concentrar-se em produtores já amplamente consagrados, o guia premiou a reputação já existente ao invés de revelar novas descobertas e novidades.
Além disso, os critérios para distinguir uma, duas ou três Uvas foram considerados pouco transparentes, gerando dúvidas sobre porque produtores de prestígio semelhante receberam classificações diferentes. Também houve observações que esta primeira edição privilegiou produtores de altíssimo prestígio e preços muito elevados, oferecendo pouca orientação para consumidores que procuram vinhos mais acessíveis.
O próximo destino do Guia será Bordeaux, que ao longo dos séculos se consolidou como uma das regiões mais respeitadas no mundo do vinho, ultrapassando fronteiras, tanto pela tradição que valoriza e preserva, como pela capacidade de inovar.
Penso que o lançamento do Guia Michelin reacendeu uma velha discussão. O vinho talvez seja o único produto cultural em que a excelência não pode ser medida apenas pelo resultado de uma prova ou concurso. Para mim, a Michelin tenta avaliar um outro aspecto não menos importante que a qualidade dos vinhos, mas o domínio vinícola como um todo: qualidade e manejo da terra, consistência, identidade, capacidade de envelhecimento de seus vinhos, regularidade nos resultados, enfim a vinícola como um todo.
Não podemos deixar de considerar que os concursos, incluindo os grandes e respeitados como Decanter, International Wine Challenge, Concours Mondial de Bruxelles e tantos outros definitivamente não recebem os melhores vinhos do mundo. Mas os vinhos que seus produtores decidem escrever; e só este fato já faz uma enorme diferença.
Porém, toda medalha merece respeito, e certamente houveram méritos para ser recebida, mas não encerra a análise. Os concursos são importantes pois revelam vinícolas jovens, talentos são valorizados, confirmam qualidades, constroem marcas e movimentam mercados, mas não proclamam verdades absolutas.
No vinho, como na literatura ou na música, a verdadeira consagração é silenciosa: quando um produtor já não precisa mais disputar concursos para continuar sendo desejado. Talvez o maior prêmio de um grande vinho seja justamente ser procurado antes de ser julgado, porque medalhas premiam ótimos rótulos, mas somente o tempo consagra grandes produtores e suas criações.
SAÚDE!
Néa Silveira
@neasommeliere
