A segurança pública aparece entre as cinco maiores preocupações dos catarinenses na quinta edição do projeto SC Ainda Melhor . De acordo com o relatório divulgado pelo Anuário de Segurança Pública, mostra que Santa Catarina registrou a menor taxa de mortes violentas entre os estados brasileiros, em 2025. Entretanto, o estado tem o maior número de casos de violência contra as mulheres.
Os dados afirmam que foram 1.733 registros de crimes para cada 100 mil habitantes. A média nacional de crime de gênero é de 720 para cada 100 mil.
A procuradora-geral de Justiça do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), Vanessa Wendhausen Cavallazzi comentou sobre o número de casos:
“Pensando agora num futuro primeiro, em relação à proteção e atendimento dessa mulher em casos de violência, não se faz política pública. Não se pode fazer política pública sem conhecer o fenômeno” disse.
Vanessa Wendhausen Cavallazzi ainda explicou que existe um perfil padrão nos casos de violência de gênero. Normalmente são mulheres de baixa renda e homens já com algum histórico criminal.
“Nós descobrimos que essa mulher tem um perfil predominante. Ela é uma mulher de baixa renda. Ela não completou em sua grande maioria, o ciclo do ensino básico. Ela não tem vínculo formal e de emprego. Ela ganha entre um e dois salários mínimos. E o homem tem exatamente o mesmo perfil. Ele também é aquele que mata normalmente. Ele tem um histórico criminal atrás de si” afirmou.
Em março, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou que o lugar mais perigoso para as mulheres é a própria casa. A moradia própria é onde acontecem 66% das mortes.
De acordo com Tatiane Bertoni, vice-coordenadora Grupo Mulheres da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATEA), a violência contra a mulher vai além das agressões físicas:
“Está no psicológico, está no financeiro. Ela está em vários aspectos da vida dessa mulher. Então, essa parte do entendimento desses dados, dessa propensão, desse nesse momento, talvez que ela esteja muito vulnerável, você saber que há possibilidade, a probabilidade grande de lá no futuro ocorrer alguma ação, você já mitiga e já evita que isso aconteça” comentou.
Mulheres precisa ter a chance de se defender deste tipo de violência
Em agosto de 2026, a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Essa lei é importante para a história de luta feminina, pois deu origem a uma série de mecanismos para combater a violência contra as mulheres no Brasil.
A partir da Lei n°11.340, foram criadas medidas protetivas, patrulhas, delegacias especializadas e um botão de pânico, que têm ajudado a salvar vidas no Brasil. Entretanto, em Santa Catarina os serviços nem sempre funcionam.
A vice-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Santa Catarina (OAB/SC), Gisele Kravchychyn, explica que as Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (DPCAMI) de Santa Catarina não estão preparadas para organizar todos os casos recebidos:
“Infelizmente, no nosso estado, as delegacias DPCAMI não são 24 horas. Elas trabalham geralmente em horário comercial e a gente sabe que os maiores índices de problemas, os acontecimentos, costumam ser à noite ou finais de semana. Então essa mulher acaba tendo que se dirigir a uma delegacia normal, ainda que tenha uma sala lilás ou de que tenha algum tipo de atendimento diferenciado ” disse Gisele, que ainda completa seu discurso falando da importância de espaços reservados à defesa feminina.
A Tatiane Bertoni, vice-coordenadora Grupo Mulheres da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATEA), comentou ainda sobre qual deveria ser o posicionamento dos políticos frente ao grande número de casos:
“Porque eu não tenho segurança financeira, eu não tenho um apoio familiar. Então é muito importante também o governo seguir com essa questão de onde eu poderia alocar essa mulher, aonde ela poderia exercer um trabalho, uma entrega que possa gerar valor para ela e muitas vezes dentro de processos até do próprio governo” disse.
O que fazer diante de tantos casos?
As entidades escutadas durante as pesquisas do SC Ainda Melhor, apontaram alguns aspectos da segurança pública:
- Ampliar e manter de maneira contínua as campanhas de conscientização e prevenção à violência doméstica.
- Incremento na estruturação da rede de apoio à mulher vítima de violência, com ampliação de casas de acolhimento e delegacias da mulher com atendimento 24 horas.
- Programa permanente de formação de gerações futuras nas escolas para prevenção contra a violência.
- Qualificação profissional e a inserção no mercado de trabalho de mulheres em situação de violência, por meio de parcerias entre instituições de ensino, setor público e iniciativa privada, com o objetivo de reduzir a dependência econômica das vítimas.
- Manutenção das câmeras nos uniformes dos policiais militares. Além de protegerem os policiais, ajudam na comprovação de crimes.
- Investimento em tecnologia em todas as pontas da estrutura de segurança, desde o policiamento ostensivo até a resolução de crimes e o combate às facções.
- Fortalecimento da presença do Estado em territórios vulneráveis por meio de serviços públicos. Foco em prevenção, educação, cultura, esporte e geração de oportunidades.
Segundo a série apresentada no NSC Notícias “Até quando? Feminicídios, uma tragédia social”, 2022 foi o ano mais trágico para Santa Catarina com 74 mortes por feminicídio. Nos dois últimos 2 anos, a média foi de um feminicídio por semana no estado. Em 2026 pelo menos 28 mortes já foram registradas.
Violência contra à mulher pode ser combatida. Ligue 180 para a Central de Atendimento à Mulher.
*Sob Supervição de Nicoly Souza
