Um mapeamento aéreo encontrou 396 estruturas arqueológicas até então desconhecidas sob a vegetação da Amazônia. Os vestígios pertencem a uma sociedade que pode ter reunido até 3 milhões de pessoas.
A civilização Aquiry teria ocupado cerca de 183 mil quilômetros quadrados, principalmente no Acre e em áreas próximas. A população chegou ao auge entre os anos 100 e 300, segundo as novas estimativas.
Como funciona o sistema que achou o local?
O achado amplia o retrato das civilizações pré-colombianas da América do Sul.
Laser atravessou a copa e revelou 396 estruturas
Os arqueólogos usaram o LIDAR, tecnologia que lança pulsos de laser a partir de aviões. Parte dos feixes atravessa as frestas entre as folhas, alcança o solo e permite criar um mapa tridimensional do relevo.
O estudo, publicado na revista científica Nature, analisou aproximadamente 4.497 quilômetros quadrados da Amazônia sudoeste. A área inclui trechos próximos a Rio Branco, Lábrea, Boca do Acre e Carauari.
O equipamento identificou 432 obras de terra, das quais somente 36 já estavam documentadas. As outras 396 permaneciam escondidas sob a copa das árvores ou não haviam sido reconhecidas em levantamentos anteriores.

Os principais números da descoberta são:
- 396 geoglifos inéditos foram identificados;
- a região pode guardar entre 24 mil e 30 mil estruturas;
- a população estimada varia de 1,25 milhão a 3 milhões.
Os pesquisadores percorreram faixas longas e estreitas da floresta, separadas por intervalos regulares. A amostragem permitiu calcular quantas estruturas podem existir nos trechos que ainda não foram escaneados.
Não era um império escondido na floresta
O nome Aquiry não corresponde necessariamente à forma como esses povos se identificavam. A palavra deriva de um antigo nome indígena atribuído ao rio Acre e foi adotada pelos pesquisadores para definir o conjunto cultural estudado.
Também não existia, necessariamente, um único reino controlando toda a região. As evidências apontam para uma rede multicultural de comunidades, conectada por tradições, cerimônias, estradas e formas semelhantes de organizar a paisagem.

Essa ocupação teria começado por volta de 600 a.C. e continuado até aproximadamente o ano 850. No auge, entre os séculos 1º e 3º, a densidade dos assentamentos teria sustentado milhões de moradores.
“Essa velha ideia de uma Amazônia intocada desmorona”, afirmou o geógrafo brasileiro Alceu Ranzi, coautor do trabalho, à revista Science.
Geoglifos eram centros de encontro
As estruturas conhecidas como geoglifos são grandes desenhos formados por fossos, aterros e caminhos. Elas assumem formatos circulares, quadrados, octogonais ou combinações geométricas mais complexas.
A maior estrutura conhecida ocupa quase 50 hectares, área equivalente a dezenas de campos de futebol. Alguns fossos chegam a cerca de cinco metros de profundidade, apesar de terem sido escavados sem máquinas modernas.

Os geoglifos provavelmente não eram bairros cheios de moradias. A quantidade reduzida de resíduos domésticos indica que muitos funcionavam como centros políticos, religiosos ou comunitários, visitados em momentos específicos.
Talvez análogos às ágoras helênicas, esses espaços pudessem ter servido como espaços cerimoniais, políticos, esportivos ou de trocas. Estradas retas conectavam algumas estruturas a aldeias menores e áreas produtivas.
Os moradores provavelmente viviam em construções coletivas feitas com madeira, palha e outros materiais orgânicos. Como esses elementos se decompõem, restaram poucos vestígios visíveis quando comparados a templos de pedra.
Estudo anterior já previa milhares de sítios
Uma pesquisa publicada em 2023 na revista Science já havia estimado que entre 10 mil e 24 mil obras pré-coloniais poderiam permanecer escondidas na Amazônia.
O trabalho liderado pelo pesquisador Vinicius Peripato combinou levantamentos LIDAR com um modelo estatístico. A equipe também encontrou uma associação entre os sítios arqueológicos e 53 espécies de árvores domesticadas.

O novo levantamento encontrou uma concentração maior do que a prevista anteriormente. Somente o território relacionado aos Aquiry, que corresponde a menos de 3% da Grande Amazônia, pode reunir até 30 mil estruturas.
As estimativas não são diretamente equivalentes. O estudo de 2023 analisou padrões em toda a bacia amazônica, enquanto o trabalho mais recente realizou voos sistemáticos sobre uma região com grande concentração de geoglifos.
O desaparecimento dos Aquiry segue sem resposta
Os centros cerimoniais parecem ter sido abandonados entre os anos 850 e 950. A vegetação voltou a ocupar fossos, aterros e estradas, escondendo gradualmente as formas geométricas.
Ainda não há explicação confirmada para o declínio. Segundo os pesquisadores, mudanças climáticas, transformações políticas, conflitos ou deslocamentos populacionais podem ter contribuído, mas faltam evidências para apontar uma causa específica.






