Um tecido observado por gerações por motivos religiosos e científicos passou a contar outra história, desta vez microscópica. Uma nova análise de DNA encontrou no Sudário de Turim vestígios de pessoas, animais e plantas acumulados ao longo de séculos.
Artigos religiosos como esse guardam uma oportunidade única, ao passar tanto tempo sendo transferidos de lugar em lugar, eles guardam parte da história incrustada neles. Apesar de o resultado da análise não confirmar a identidade do Sudário, ele revela muito sobre o passado.
Arquivo nas fibras
O estudo, publicado na revista Scientific Reports, analisou amostras oficiais retiradas do Sudário em 1978. Segundo os pesquisadores, foi a primeira vez que esse material passou por um sequenciamento metagenômico de nova geração.
A análise identificou diferentes linhagens de DNA mitocondrial humano, sinal de que o tecido entrou em contato com várias pessoas. As principais foram K1a1b1a, H1b, H33 e H2a2, embora nem todas permitam determinar uma origem geográfica com segurança.
A linhagem K1a1b1a, ligada principalmente a judeus asquenazes e também encontrada entre sefarditas, predominou em três amostras. No entanto, ela correspondia ao DNA de Pierluigi Baima Bollone, que coletou o material do Sudário em 1978.
Outras variantes sobreviveram a essa contaminação dominante. A linhagem H1b é encontrada sobretudo na Europa e Ásia Central. Já a rara H33 aparece em populações do Oriente Próximo, especialmente entre os drusos do Levante.

Um estudo anterior, feito com outras partículas do Sudário, havia apontado DNA mitocondrial de pelo menos 14 pessoas. Naquele levantamento, 55,6% das sequências foram ligadas a linhagens do Oriente Próximo, 38,7% a linhagens indianas e menos de 5,6% à Europa Ocidental.
A pesquisa mais recente, porém, não confirmou com segurança as linhagens sul-asiáticas M39, M56, R7 e R8 encontradas anteriormente. Os autores conseguiram recuperar variantes isoladas, mas não mitogenomas completos que sustentassem essa classificação.
O contato humano também apareceu no microbioma. Entre as bactérias estavam Cutibacterium acnes, Staphylococcus epidermidis, Staphylococcus hominis, Staphylococcus capitis e espécies de Corynebacterium.
São microrganismos comuns na pele, assim como o fungo Malassezia restricta, encontrado em todas as amostras. A concentração foi maior em áreas periféricas e na região correspondente às mãos, pontos mais sujeitos ao toque e à manipulação.
Coral-vermelho mediterrâneo
O achado animal mais abundante e impressionante não veio de um mamífero, mas do coral-vermelho Corallium rubrum. A espécie respondeu por 33,3% dos fragmentos animais classificados e vive naturalmente no Mar Mediterrâneo.
Embora pareça uma planta ou uma rocha, o coral é um animal marinho. Desde o Império Romano, seu esqueleto vermelho foi transformado em joias, contas, amuletos, talismãs, objetos decorativos e ingredientes de antigos preparados medicinais.

O DNA pode ter chegado ao Sudário pelo contato com adornos, relicários, tecidos, recipientes ou pessoas que manipulavam objetos feitos desse material.
Plantas e animais de várias épocas
A maior assinatura vegetal veio da cenoura, responsável por 30,9% dos fragmentos vegetais classificados. A maior parte estava concentrada em uma única amostra e se aproximava geneticamente de variedades cultivadas na Europa Ocidental.
O trigo comum foi a segunda planta mais abundante, com 11,6% dos fragmentos classificados. Também apareceram trigo-duro, trigo-einkorn, centeio, milho, amendoim, tomate, pimentão, batata, melão ou pepino.
Quanto aos animais entre os fragmentos classificados, os cães representaram 22,1% e os gatos, 21,7%. As galinhas responderam por 9,5%, enquanto bovinos, cabras e ovelhas, reunidos na família Bovidae, somaram aproximadamente 2,6%.

Limite da descoberta
O próprio histórico de contato impõe a principal barreira à investigação. Como o tecido foi tocado e exposto a ambientes diferentes durante séculos, os pesquisadores afirmam que não é possível separar um eventual DNA original de todo o material incorporado depois.
Por isso, a pesquisa não pretende confirmar a idade do Sudário nem determinar se ele é autêntico. Seu valor está em revelar condições de preservação, exposições ambientais e etapas de uma trajetória cultural registrada nas fibras.
“O Sudário representa um rico arquivo de informação genética acumulada durante séculos de interação humana e exposição ambiental”, afirmou Noemi Procopio, professora de ciência forense da Universidade de Lancashire e integrante do projeto em comunicado.
Segundo ela, as evidências genéticas não respondem a todas as perguntas sobre a peça, mas oferecem uma nova visão de sua história biológica e mostram o que tecnologias forenses recentes conseguem extrair de objetos antigos.








