Se antes a plantação de café servia apenas para garantir o próprio consumo da família Tambosi, agora os grãos se tornaram um negócio que tem atravessado gerações. Lá atrás, era o avô de Gabriel, o “nono” Leopoldo, quem plantava e colhia os grãos para torrá-los e moê-los no interior de Rodeio, uma pequena cidade do Vale do Itajaí.
Em um passado recente, o neto identificou uma oportunidade e transformou a propriedade não só em atrativo turístico, com visitação guiada, mas no berço do primeiro café especial plantado e produzido em Santa Catarina.
O nome, Café Leopoldo, é uma referência ao homem que deu origem a toda a história. Leopoldo Tambosi viveu na área rural de Rodeio e, após servir na Segunda Guerra Mundial, voltou e formou família. Criou os 11 filhos com os alimentos que plantava no terreno de 33 hectares, como tantos outros moradores da região. Porém, era do cafezal que mais gostava. Depois de aposentado, mesmo com a idade avançada, fazia questão de ajudar Nelson Tambosi, o filho que acabou herdando o sítio, nos momentos de colheita.
“Ele tinha mais de 80 anos, vinha de bicicleta até o pé do morro, subia caminhando e passava o dia todo colhendo café. Ele amava”, lembra Nelson.
Uma vida em torno do cafezal
Assim como o pai, Nelson constituiu família e, junto com Isolde Tambosi, teve dois filhos, que também foram criados com o suor do trabalho no campo. Ele conta que até hoje não sabe o valor de um pacote de café no mercado, já que, seguindo os passos do patriarca, sempre produziu a própria bebida. A plantação, no entanto, nunca foi o único meio de subsistência, exceto por vendas pontuais para pessoas próximas.
O tempo passou, Gabriel, um dos dois filhos de Nelson, passou a trabalhar em uma empresa na região até que em 2017 decidiu seguir os passos do pai e do avô, mas de um jeito moderno. Apreciador da bebida, estudou junto com a esposa, Thaís Tambosi, formas de ampliar a produção e torná-la, literalmente, especial.
Da safra de 2022 veio o primeiro certificado de café especial — em uma escala de 0 a 100, é preciso pontuar a partir de 80 para conquistar o título, que é renovado anualmente, sempre passando pela avaliação de um profissional qualificado, o Q-Grader.
Veja fotos do local
Passado, presente e futuro
A repaginada na plantação divide espaço com a tradição. Nelson segue à frente da colheita, agora com a ajuda dos olhos empreendedores do filho e da nora, e mão de obra extra em períodos estratégicos. Os grãos são retirados um a um, conforme vão amadurecendo, e passam por um processo cuidadoso para que se extraia o melhor resultado.
Da secagem suspensa sem casca por dois meses ao sistema agroflorestal, a mesma terra que ainda abriga um cafeeiro de mais de cem anos, plantado pelo pai de Leopoldo, é a que permite o crescimento de 3 mil pés — desses, atualmente 2 mil dão frutos e a intenção é aumentar a quantidade com mudas trazidas de Minas Gerais e São Paulo.

Plantação e turismo de experiência
No meio dos vales, o cafezal amadurece sem grandes interferências. As plantas gostam de umidade, por isso dividem espaço com bananeiras e outras árvores para que haja uma barreira natural contra o sol e as geadas de inverno. Isso também contribui para que elas amadureçam mais devagar, o que intensifica a doçura dos grãos.
Na fazenda do Café Leopoldo, o cafeeiro-arábica tem quatro variedades. A produção é tão artesanal e interessante que logo depois do certificado ser conquistado, Gabriel e Thaís tiveram outra ideia: a de mostrar para as pessoas como tudo é feito.
Assim, há dois anos visitas guiadas são agendadas e os grupos têm a oportunidade do contato com o campo, de colher café no pé e consumir ao final do percurso delícias caseiras, doces e salgadas, feitas por Isolde.
A experiência proporcionada já é sucesso. Desde julho de 2024, quando a proposta saiu do papel, o número de visitantes saltou de 170 naquele ano para 4 mil em 2026, até o momento.
“Quantas vezes eu já disse: ‘Imagina se o pai estivesse aqui para ver isso’. As pessoas visitando a plantação, o Gabriel dando continuidade ao trabalho que ele começou, com uma qualidade diferenciada…”, reflete Nelson.
Produção em pequena quantidade
Para se ter uma noção, 10 quilos de fruta dá cerca de 1,5 quilo de café torrado pronto para consumo. Gabriel diz que um estudo será feito para que eles descubram quanto cada árvore produz por ano, em média. Porém, a produção é pequena perto de outras fazendas brasileiras. Por isso, apesar do e-commerce com vendas para todo o país, praticamente todos os pacotes do café especial são vendidos para os visitantes que fazem turismo de experiência no local e também em empórios de Rodeio.
Como visitar a fazenda do Café Leopoldo, em Rodeio
Para caminhar entre as árvores, sentir os aromas e sabores do café, além de participar da colheita, o visitante precisa agendar um horário pelo número (47) 9 92343868 (WhatsApp) e pagar R$ 85. O valor possibilita acompanhar todas as etapas da produção — do plantio à torra artesanal —, a degustação guiada e o café colonial.
Além de conhecer os processos, a pessoa desacelera no ritmo da vida no campo, aprende sobre sustentabilidade, observa a fauna e flora e aprende sobre o cultivo agroflorestal.
A fazenda fica na Rua Maximiliano Venturi. Para chegar, siga pelo Centro de Rodeio, na SC-110, até passar pelo supermercado Cooper. Depois da loja Móveis Decorações Rodeio, entre à direita em direção ao bairro Diamantina. Depois, pegue a primeira entrada à direita, indicada pela placa Café Leopoldo.








