Ferro líquido do núcleo da Terra inverteu de sentido sob o Pacífico e a causa é um mistério

Estudo da Universidade de Edimburgo com dados de satélite mostra que uma corrente de ferro líquido sob o Pacífico virou para leste por volta de 2010, e os cientistas ainda não sabem por quê

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A inversão ocorreu no núcleo externo, sob o Pacífico equatorial (Foto: Nathanaël Schaeffer / Wikimedia Commons)

Corrente de ferro líquido no núcleo externo da Terra inverteu de sentido sob o Pacífico em 2010. Veja o que o estudo mostra e por que a causa é um mistério.

Há quase 3 mil quilômetros de rocha entre a superfície e o núcleo externo da Terra, mas pequenas alterações no campo magnético permitem acompanhar o que acontece lá embaixo. Foi assim que cientistas identificaram uma mudança inesperada: parte do ferro líquido sob o Pacífico passou a correr ao contrário.

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A mudança ocorreu por volta de 2010, quando uma ampla região sob o Pacífico equatorial deixou um movimento relativamente fraco para oeste e passou a apresentar um fluxo intenso para leste. O motivo da virada continua sem explicação.

A virada de 2010

O resultado aparece em um estudo publicado em 2026 por Frederik Dahl Madsen, Isobel Howard, William J. Brown e Kathryn Whaler. A equipe reuniu observações de 1997 a 2025, combinando medições feitas em solo com dados de missões espaciais.

Os pesquisadores transformaram as variações observadas no campo geomagnético em modelos do fluxo. Depois aplicaram uma análise que separa os padrões dominantes daqueles responsáveis por parcelas menores das mudanças observadas.

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O resultado ajuda a colocar a descoberta em perspectiva. Cerca de 95% da variância do fluxo pôde ser descrita por dois padrões relativamente constantes, um grande giro planetário e um jato de altas latitudes.

O que essa mudança altera no mundo?

Por enquanto, a inversão observada sob o Pacífico não produz uma mudança perceptível no cotidiano. Ela não significa que os polos magnéticos estejam se invertendo nem indica uma alteração repentina na proteção oferecida pelo campo magnético da Terra.

O fenômeno ocorre no núcleo externo e faz parte das variações internas que, ao longo do tempo, modificam lentamente o campo observado na superfície. A importância está principalmente em entender melhor o geodínamo terrestre.

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Quanto mais precisos forem os modelos desse fluxo profundo, melhor os cientistas conseguem explicar por que o campo ganha ou perde intensidade em determinadas regiões e como essas mudanças evoluem ao longo das décadas.

Essas informações também ajudam a aperfeiçoar os modelos do campo magnético usados em sistemas de navegação, operações de satélites e pesquisas sobre clima espacial.

Como enxergar o núcleo

Nenhum satélite consegue observar diretamente o ferro líquido. O núcleo terrestre começa a cerca de 2.900 quilômetros da superfície, enquanto sua camada externa líquida tem aproximadamente 2.200 a 2.300 quilômetros de espessura.

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Os cientistas precisam reconstruir seu comportamento a partir dos sinais que chegam até nós. Entram aí missões como Ørsted, CHAMP e Swarm e CryoSat, cujos dados fizeram parte da análise.

Os três satélites Swarm, lançados pela Agência Espacial Europeia em 2013, possuem instrumentos capazes de medir o campo magnético com alta precisão e separar sinais provenientes de diferentes regiões do planeta e do espaço próximo.

O modelo indica ainda uma segunda mudança: depois de se intensificar, o movimento para leste começou a enfraquecer após 2020. Portanto, ainda não está claro se a inversão representa um novo estado duradouro ou apenas uma oscilação.

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Uma ligação mais profunda

Há uma pista que os autores consideram especialmente interessante. A intensificação do fluxo para leste aconteceu aproximadamente na mesma época em que estudos de geodesia e sismologia apontaram mudanças no comportamento do núcleo interno.

Por enquanto, porém, trata-se de uma hipótese, não de uma causa demonstrada. Os próprios pesquisadores deixam abertas diferentes possibilidades: a corrente pode ter sofrido uma flutuação temporária, estar passando por uma oscilação recorrente ainda desconhecida ou ter encontrado um novo equilíbrio.

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