O final de A Última Casa, filme da Netflix protagonizado por Wagner Moura, deixa algumas perguntas em aberto sobre as criaturas que mantêm uma família presa dentro de casa.
Longe de serem simples monstros ou invasores extraterrestres, as entidades fazem parte da principal alegoria construída pela produção.
Dirigido por Louis Leterrier, de Lupin, e escrito por Matthew Robinson, de Amor e Monstros, o longa acompanha uma família de quatro pessoas que fica confinada dentro da própria casa sem conseguir escapar.
Enquanto os personagens tentam sobreviver à falta de recursos, precisam lidar com criaturas misteriosas que aparecem do lado de fora.
Conheça o elenco de A Última Casa, filme de Wagner Moura
O que são as criaturas?
As criaturas são apresentadas como antigos habitantes dos oceanos, que existiam na Terra muito antes da humanidade. O filme utiliza a presença delas para criar uma inversão de perspectiva: os seres humanos acreditam ser os donos do planeta, mas descobrem que podem ser apenas os intrusos em um mundo que já existia antes deles.
A escolha do oceano também é importante para a simbologia da história. As criaturas surgem das profundezas e representam uma força natural que os personagens não conseguem compreender ou controlar.
Em diferentes momentos, elas podem ser associadas a figuras mitológicas como o Leviatã, criatura gigantesca mencionada na Bíblia, ou ao imaginário de H.P. Lovecraft, marcado por entidades ancestrais e forças que ultrapassam a compreensão humana.
Uma espécie de “anticorpo” do planeta
Uma das principais interpretações para as criaturas é a de que elas funcionam como uma espécie de mecanismo de defesa da própria Terra. A humanidade passou a explorar os recursos naturais, poluir os oceanos e consumir o planeta de maneira desenfreada.
Nesse sentido, o surgimento das criaturas representa uma reação da natureza. Elas não precisam necessariamente ser compreendidas como vilãs, mas como uma força que retorna para recuperar um território que sempre pertenceu a elas.
É justamente essa inversão que sustenta a mensagem ecológica do filme: para as criaturas, talvez os humanos sejam os verdadeiros invasores.
O significado do final de A Última Casa
A conclusão reforça essa ideia ao mostrar que a sobrevivência não depende apenas de derrotar ou destruir aquilo que parece ameaçador. A família precisa abandonar a tentativa de controlar completamente a situação e encontrar uma maneira de coexistir com as criaturas.
O desfecho pode ser interpretado a partir da ideia de pacto social, conceito associado ao filósofo Thomas Hobbes. Em vez de cada indivíduo agir exclusivamente de acordo com seus próprios interesses, é necessário abrir mão de parte da liberdade e dos preconceitos para estabelecer uma relação de convivência.
No filme, essa lógica ultrapassa as relações entre os próprios seres humanos e chega às criaturas. A libertação da família representa, portanto, uma mudança de comportamento: eles deixam de enxergar os seres como algo que precisa necessariamente ser destruído e passam a reconhecer que existe uma ordem natural que não pode ser totalmente controlada.
O filme também fala sobre isolamento
Além da questão ambiental, A Última Casa pode ser interpretado como uma alegoria do isolamento social vivido durante a pandemia de Covid-19. A família confinada dentro de casa, sem contato normal com o mundo exterior, reproduz sentimentos de medo, ansiedade, impotência e dependência de outras pessoas.
No começo, os personagens precisam aprender a se comunicar e confiar uns nos outros para sobreviver. Aos poucos, percebem que o isolamento não é apenas físico: também existem barreiras emocionais e preconceitos que precisam ser superados.
Assim, as criaturas funcionam em diferentes níveis dentro da história. São ameaças concretas para os personagens, mas também representam a natureza, o desconhecido e aquilo que a humanidade tenta controlar sem conseguir compreender completamente.
No fim, A Última Casa propõe justamente uma mudança de perspectiva: talvez a pergunta não seja como derrotar as criaturas, mas como os humanos podem aprender a viver em um planeta que nunca foi exclusivamente deles.
*A análise do filme foi feita por Giovanna Pagano e Francesco Casagrande, do Omelete
**Sob supervisão de Pablo Brito





