O acidente com avião da Voepass que matou as 62 pessoas completa dois anos neste domingo (9). O acidente aconteceu em Vinhedo, no interior de São Paulo. Segundo o Fantástico, um ex-funcionário da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) já alertava sobre problemas envolvendo a empresa antes do desastre.
Na época, todas pessoas a bordo do avião 2283 da companhia morreram. Na última quinta-feira (6), a Polícia Federal encerrou a investigação das causas do acidente e indiciou 16 pessoas, entre pilotos, funcionários de terra, gerentes, diretores e o presidente da Voepass.
“A Polícia Federal durante esses dois anos se debruçou na análise, nas provas, nas perícias, nos laudos, nos testemunhos, com o objetivo de entender a dinâmica dos fatos. E, ao mesmo tempo, responsabilizar todos que atuaram para que esse acidente ocorresse” disse o delegado Rodrigo Sanfurgo, superintendente da Polícia Federal em São Paulo.
Os indiciados podem responder por atentado contra a segurança do transporte aéreo e falsidade ideológica. Segundo o delegado da Polícia Federal André Ribeiro, a investigação também revelou problemas estruturais na empresa: “A investigação deixa bem claro que há uma cultura de omissões, uma gestão pautada com pressões para não reportar, priorizando o operacional em detrimento da segurança”
Na época, o voo 2283, que partiu de Cascavel com destino ao Aeroporto de Guarulhos, enfrentou uma frente fria que provocou condições severas de formação de gelo. Segundo o Fantástico, diálogos extraídos das caixas-pretas revelaram a progressão da crise na cabine.
- Às 12h14, o sistema emitiu um alerta sonoro de detecção de gelo na asa direita.
- O comandante reconheceu a falha no equipamento de degelo, o “airframe”: “É o airframe que deu fault”.
- Na sequência, às 12h15, o piloto Danilo Romano desligou o sistema de detecção, afirmando: “Pode tirar, pode tirar, pelo menos a gente já sabe que tá… [com mau funcionamento]”.
- Às 12h17, o comandante brincou: “Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele fusquinha, Herbie lá, Herbie, filme bem antigo”.
- Mesmo com alertas de perda de velocidade e falha no sistema de degelo, os pilotos não deixaram a área de formação de gelo, como previa o procedimento.
- Às 13h20, o copiloto Humberto Alencar avisou: “Bastante gelo”. Ele tentou acionar o sistema novamente, dizendo “ligar o airframe”, mas o comandante respondeu: “Essa b… não tá funcionando, né?”.
- Às 13h21, a última fala registrada foi do copiloto: “Gelo”.
- Um minuto depois, o avião caiu.
A Polícia Federal descobriu que o sistema de degelo havia falhado pelo menos 15 vezes antes, mas os defeitos não foram registrados no diário técnico. Se tivessem sido anotados, o avião não poderia ter decolado. Além disso, a aeronave não era homologada para voar em condições de gelo severo, que eram previstas na rota.
A investigação analisa possíveis falhas da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).
“Nós fizemos dois pedidos para a Justiça Federal de Campinas. Um deles que sejam compartilhadas a prova de toda a investigação com a própria Anac. E que encaminhasse cópia pra procuradoria da Republica do Distrito Federal para que seja analisado a possibilidade ou não de atos de improbidade, com eventual crime.”, diz o delegado André Ribeiro.
Ex-funcionário já havia relatado problemas
Segundo o Fantástico, um ex-inspetor da ANAC, exonerado no ano passado após 16 anos de serviço, já alertava sobre problemas na Voepass e alegava perseguição por parte de dirigentes da agência.
Em 2019, o homem recomendou a suspensão da autorização de voo da MAP Linhas Aéreas, que se fundiu à Passaredo para criar a Voepass, afirmando haver evidências de que algumas peças estavam sendo usadas sem avaliação de aeronavegabilidade. Segundo ele, essa recomendação não foi seguida pela agência.
Em 2022, o funcionário teria alertado que as peças de um avião acidentado em Rondonópolis (MT) em 2016 estariam sendo reaproveitadas ilegalmente. Sem providências internas, o homem enviou e-mails para órgãos internacionais (FAA e EASA), mas a ANAC desautorizou o inspetor perante essas agências.
O inspetor acabou respondendo a um processo interno por insubordinação antes de sua exoneração. Outras denúncias de prevaricação contra funcionários da ANAC foram arquivadas pelo Ministério Público Federal por falta de provas, mas um processo cível por injúria e difamação continua.
Segundo o Fantástico, a ANAC só cassou a autorização da Voepass em junho de 2025, dez meses depois do acidente.
O que dizem as empresas
De acordo com o Fantástica, a ANAC informou em nota que os achados sobre o avião de Rondonópolis foram analisados e que as peças passaram por checagem conforme as normas. A agência anunciou a abertura de um processo interno para verificar responsabilidades de servidores.
A Voepass garantiu que a segurança sempre foi prioridade, que seus treinamentos cumprem protocolos e que colabora com as autoridades. Além disso, o advogado do presidente da empresa, José Luiz Felício Filho, afirmou que ele não atuava na gestão direta na época, mas que havia determinado o cumprimento de protocolos de segurança e, após o acidente, reassumiu a gestão para promover mudanças.
Relembre a tragédia
A aeronave fez a primeira chamada ao Controle de Aproximação de São Paulo às 13h05, e reportou que estava no ponto ideal de descida às 13h18, sem relatar qualquer problema. O Controle instruiu a aeronave a manter a altitude por conta da presença de outra aeronave em rota convergente.
Às 14h20 o Controle orientou novamente a manter a altitude e que a descida seria autorizada em dois minutos. O controle da aeronave foi perdido e o acidente aconteceu às 14h22. A queda do avião vitimou 62 pessoas, entre passageiros e tripulantes do voo 2283 do ATR 72-500.





