Os recentes movimentos de empresas brasileiras abrindo filiais e polos de produção no Paraguai provocam uma dúvida recorrente: o Brasil está sofrendo um processo mais intenso de desindustrialização e perdendo empregos para o país vizinho? Embora concordem que a economia brasileira, na contramão da paraguaia, deixa de ser mais competitiva por ter um arcabouço fiscal tão complexo, empresários e especialistas consultados pela coluna divergem sobre esta visão.
Para o advogado tributarista Ivson Coêlho, o risco é real. Ele observa que essas mudanças têm sido gradativas e questiona se isso não pode esvaziar o parque industrial brasileiro no futuro. Por outro lado, pondera que ainda é cedo para cravar ou ter qualquer certeza do que pode acontecer mais adiante:
“Vai depender muito de política econômica e internacional, de negociações, de acordos, da manutenção ou não desses benefícios fiscais. Agora eles estão colocando (os incentivos) para atrair. Mas será que daqui a 20 anos vão renovar? Isso é algo que a gente não consegue responder ainda”.
A presidente da Câmara de Comércio Exterior da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Maitê Bustamante, prefere adotar um tom mais cauteloso e evita generalizações, reforçando que é preciso analisar caso a caso. Ela aponta que, com raras exceções, indústrias catarinenses, por exemplo, não estabeleceram toda a cadeia produtiva dentro da Maquila, nem transferiram tecnologia para o Paraguai. O que elas fizeram foi aproveitar os benefícios do regime para instalar parcialmente fases da produção que se mostraram mais relevantes, de acordo com as características de cada negócio.
“A desindustrialização é quando efetivamente uma indústria fecha as portas, transfere-se para outro lugar e começa a fabricar 100% naquele país. Não é o caso. Nenhuma das indústrias que eu conheço em Santa Catarina fechou as portas aqui e se transferiu totalmente para o Paraguai”, nota.
Operação de apoio
O presidente da Karsten, Márcio Bertoldi, vai na linha de que o Paraguai serve como uma operação de apoio. A abertura de uma fábrica no país vizinho não significou desinvestimento em Santa Catarina, pelo contrário. Em junho, a companhia anunciou um aporte de R$ 4 milhões na compra de maquinário de tecnologia alemã para a confecção de tecidos felpudos. Mais 24 teares importados do Japão também chegarão em breve para reforçar a matriz brasileira.
No país vizinho, além da redução de custos, a ideia da companhia é facilitar a internacionalização, inicialmente com produtos mais básicos. No caso da indústria têxtil, Bertoldi avalia que o Paraguai ainda tem muito a evoluir para rivalizar em pé de igualdade com o Brasil.
“Tem que ter muito conhecimento técnico embarcado, e isso não se compra, se desenvolve. E desenvolvimento de gente, conhecimento, vai mais de 20, 30 anos”, acredita.
Neste sentido, a ameaça maior, avalia ele, ainda é asiática, com a importação de produtos acabados, realidade que já afeta mais fortemente a indústria de confecção e vestuário.
“É uma visão distorcida achar que o Paraguai é o problema”, diz Tiago Altenburg, presidente da Altenburg, que também usa a operação paraguaia para fabricar itens básicos e finaliza artigos de maior valor agregado, como edredons, no Brasil.
Quando a migração não compensa
O generoso pacote de incentivos fiscais e as despesas menores de produção do Paraguai, que incluem ainda energia elétrica e combustível em média mais baratos que no Brasil, podem parecer irresistíveis à primeira vista, mas não necessariamente se encaixam para qualquer tipo de negócio.
A gestora blumenauense Posthaus chegou a estudar a lei da Maquila e a considerar desenvolver uma de suas marcas, a Quintess, de moda feminina, no país vizinho. Mas, depois de avaliar prós e contras e colocar tudo na ponta do lápis, optou por manter a produção localmente.
Pesou para a decisão o modelo de negócio adotado pela companhia. A Posthaus mantém uma área de inteligência e criação de coleções, mas não confecciona na ponta, função que é delegada a parceiros terceirizados da região. Como a Quintess atua no conceito de ultra fashion – peças produzidas em menor escala e com alto giro –, a ida para o Paraguai fez pouco sentido.

Só neste ano, a marca deve lançar 900 produtos.Neste caso, o diferencial se revelou ter quem fabrica mais perto de casa para garantir previsibilidade operacional e facilitar o controle de qualidade. Com isso, ajustes de modelagem e caimento e testes de tecido são feitos sem barreiras alfandegárias e de fuso horário, o que também agiliza a logística de distribuição.
“É um modelo mais dinâmico. Quando avaliamos montar uma fábrica lá, não fez muita diferença no nosso custo de hoje”, explica Robson Parzianello, diretor comercial do Grupo Posthaus.
Parzianello também faz uma observação sobre a mão de obra paraguaia. No país, o salário mínimo é proporcionalmente maior que no Brasil, mas os custos da remuneração são mais baixos. Lá, o trabalhador tem menos benefícios, o que também levanta um debate sobre bem-estar social. Não há seguro-desemprego nem FGTS, a jornada semanal em média é superior e o período de férias é condicionado ao tempo de contribuição para a empresa.
Para o empregador, esse pacote barateia a folha de pagamento e serve como atrativo. Mas com o fluxo crescente de empresas para o país, aumentou também a necessidade de pessoal, o que inflaciona salários.
“Hoje a precificação se elevou e já existe uma disputa, até uma certa escassez em algumas áreas”, avalia o diretor.
