A Justiça de São Paulo analisa uma disputa envolvendo o filme brasileiro Depois do Universo, lançado pela Netflix em 2022.
Os escritores João Paulo de Carvalho Ribeiro e Lídia Bueno de Oliveira Ribeiro acusam a plataforma e o diretor Diego Freitas de terem reproduzido elementos centrais do livro Juilliard – A Arte do Amor, publicado em 2018, segundo a coluna da Fábia Oliveira, no Metrópoles.
Os autores pedem que a Justiça reconheça a existência de plágio e determine o pagamento de indenizações por danos materiais e morais.
A Netflix e o cineasta, porém, negam a acusação e sustentam que as semelhanças apontadas fazem parte de características comuns ao gênero dramático conhecido como sick-lit.
Qual é a história de Depois do Universo?
Lançado em 2022, Depois do Universo acompanha Nina (Giulia Be), uma jovem pianista diagnosticada com lúpus que enfrenta as limitações provocadas pela doença enquanto busca realizar o sonho de tocar com a Orquestra Sinfônica de São Paulo.
Durante o tratamento, ela conhece Gabriel (Henry Zaga), um médico que acompanha seu caso. Os dois desenvolvem um relacionamento enquanto Nina enfrenta o agravamento de sua condição de saúde.
O longa combina romance e drama médico ao acompanhar os desafios da protagonista, sua relação com a música e a tentativa de concretizar seus objetivos profissionais e pessoais.
O que é sick-lit?
O sick-lit é um subgênero da literatura contemporânea, frequentemente associado à ficção juvenil, em que doenças graves, crônicas ou terminais ocupam papel central na narrativa.
O termo vem da combinação das palavras inglesas sick, que significa “doente”, e lit, abreviação de literature (“literatura”). As histórias costumam misturar romance, drama, doença, morte e luto.
Entre os exemplos citados pelas defesas estão obras como A Culpa é das Estrelas, Um Amor para Recordar, Como Eu Era Antes de Você e Outono em Nova York.
Por que o filme é acusado de plágio?
Na ação, os escritores afirmam que publicaram Juilliard – A Arte do Amor quatro anos antes da estreia do filme e que identificaram entre as duas obras “a mesma essência, a mesma ideologia, o mesmo enredo”.
Segundo os autores, os dois trabalhos apresentam uma jovem pianista que convive com uma doença grave desde a infância e se apaixona por um homem chamado Gabriel. A relação se desenvolve enquanto o estado de saúde da protagonista piora.
Os escritores também apresentaram um quadro comparativo com dezenas de supostas coincidências envolvendo personagens, acontecimentos, estrutura narrativa e elementos do desfecho.
Entre os pontos citados estão recursos como um piano imaginário, sangramento nasal e a piora progressiva da saúde da protagonista.
Os autores também mencionaram entrevistas de Diego Freitas nas quais o diretor falou sobre pesquisar obras de outros artistas durante seu processo criativo. Para eles, essas declarações justificariam a realização de uma perícia técnica para verificar se houve aproveitamento indevido da estrutura do livro.
O que dizem Netflix e diretor?
A Netflix e Diego Freitas negam que tenha ocorrido plágio. As defesas argumentam que a legislação de direitos autorais protege a forma de expressão de uma obra, e não ideias ou temas gerais.
Para os réus, uma pianista com uma doença grave, um romance desenvolvido durante uma enfermidade e a busca pela realização de um sonho são elementos recorrentes em produções do gênero sick-lit e, portanto, não podem ser apropriados por uma única obra.
As defesas também afirmam não existir prova de que Freitas ou integrantes da produção tenham tido acesso ao livro antes da realização do filme. A simples disponibilidade da obra em plataformas digitais, segundo os argumentos apresentados, não seria suficiente para presumir que ela tenha sido conhecida pela equipe.
Os réus ainda destacam diferenças entre as histórias. Juilliard – A Arte do Amor acompanha uma adolescente com leucemia terminal que morre ao final da narrativa. Já Depois do Universo apresenta uma pianista adulta com lúpus, cuja história envolve a realização de seu sonho profissional após um transplante.
Também são apontadas diferenças entre os personagens, as doenças, os conflitos familiares e os desfechos das duas obras.
Diretor também pede indenização
Além de se defender da acusação, Diego Freitas apresentou uma reconvenção contra os escritores.
Segundo o diretor, desde 2023 ele é alvo de centenas de publicações nas redes sociais em que teria sido acusado de plágio e chamado de “ladrão”. A defesa afirma que as manifestações ultrapassaram os limites da liberdade de expressão e prejudicaram a honra e a reputação profissional do cineasta.
Por isso, Freitas pede indenização por danos morais e a retirada das publicações consideradas ofensivas.
O processo segue em análise pela Justiça de São Paulo. A banca BMA Advogados atua na defesa do diretor.
*Sob supervisão de Pablo Brito





