A Polícia Civil concluiu nesta terça-feira (11) que o menino de três anos, morto após não dar “bom dia” ao pai, e os quatro irmãos, com idades entre um e nove anos, eram submetidos a agressões físicas e psicológicas pelos próprios pais e orientados a esconder as marcas da violência. A investigação foi encerrada após a morte de Oliver Grayson, de três anos, espancado pelo pai em Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre, em 8 de julho.
O pai das crianças, o missionário norte-americano Dandre Grayson, e a mãe, Mayanna Rodgers, foram indiciados por homicídio duplamente qualificado e cinco crimes de tortura majorada. Os dois permanecem presos preventivamente.
Segundo a investigação, a violência contra as crianças teria ocorrido de forma sistemática ao longo dos anos em que a família viveu em diferentes cidades brasileiras. Exames físicos identificaram marcas, cicatrizes e mordidas de diferentes épocas nos filhos, com exceção da criança mais nova, de um ano.
A perícia realizada no corpo de Oliver também identificou múltiplas cicatrizes antigas, apontadas pela investigação como indícios de um histórico de violência.
De acordo com a Gaúcha GZH, depoimentos e diligências levaram a polícia a concluir que a mãe também agredia os filhos sob a justificativa de que a violência fazia parte da educação e da disciplina. Mayanna também teria orientado as crianças a esconder o corpo e a não contar a outras pessoas sobre as agressões praticadas pelos pais.
A investigação apontou ainda um forte controle psicológico exercido sobre os filhos. Durante avaliação psiquiátrica, as crianças teriam se recusado a conversar com a perita, com exceção de uma delas, que relatou poucos detalhes.
Menino foi espancado após não dar “bom dia”
A investigação começou em 5 de julho, quando Dandre foi preso após espancar Oliver. Conforme a apuração policial, o pai admitiu ter agredido o filho porque o menino não teria lhe dado “bom dia”.
Oliver sofreu lesões graves e traumatismo cranioencefálico. Ele foi levado ao Hospital de Pronto Socorro (HPS), onde permaneceu internado, mas morreu em 9 de julho. A perícia necroscópica concluiu que a causa da morte foi traumatismo cranioencefálico grave, com hemorragia subdural.
Durante a agressão que provocou a morte do menino, a mãe estava em um quarto ao lado. A polícia descartou a versão de que Mayanna não teria ouvido o espancamento. A conclusão levou em consideração as características da residência, descrita como pequena, construída em madeira e com cômodos sem portas, separados por lençóis, além da intensidade da violência e dos gritos da criança.
A defesa de Mayanna afirma que ela não ouviu as agressões porque estava no quarto ouvindo música.
Pai também é investigado por violência contra a esposa
Em um segundo inquérito, aberto para investigar episódios de violência doméstica contra Mayanna, Dandre também foi indiciado por injúria, violência psicológica, vias de fato e estupro contra a própria esposa, segundo a Gaúcha GZH.
Apesar das suspeitas de violência praticada contra ela, a investigação apontou que a mãe teve oportunidades ao longo dos anos para procurar ajuda e relatar o que acontecia com os filhos, inclusive durante visitas de agentes públicos à residência da família.
Os quatro irmãos de Oliver foram retirados do convívio familiar e encaminhados para locais protegidos.
Crianças já haviam sido abrigadas em SC
Antes da morte de Oliver, o menino e os irmãos já haviam sido afastados dos pais e abrigados em Santa Catarina. Eles retornaram ao convívio familiar pouco mais de um ano antes do crime.
A família tinha histórico de violência ou acompanhamento do poder público em ao menos três cidades: Águas de Lindoia e Mogi Mirim, em São Paulo, e Palmitos, no Oeste de Santa Catarina.
Em Viamão, a família também era acompanhada havia meses pelo Conselho Tutelar e pela prefeitura. Uma enfermeira chegou a acionar a rede de proteção após perceber machucados nas crianças, mas um relatório produzido posteriormente não apontou vestígios de violência.
A Polícia Civil também analisou a conduta de agentes da rede de proteção de Viamão e concluiu que não foram identificados elementos de dolo capazes de configurar crime por parte dos servidores. A prefeitura do município mantém uma investigação própria sobre o caso.
Com a conclusão do inquérito e o indiciamento dos pais, o caso segue para análise do Ministério Público e do Poder Judiciário.
