Oscar Wilde disse: ‘Os filhos começam amando os pais; à medida que crescem, julgam-nos; às vezes, perdoam-nos’

Quase todo filho atravessa as duas primeiras etapas descritas por Wilde sem perceber: a terceira é a única que ele não trata como certa, e é justamente onde a maioria das famílias empaca

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Retrato fotográfico de Oscar Wilde, preferencialmente o de estúdio da década de 1880, em preto e branc

Oscar Wilde nasceu em Dublin, em 1854, e construiu a carreira literária em Londres. (Foto: Reprodução)

Existe um momento que quase todo mundo atravessa e poucos comentam. É o almoço de domingo em que a pessoa percebe, pela primeira vez, que o pai repete a mesma história porque tem medo do silêncio. Ou a viagem em que a mãe fala mal de uma tia e a filha reconhece ali um hábito que ela própria carrega. Nada acontece. Ninguém discute. Mas alguma coisa muda de lugar e não volta.

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Oscar Wilde descreveu esse deslocamento em uma única linha, no meio de um romance. Para ele, a relação com os pais não é um estado, é uma sequência. Começa como afeto sem exame, porque a criança pequena não tem repertório para avaliar quem cuida dela. Depois chega a capacidade de comparar, e com ela vem o julgamento. O terceiro movimento é o único que Wilde não garante.

Os filhos começam amando os pais; à medida que crescem, julgam-nos; às vezes, perdoam-nos.

A sequência reaparece hoje em terreno novo. Na terapia, quando o adulto refaz a própria infância com vocabulário técnico. Nas redes, onde vídeos sobre pais ausentes e mães controladoras acumulam milhões de visualizações. Nas conversas entre irmãos que descobrem, já adultos, que cresceram em casas diferentes dentro do mesmo endereço. O julgamento ficou mais fácil de formular. O perdão não ficou mais fácil de conceder.

A frase está no capítulo 5 de “O Retrato de Dorian Gray”, publicado em 1890, e não pertence a nenhum personagem. É o narrador quem intervém, no instante em que um rapaz observa a vaidade da própria mãe e enxerga nela um risco para a irmã. Wilde não escreveu um conselho, portanto. Escreveu uma constatação, colocada exatamente no ponto em que um filho sai da primeira fase e entra na segunda.

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A frase não autoriza o tribunal permanente. Ela não sugere que julgar os pais seja o ponto final da maturidade, nem que perdoar seja obrigação de quem foi ferido. As duas palavras que recusam essas leituras são “às vezes”. Perdão, na formulação de Wilde, é possibilidade e não etapa obrigatória, e quem não chega lá não fracassou em nada. Quando a relação com a família produz sofrimento persistente, o apoio de um profissional de saúde mental faz mais diferença do que qualquer sentença literária.

Vale reparar em qual dos três verbos você está agora. Nenhum deles é definitivo, e a maioria das pessoas circula entre eles mais de uma vez ao longo da vida, às vezes com o mesmo pai, no mesmo ano.

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