Hakuna matata: o que a expressão em suaíli realmente significa e por que ela não nasceu com O Rei Leão

Do ponto de vista linguístico, a expressão pertence a uma língua específica, falada por dezenas de milhões de pessoas na África Oriental

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O suaíli é idioma oficial da Tanzânia e do Quênia e serve como língua franca em boa parte da África Oriental. (Foto: Reprodução)

Expressões estrangeiras entram em uma língua por três portas principais: comércio, migração ou entretenimento. A terceira é a mais rápida e a menos precisa, porque a palavra chega acompanhada de uma narrativa pronta. Foi o que aconteceu com hakuna matata no Brasil. Ela desembarcou em 1994, dentro de um desenho animado, colada a dois personagens cômicos e a uma filosofia de despreocupação. Quase nada disso pertence à expressão original.

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A primeira correção é de endereço. Hakuna matata pertence ao suaíli, também grafado swahili, língua da família banta falada por dezenas de milhões de pessoas. É idioma oficial da Tanzânia e do Quênia, e circula em Uganda, na República Democrática do Congo, no Burundi e em Ruanda. Descrevê-la como expressão africana é impreciso na mesma medida em que seria impreciso chamar saudade de palavra europeia. O continente reúne mais de mil línguas, e essa é uma delas.

Hakuna matata

A tradução direta é simples. “Hakuna” é a negação de existência, equivalente a não há. “Matata” significa problemas, encrencas, no plural. Juntas, as duas palavras dizem literalmente que não há problemas, com o mesmo peso coloquial de sem problemas, tranquilo ou de boa em português. Não é uma máxima filosófica nem um preceito espiritual. É uma resposta cotidiana, do tipo que alguém dá ao ser agradecido por um favor pequeno.

A expressão também não estreou no cinema. Ela já aparecia em “Jambo Bwana“, canção lançada em 1982 pela banda queniana Them Mushrooms, que vendeu dezenas de milhares de cópias e virou um clássico do país. A Disney pediu registro de marca sobre a expressão em 1994, ano do lançamento do filme, e obteve a proteção nos Estados Unidos em 2003, restrita a vestuário e calçados.

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O assunto voltou a circular em 2018, quando uma petição acusou a empresa de apropriação cultural e reuniu mais de cem mil assinaturas. A advogada queniana de propriedade intelectual Liz Lenjo, ouvida na época, ponderou que registros de marca protegem a aplicação criativa sobre a linguagem em um produto, e não a língua em si.

Há um dado que complica a leitura mais simples desse episódio. “Jambo Bwana” é classificada como hotel pop, gênero produzido para plateia turística, com versos que enfileiram cumprimentos básicos em suaíli para visitantes estrangeiros. Ou seja, antes de virar produto global, a expressão já circulava em um registro voltado a quem não fala a língua. A Disney amplificou uma exportação que já estava em curso, o que não encerra a discussão sobre o registro de marca, mas desloca a pergunta.

O que sobrou dessa viagem é um caso corriqueiro de empréstimo linguístico com mudança de registro. Uma expressão banal em um idioma vira, em outro, algo próximo de um lema. Quem visita Nairóbi ou Zanzibar e diz hakuna matata será entendido sem esforço, e provavelmente também será identificado, na mesma frase, como alguém que chegou de fora.

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A maior lição de O Rei Leão é mostrar como um filho se orienta depois que o pai se vai.