Um vídeo começou a circular nas redes sociais na terça-feira (12) e mostra a Guarda Municipal de Joinville durante uma sequência de tiros de borracha contra um morador. A ação teria sido motivada porque o homem, de 35 anos, tentou proteger a construção da família, que iria ser demolida após ordem da prefeitura da cidade. A administração municipal afirma que construção estava sendo feita em área de conservação ambiental, mas a família alega que não foi comunicada sobre a ação. Ainda, o morador teria tido o braço quebrado pelos agentes durante a ocorrência, denunciou a irmã.
O vídeo foi gravado no dia 3 de agosto e mostra dois irmãos sobre a fundação de uma construção, no bairro Morro do Amaral, localizado na periferia de Joinville. No local, há apenas o chão e parte de uma parede de tijolos. Os dois estão unidos para impedir que a máquina derrube o pouco que a família conseguiu construir. De acordo com a prefeitura, a construção deles é uma das dez que foram alvos de demolições por estarem em área de conservação ambiental. De acordo com a mulher, entretanto, as autoridades não apresentaram nenhum papel que indicasse a ordem de demolição.
Confira o vídeo
Ainda segundo a moradora, o terreno em questão pertence ao avô dela, que deixou um pedaço de terra para cada um dos filhos. Todos construíram casas no local e outra familiar, então, também começou a construir há algum tempo. Ela também informou que eles não haviam sido notificados anteriormente. A partir disso, os irmãos se uniram para tentar proteger o pequeno patrimônio da família.
No vídeo é possível ver os dois irmãos em pé sobre a fundação. Ambos pedem que a Guarda Municipal, que se aproxima, mostre as documentações. Nervoso, o homem então anda até os agentes, que pedem que ele se afaste. Ele obedece a ordem e volta até a construção.
A família resiste até que um dos agentes da Guarda Municipal aciona o spray de pimenta a fim de afastar os irmãos do local, enquanto a máquina continua se aproximando da pequena edificação. Neste momento, o homem joga um tijolo contra o oficial e, aí, a sequência de tiros de bala de borracha começam.
O irmão se afasta enquanto a mulher continua sobre a construção, mesmo sendo atingida pelos tiros de borracha. Ela só se afasta quando recebe outros jatos de spray de pimenta no rosto. Então, a máquina derruba a estrutura que nem chega a formar uma parede completa e a gravação do vídeo é finalizada.
Ainda de acordo com a família, em outro momento, a Guarda Municipal tentou conter o irmão que acabou tendo o braço quebrado pelos agentes, conforme informações dos familiares. Ele teria, inclusive, passado por uma cirurgia ao longo desta quarta-feira (12).
Veja fotos das demolições em Joinville realizadas no dia 3 de agosto
Prefeitura alega que local é área de conservação
Em nota, a prefeitura de Joinville informou que no dia 3 de agosto realizou a demolição de dez construções irregulares localizadas em área de Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), unidade de conservação legalmente protegida, no Morro do Amaral. Nenhum dos imóveis era habitado.
A ação atende ao Decreto nº 72.854/2026, que determina o monitoramento pelos órgãos municipais de construções irregulares em áreas de conservação ambiental e estabelece providências para a demolição de novas edificações identificadas nesses locais.
“Em um dos terrenos, um cidadão tentou impedir o trabalho do maquinário. Diante disso, primeiramente os agentes da Guarda Municipal tentaram negociar com o homem para que ele deixasse voluntariamente o local. Diante da evolução da situação e do manuseio de um tijolo pelo cidadão, caracterizando uma ameaça à integridade dos agentes, foram empregados gradativamente meios de menor potencial ofensivo, com a utilização de espargidor de agente químico (spray de pimenta)”, relatou a prefeitura.
O governo municipal afirma que, ainda assim, a agressão continuou e o homem arremessou o tijolo, que atingiu um dos guardas municipais. Diante disso, os agentes utilizam a munição de impacto controlado direcionada aos membros inferiores a fim de conter o indivíduo. Ele foi algemado e conduzido à Polícia Civil por desobediência e resistência.
“Destaca-se que a atuação da Guarda Municipal ocorreu dentro dos parâmetros legais e técnicos, considerando o uso progressivo da força, priorizando inicialmente a comunicação e empregando de forma progressiva e proporcional os meios necessários para preservar a integridade física dos agentes e garantir a continuidade da operação”, citou.
Alceu de Oliveira Pinto Junior é advogado Criminalista, formado em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Ciência Jurídica e diretor da Escola de Ciências Jurídicas e Sociais da Univali. Ele foi consultado pela equipe da NSC sobre a ação dos agentes e informou que, em sua leitura, não houve uso desproporcional da força pelos agentes de segurança na ação.
“Pelo vídeo não vi excesso nenhum, a autoridade ali estava fazendo o seu papel. Certamente, teria um documento para a demolição, tanto que tinha a máquina deslocada para fazer essa demolição, e o principal utilizado foi o gás de pimenta ali mesmo, que é o menos letal, embora perigoso, mas é o menos letal para fazer essa operação. O uso da bala de borracha foi depois que o cidadão arremessou um tijolo contra a guarnição, ele colocou em risco a própria guarnição que precisou tomar essa reação, então não vi efetivamente algum excesso”, informou.
Os familiares, entretanto, afirmam que durante a ação os agentes teriam tentado conter o irmão e acabaram quebrando o braço dele. Além disso, informaram que não foram apresentados documentos sobre a demolição.





