Com um “Uninho” bordô batido e indo de “porta em porta” vendendo panelas, Dona Norma Sachete começou o que seria uma história que resultou na rede Donna Coisas & Tal, loja de utilidades fundada em Joinville e que vai inaugurar sua décima e maior unidade em Balneário Barra do Sul, no Litoral de Santa Catarina.
Sua trajetória foi marcada por muitas mudanças, de Francisco Beltrão no Paraná, precisou sair de um casamento, marcado pela violência, com seus dois filhos, para recomeçar a vida. Precisou ficar na casa do seu pai, pelos meados dos anos 2000, onde foi se reerguendo e buscando novos rumos. Resolveu vir para Joinville, onde fundou a loja que se tornou a rede, atualmente.
Veja fotos da loja Donna em Barra do Sul:
A vinda para a maior cidade catarinense: “como eu vou me achar aqui?”
Foi em 2006 quando ela veio para a maior cidade de Santa Catarina em busca de oportunidades e emprego, já em um novo casamento. “Eu vim para cá para vender suplementos alimentares. Mas, na verdade, o que eu vislumbrei aqui foi uma cidade que tinha muito emprego, porque eu não pensava em mim, eu pensava no futuro dos meus filhos”, contou em entrevista ao NSC Total.
Porém, o negócio do suplementos não estava indo muito bem, foi quando uma amiga, que tinha uma fábrica de panelas, ofereceu a oportunidade de vender os produtos.
“E eu disse para ela que eu não sabia vender. E aí ela disse para mim: ‘olha, se você consegue vender suplemento alimentar, imagina uma panela que todo mundo precisa usar!”
Então ela aceitou como uma espécie de “experiência”, até porque sua amiga não tinha representantes em Joinville. “Eu não conhecia Joinville e na época não tinha GPS. Eu pensei, ‘meu Deus, eu vim de uma cidade de 60 mil habitantes, com uma cidade de 600 mil, como é que eu vou me deslocar aqui?’ Mas eu fui aprendendo a me deslocar e conhecer a cidade.”
Dona Norma conta que ia de posto em posto perguntar como chegar até sua casa. Quando se perdia, ela recorria aos “orelhões”, os telefones públicos, para ligar para o seu ex-marido e tentar descobrir como voltar para casa. “Eu liguei para ele e falei: ‘Eu não sei onde é que eu estou. Estou perdida”. E ele dizia: “Calma. Vai a um posto de gasolina e pergunta como faz para ir para o Boa Vista”, disse.
E, pelas ruas de Joinville, ela ia com seu Uno, “sempre com a luz de reserva acessa”, como descreveu. A empreendedora compartilhou que não tinha dinheiro para colocar gasolina, e às vezes abastecia ali seu 1 litro só para chegar ao destino. “Mas, Deus foi tão bom comigo que sempre teve, sempre teve o mínimo, mas sempre teve. E eu também tinha dois filhos, né, nessa época eram pequenos e eles estavam comigo e eu precisava cuidá-los”, disse.
A primeira grande virada
Durante esse período de adaptação, uma ajuda mudou os rumos do trabalho. Norma conheceu um representante comercial que já atuava havia cerca de 15 anos na região. Ele entregou a ela uma lista de potenciais clientes e permitiu que usasse seu nome como indicação nas visitas. “Ele me deu uma lista de contatos e falou: “Tu vai nesse lugar e fala que fui eu que te mandei’, isso me abriu muitas portas”.
A partir dessas indicações, Norma começou a ampliar a carteira de clientes e a ganhar espaço como representante comercial na região. Foram cerca de 7 anos atuando com as vendas de panelas e outros produtos como potes de plásticos e utensílios. Norma chegou a atender 23 municípios e, em alguns períodos, saía de casa na segunda-feira e retornava apenas na sexta.
E agora, vamos abrir uma loja?
Norma conta que seu ex-marido foi uma pessoa que a incentivou e a encorajou muito na sua vida. Nessa rotina de vendedores, que ele também exercia a função, e da rotina cansativa de viagens, ele começou a trazer a tona um sonho: abrir a loja para trabalharem juntos.
“Ele dizia: ‘Eu sonho de noite a gente fechando aquela porta de rolar e indo para casa”, contou Norma.
Ela, porém, ainda não se imaginava como lojista. A ideia começou a ganhar força depois de uma visita a uma cliente em Guaramirim. Norma encontrou uma pequena loja de roupas e calçados em que os produtos eram vendidos por R$ 10. Uma sandália infantil chamou a atenção.
“Eu peguei aquela papetezinha e torci ela assim, ela era muito macia. Eu falei: ‘Meu Deus, mas isso é só R$ 10?’. Ela disse: ‘Sim. Aliás, tu devia montar uma loja dessa‘. Eu falei: ‘Não, eu não tenho dinheiro para isso'”, relembra.
A sugestão da cliente encontrou justamente aquele sonho que o então marido já vinha colocando na cabeça de Norma. Aos poucos, algo que ela sequer considerava começou a parecer possível. Nisso, ela teve a oportunidade de comprar sua primeira loja. Ofereceu os dois carros da família e fez 10 cheques pré-datados para conseguir pagar.
“Chamamos o cara para conversar, oferecemos os dois carros que nós tínhamos. Eu tinha um Siena, que faltava quitar um pouco e (oferecemos) o Celtinha que meu ex-marido tinha, mais 10 cheques pré-datados. Ficamos a pé e fizemos o negócio em fevereiro de 2013”, conta.
Por um tempo tentou conciliar a carreira de vendas com o comércio, mas como trabalhava ela e o ex-marido, às vezes um funcionário junto, começou a ficar muito puxado e ela resolveu que iria focar apenas na loja, localizada no bairro Fátima.

Começaram a crescer
O crescimento começou ainda naquele primeiro ano. Em outubro de 2013, oito meses depois de assumir a unidade no Fátima, apareceu a oportunidade de comprar uma segunda loja, desta vez no bairro Itinga. Porém, os dez cheques usados na aquisição da primeira unidade ainda nem tinham terminado de ser pagos.
Mesmo assim, a família decidiu assumir novamente o risco e entrou em outra negociação com cheques pré-datados. A dívida da segunda loja tinha um prazo ainda menor: precisava ser quitada até o Natal. Segundo Norma, conseguiram pagar as duas primeiras unidades dentro daquele período.
Com o crescimento, outros integrantes da família começaram a participar do negócio, incluindo um dos filhos de Norma que até hoje trabalha com ela. Posteriormente, abriram uma unidade no Aventureiro e depois veio outra loja no Jardim Paraíso. A rede crescia ainda sob o nome Stop 10, marca que acompanhou os primeiros anos da trajetória.
De Stop 10 para Donna Coisas & Tal
A identidade que os clientes conhecem atualmente só apareceria anos depois. Após o divórcio de Norma, em 2018, a família começou a discutir um reposicionamento da marca. Além da necessidade de iniciar uma nova fase, o próprio nome Stop 10 havia se tornado um problema.
“As pessoas associavam o nome Stop 10 ao preço dos produtos e não entendiam que era apenas o nome da loja. Então começavam os questionamentos: ‘Ah, mas o nome lá fora está falando que é 10’. E eu respondia: ‘Gente, mas é o nome da loja’. Isso começou a gerar muitos conflitos com os clientes. Algumas pessoas ficavam incomodadas, diziam que a gente estava fazendo propaganda enganosa e chegamos até a perder clientes por causa disso.”
Em março de 2020, nasceu a Dona Preço Único. A mudança envolveu novas fachadas, identidade visual e remodelação das lojas. O lançamento ocorreu apenas duas semanas antes do lockdown provocado pela pandemia de Covid-19.
A crise sanitária trouxe outro problema. Com a inflação e a alta nos custos das mercadorias, tornou-se inviável manter todos os produtos dentro de um único preço. A rede passou a incluir itens de diferentes valores e, novamente, o nome já não representava o modelo do negócio. Foi assim que surgiu a Donna Coisas & Tal.
Corações entrelaçados representam sua história
O nome “Donna”, segundo Norma, também conversa com a essência feminina da empresa. Ela afirma que cerca de 90% do público da rede é formado por mulheres e que 99% do quadro de colaboradores também é feminino. A própria identidade visual carrega parte da história da fundadora. O símbolo com três corações entrelaçados representa Norma e os dois filhos, Diego e Bruno.
A inspiração veio de um período anterior à criação da empresa, naquele período que ela precisou sair com os filhos de casa e ir morar com seu pai. Sem cama, os três dormiam juntos em um colchão colocado no chão. “Eu dormia no meio. E aí foi onde foi criada a marca dos três corações entrelaçados”, explica.
A experiência daquele período também influenciou, segundo ela, a proposta comercial que a rede mantém atualmente. Norma conta que, quando os filhos eram pequenos, não tinha condições de comprar roupas novas para eles e dependia de peças usadas recebidas de outras pessoas.
“Eu enxerguei na loja a oportunidade de levar isso para as mães. De oferecer para as mães a alegria de poderem comprar um calçado novo para os seus filhos, de poderem comprar uma roupa nova para os seus filhos barato”, afirma.
Décima loja e planos de expansão
Agora, 13 anos depois da aquisição da primeira unidade, a Donna Coisas & Tal chega à marca de dez lojas com a abertura da unidade de Balneário Barra do Sul. Quem passa pelo local também foi tomado pela curiosidade pela faixa pendurada a frente do imóvel que diz “Calma, não é mais uma farmácia”. A inauguração será em setembro e deverá ser a maior unidade, até então, com cerca de 500 metros quadrados, localizada na Avenida São Francisco do Sul, 251.











