Durante décadas, as marcas da tortura ficaram escondidas sob camadas de tinta, reformas e mudanças na estrutura de um prédio que foi um dos principais centros de repressão da ditadura militar no Brasil. Mais de 50 anos depois, vestígios encontrados no antigo DOI-Codi de São Paulo chegaram aos laboratórios da UFSC Blumenau. “Agora sim, posso falar: achamos restos hemáticos [sangue]”, revela a pesquisadora Maryah Elisa Morastoni Haertel.
Maryah é física formada pela UFSC, pesquisadora na área de Ciências Forenses e técnica de laboratório de Física do campus Blumenau. Ela analisou amostras tão antigas que nem sequer existiam estudos suficientes para dizer com segurança como aqueles restos hemáticos teriam se degradado ao longo do tempo. O resultado confirmou a presença de restos biológicos compatíveis com sangue humano em um dos locais mais associados à tortura durante a ditadura.
A descoberta foi feita por meio de um projeto de pesquisa interinstitucional, com uma equipe de arqueologia composta exclusivamente por mulheres e o resultado foi publicado no fim de julho na revista Forensic Archaeology, Anthropology and Ecology, que pode ser lido em inglês neste link. Esses achados são provas materiais sobre a repressão vivida durante o período da ditadura militar brasileira, fundamentais para apoiar políticas de memória e justiça.
O projeto foi além da arqueologia forense, ele precisou se aprofundar em uma extensa pesquisa documental, coleta de testemunhos, arqueologia da arquitetura e ações de arqueologia pública. Uma equipe de filmagem acompanhou os trabalhos e um documentário deverá ser lançado, mas ainda não há data marcada.
Confira fotos da pesquisa
Entenda como começou a pesquisa
O prédio já não parecia mais com aquilo que foi. Na Rua Tutóia, 921, em São Paulo, três andares guardam uma história que, durante décadas, ficou escondida sob reformas, paredes modificadas e camadas de piso. Por ali passaram milhares de pessoas durante a ditadura militar. Algumas saíram, outras nunca mais voltaram. Lá ficava o complexo do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo.
Durante os anos 1970, o local foi o principal centro de repressão da ditadura militar, com mais de sete mil pessoas detidas e, pelo menos, 52 mortes documentadas. Por isso, é considerado como um dos mais ativos centros de tortura, interrogatório, assassinato e desaparecimento do país.
Quando Maryah entrou naquele espaço, em agosto de 2023, procurava vestígios dessa história. O trabalho exigia uma espécie de arqueologia do invisível. Antes de recolher qualquer amostra, a equipe precisou descobrir quais partes do prédio ainda correspondiam à época em que o DOI-Codi funcionava como centro de repressão. O piso que interessava nem era necessariamente aquele que estava à vista. Era preciso voltar no tempo camada por camada.
Um trabalho de três anos combinou investigação arqueológica, análise das intervenções no edifício ao longo dos anos e diferentes técnicas de ciências forenses. Depois, algumas das pequenas amostras coletadas viajaram mais de 600 quilômetros para Blumenau. Nos laboratórios da UFSC no Vale do Itajaí, por dois anos, foram então submetidas a diversas análises, como a espectroscopia de fluorescência, e métodos químicos, como o Teste de Kaslte-Meyer e Teste dos cristais de Takayama.
“É muito legal perceber a evolução tecnológica em ciências forenses, e mostrar que análises antes inimagináveis agora podem ser realizadas. Ainda precisamos de pesquisas, ainda precisamos de desenvolvimento e de gente trabalhando na área. Mas é possível investigar crimes com mais de 50 anos e tentar dar materialidade aos eventos discorridos por várias testemunhas. Mas não se enganem achando que o trabalho é simples: garantir toda a metodologia utilizada foi um desafio, principalmente quando algo assim nunca foi feito no mundo”, destaca Maryah.
Em novembro de 2025, mais uma parte do trabalho de campo no DOI-Codi foi feito por conta dos resultados preliminares. A equipe mais uma vez se deslocou até São Paulo, dessa vez em busca de melhorar as análises na sala da enfermaria do prédio. Mais uma vez, luzes forenses, luminol e métodos imunocromatográficos guiaram os pesquisadores pelo local. No fim, o novo conjunto de materiais encontrados também foi levado aos laboratórios da UFSC Blumenau para análise.
A pesquisa interinstitucional foi coordenada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com participação da UFSC Blumenau, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de São Paulo (USP).
A prova que sobreviveu ao tempo
Três principais dificuldades foram apontadas pela pesquisadora para que a análise fosse possível. Primeiro, era necessário separar e encontrar métodos que poderiam confirmar a presença de sangue tão antigos. Segundo, estudos que analisavam resquícios de sangue tão antigos eram poucos e limitados, o que dificultava uma base de dados sólida e confiável.
“Eu ficaria muito feliz se tivesse encontrado pesquisas com mais de dez anos. Na grande maioria dos trabalhos, o interesse é sangue recente até 60 dias ou até, no máximo, dois anos. Saber como o sangue se degrada, em condições ambientais, após 40 anos da deposição, foi um desafio. Não há bases de dados de comparação atualmente”, esclarece Maryah.
O terceiro obstáculo foi a cadeia de custódia das evidências, que é o conjunto de procedimentos usados para manter e documentar o histórico cronológico de um vestígio coletado em locais de crime, por exemplo. O prédio do DOI-Codi não fechou nos anos 1990, ele seguiu sendo utilizado e foi tombado como patrimônio histórico somente em 2014.
Entre uma coisa e outra, as paredes foram modificadas, os pisos foram substituídos e a aparência do lugar deixou de corresponder exatamente com o espaço em que os crimes da ditadura aconteceram. Antes de procurar pelo sangue, era preciso procurar o próprio prédio.
“Foram realizadas alterações arquitetônicas importantes, e nada que estivesse visível poderia ser ligado diretamente aos crimes cometidos nas décadas de 1960, 70 e 80. Por isso, um estudo histórico e arquitetônico foi realizado, para identificar qual era o piso da época e chegar até ele, escavando camada por camada. Ou seja, não foi chegar e coletar qualquer coisa: teve toda uma parte documental antes, para entender o prédio e o que, de verdade, poderia ser encontrado lá”, explica a pesquisadora da UFSC Blumenau.
A equipe do projeto tentou ainda realizar a análise de DNA das amostras, com o objetivo de cruzar as amostras com informações de pessoas presas ou desaparecidas durante o período da ditadura militar. Porém, não foi possível fazer nenhum tipo de identificação uma vez que os vestígios estavam muito degradados.
“As análises presuntivas nos animaram, mas não era possível confirmar sangue. Essa confirmação só pode ser realmente feita agora, após todo o processo de análise, assim como após passar pelo escrutínio da comunidade científica e ser publicado. Agora sim, posso falar: achamos restos hemáticos”, celebra a pesquisadora.





