Uma das maiores produtoras de açúcar, etanol e energia limpa do Brasil acaba de garantir R$ 53,99 milhões para transformar seus processos no campo e na indústria. O investimento liberado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) beneficia a Agrovale, instalada em Juazeiro, no norte da Bahia. A operação, intermediada pelo Bradesco dentro do programa Fundo Clima, foca na economia drástica de água e no uso eficiente do bagaço da cana para multiplicar a produção elétrica sem derrubar árvores a mais e nem expandir a área plantada.
Do valor, R$ 39,27 milhões cobrem a migração do sistema antigo de irrigação por encharcamento para a tecnologia de gotejamento subterrâneo por mangueiras em 490 hectares. A mudança faz o reaproveitamento de água saltar para 95%, reduzindo as perdas na lavoura para menos de 5%. O restante de R$ 14,72 milhões vai para a modernização das caldeiras e dos sistemas de queima da fábrica. O movimento busca aliviar a retirada de água no Rio São Francisco, ponto crítico em uma das áreas mais secas do território nacional.
Economia regional e geração de empregos
Única usina de etanol e açúcar em operação contínua na faixa do semiárido brasileiro, a Agrovale sustenta o posto de principal empregadora privada do norte baiano, com mais de 4 mil postos de trabalho diretos. A movimentação da empresa impulsiona a economia local e os setores de comércio e serviços nas cidades distribuídas ao longo da bacia do São Francisco.
A estrutura em Juazeiro reúne 17,5 mil hectares de canavial irrigado em área contínua, com potencial de até 2,5 milhões de toneladas por safra. O novo aporte do BNDES reforça um plano de expansão que ultrapassa R$ 500 milhões em aportes na planta industrial desde 2022, quantia que inclui R$ 175 milhões obtidos via crédito com incentivo fiscal. No campo socioambiental, a companhia preserva cerca de 52% de suas terras com cobertura nativa da Caatinga.
Impacto da irrigação por gotejamento na produtividade
A substituição pelo gotejamento altera a eficiência do cultivo. No modelo tradicional, a água corre exposta ao sol e evapora rapidamente por conta do calor intenso da região. Levantamentos do setor mostram que o encharcamento gera perto de 4 quilos de cana para cada mil litros de água, enquanto o gotejamento produz cerca de 11 quilos de cana com o mesmo volume aplicado.
Nas áreas que receberem as novas mangueiras, a colheita promete superar 200 toneladas de cana por hectare, rendimento muito acima do indicador médio do país. Essa otimização entrega mais matéria-prima por metro quadrado, poupando os recursos do São Francisco e blindando a produção industrial mesmo durante secas prolongadas.
Proteção ao Rio São Francisco e redução de impactos ambientais
A região formada por Juazeiro e pela vizinha Petrolina (BA), em Pernambuco (PE), se consolida como um dos polos agrícolas mais fortes do país, liderando a exportação de cultivos como manga e uva. Por se situar no médio São Francisco, todo o ecossistema produtivo local depende da vazão do rio e das reservas acumuladas no reservatório de Sobradinho, exigindo gestão responsável de cada litro d’água.
A renovação do parque industrial e dos métodos agrícolas também busca resolver um conflito antigo com a comunidade local. Moradores das redondezas relatam incômodo frequente com a fuligem lançada nas casas durante a queima da palha da cana na época da colheita. Os novos sistemas automatizados, somados às caldeiras de última geração, ajudam a reduzir a emissão de poluentes e tornam a operação industrial mais limpa para as cidades vizinhas.
*Com edição de Luiz Daudt Junior.
