Frases de Walden circulam há mais de 150 anos, e algumas circulam melhor do que outras. A das três cadeiras é das mais reproduzidas, e também das mais deformadas na passagem para o português. O motivo é que ela depende de um detalhe aritmético fácil de perder na tradução. Perdido esse detalhe, a imagem continua bonita e para de significar o que Thoreau quis dizer.
O contexto é conhecido. Entre 1845 e 1847, Henry David Thoreau viveu em uma cabana construída por ele mesmo às margens do lago Walden, em Massachusetts, e escreveu sobre a experiência. O capítulo intitulado “Visitantes” trata especificamente da vida social que ele manteve durante o período, e desmente de saída a fama de eremita. Ele afirma no mesmo capítulo que gosta de companhia tanto quanto qualquer pessoa e que não é naturalmente um solitário.
Eu tinha três cadeiras em minha casa; uma para a solidão, duas para a amizade, três para a sociedade.
A diferença está nos numerais. A versão que se popularizou em português diz uma cadeira para a solidão, uma para a amizade e uma para a sociedade, como se cada móvel representasse um conceito. No original, a contagem é cumulativa. Uma cadeira ocupada significa ele sozinho. Duas significam ele mais um visitante, e isso é amizade. Três significam ele mais dois, e a partir daí já é sociedade. Thoreau não está atribuindo símbolos a objetos. Está dizendo quantas pessoas cabem em cada tipo de convívio.
A frase seguinte, quase nunca citada, confirma a leitura. Ele conta que, quando os visitantes chegavam em número maior e inesperado, restava apenas a terceira cadeira para todos, e o grupo costumava economizar espaço permanecendo de pé. É uma observação doméstica e bem-humorada, não uma alegoria. As três cadeiras aparecem inclusive no inventário do mobiliário que ele lista em outro capítulo, ao lado de uma cama, uma mesa, uma escrivaninha e um espelho de três polegadas.
Restabelecido o sentido, o argumento fica mais interessante do que a versão simbólica. Thoreau não está hierarquizando estados de espírito. Está descrevendo uma escala em que a qualidade da conversa muda conforme o número de participantes. Com uma pessoa a mais, existe troca. Com duas, começa a haver plateia, e a plateia altera o que cada um se permite dizer. É uma observação sobre dinâmica de grupo feita por alguém que passou dois anos com tempo de sobra para observá-la.
O que sobra da correção não diminui a frase. Amplia. A versão popular oferece um conselho vago sobre equilibrar introspecção e vida social. O texto original oferece algo mais preciso e mais difícil de discordar: a partir de certo número de pessoas na sala, a conversa deixa de ser entre elas.
